Sobre as pedras…

Voltei.
E o que me fez voltar foi uma pedra. Não era uma pedra no sapato… ou no chão atrapalhando o passo. Era uma pedra na cabeça, mas ninguém a atirou, não foi Davi matando seu Golias. Foi uma pedra cuidadosamente posicionada. Uma pedra no chapéu, assim mesmo de um jeito caricato.

E desde que a pedra chegou, estabeleceu-se o luto, a perda, o silêncio cheio de palavras sem direção.

menina triste aquarela pintura desenho
De Sofia Bocatto

Mais um coração partido. Mais uma desilusão. Mais lágrimas. Menos certezas. 

Eu não sou muito linear. Na escola, ou eu tirei notas altas e fui muito responsável, ou desisti de tudo e fui uma falha abissal. Aqui em casa, ou eu limpo o liquidificador com a escovinha e o box com sapólio líquido, ou acumulo uma louça de três dias. Ou eu cozinho tudo do zero ou é melhor comprar a comida inteira pronta. Ou amor sem reservas, ou o esquecimento total.

Bom que ainda há tempo para aprender e, algumas vezes, o caminho do meio leva a algum destino inesperado, e a surpresa é sempre responsável pelo que é mais intenso. Intensamente belo ou feio, maravilhoso ou assustador, doce ou amargo. O problema é que, antes, em algum lugar no caminho, pode ter uma pedra. E tinha!

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade
In Alguma Poesia
Ed. Pindorama, 1930
© Graña Drummond

E foi assim que tentar acreditar, ou me esforçar para encontrar o meio, ou buscar asilo na minha ignorância, nos meus defeitos, na minha incapacidade não fez mais sentido. Diretamente do balde essas pedras de gelo foram arremessadas no vidro mais puro e delicado. E as lágrimas vêm quando percebo que essa placa só era transparente aos meus olhos, porque quando se quebrou, foi simples ver que havia muito mais oculto do outro lado.

Coração vidro quebrado broken heart
De Skrob

É legal fazer esse exercício sobre as pedras. Há as preciosas, semipreciosas e falsas. Se você for atento, vai perceber que as pedras artificiais brilham mais que as naturais e verdadeiras. O diamante geralmente é até um pouco opaco se comparado à zircônia, que, por sua vez, reflete menos luz que o strass. Nada disso será problema se você tiver a pedra filosofal, mas será que algo tão miraculoso existe?

Aí aparece uma questão difícil, pois se há milagre, é preciso haver fé. E se o seu coração estiver petrificado? E se após retirar-se pedra sobre pedra, ainda sobrar uma? E se a pedra angular ruir? E, afinal, como saber sobre qual pedra toda essa imponência foi edificada? Ainda há dúvidas, mas houve um tempo em que havia menos respostas ainda, justamente por elas serem tão necessárias. Talvez não sejam mais.

E talvez ninguém mais esteja interessado em ouvir sobre pedras atiradas construindo o castelo. Afinal, quem leva tantas pedradas assim? Quem desperta tanta inveja? E como ninguém tropeça em uma pedra enorme, são justamente as pequenas que causam os estragos, mas deve ser uma aqui outra ali, uma pedrinha de tropeço em cada rota, e é só ter o trabalho de desviar delas no chão mesmo, imagine ir recolhendo uma a uma, o peso que há de se carregar no fim da vida.

O que eu escrevi na pedra foi difícil de apagar. Ainda há muitos sulcos ali, um ligue os pontos que estou tentando transformar em uma palavra nova, sem adivinhar o que significa. Quis tanto construir a casa sobre a rocha, mas quando cheguei perto vi que a rocha era mais suscetível que a própria areia, uma lama endurecida que só precisava de uma lagriminha ou outra para ruir de vez.

Eu percebi algo acontecendo. Talvez a primeira pedra lançada no lago bem devagar tenha desencadeado mais ondas do que eu poderia imaginar. Acho que eu não queria atirar a primeira pedra, mas foi isso que me fez perceber a pessoa que eu era, o que eu pensava ser.  “Pedra que rola não cria limo”. É cansativo ficar parada olhando a pedra, e eu não tenho o chapéu. Acho que é hora de deixar essa pedra rolar e só esperar ver a que tamanho ela vai chegar.

Who says I can’t get stoned?

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16 comentários sobre “Sobre as pedras…

  1. V.a.l.e.r.i.a

    Não acredito!!! Que legal que você voltou! Eu amo ler as coisas que você posta, você não deveria ter parado. 🙂 Nem li os posts ainda mas já estou super empolgada.

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  2. Ai Valéria, que prazer ler o seu blog. Como você escreve bem; que linguagem leve, fluída e bonita. A sua escrita me faz até pensar em ler mais literatura em Português, porque no momento a minha escrita… Não está muito boa.

    Eu li esse post doente aqui em Bangkok, com febre, calafrios e muita sede, então não tenho certeza se entendi muito bem – até porque um texto assim, poético não necessita gerar certezas objetivas, né. Ainda assim queria te perguntar sobre essa pedra: é a questão da igreja? Infelizmente, como já disse no grupo, eu não consegui ouvir o áudio sobre isso.

    Beijos!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi, Camis, é isso mesmo, mas escrevi isso em um momento de ruptura, agora já está tudo bem. Vou explicar melhor lá no grupo, mas já estou bem. Espero que você tb já tenha melhorado! Bjs 🙂

      Curtido por 2 pessoas

      1. Obrigada pelos comentários e pelo contato, adorei!! Quero que você continue por aqui, sim, hein, se você não vier, te busco lá no seu blog! heheeh Bjos!!

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      2. Imagina! Eu só sigo quem eu realmente gosto!
        Ora, eu prometo que minha presença será manifestada uma vez ou outra em seu recanto da Web… Mas… Se vc me buscar, será mais fácil, para esta persona que vos tecla, prestar uma nova visita n’Uma pedra no caminho! =P

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  3. Oi, Val! Olha eu de novo. É que não posso deixar de comentar mais uma semelhança que encontrei entre a gente; o caso do (danoso, ao meu ver) oito ou oitenta. Meio termo não existe, ou é tudo ou nada, e Deus que me livre se alguém tentar mudar isso em mim haha De qualquer forma, de cara o nome do seu blog me chamou a atenção porque No meio do caminho é um dos meus favoritos de Drummond e a senhorita fechou esse texto maravilhoso com chave de ouro (John Mayer é uma espécie de paixão adolescente que nunca passou). Só queria dar os meus parabéns novamente pela iniciativa e pelo blog. Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

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