Um livrinho – O Conto da Ilha Desconhecida

Na quinta-feira estava com vontade de ler algo rápido e comecei a ver algumas crônicas do José Saramago. Há algo de especial na escrita dele. Como muitos clássicos são traduções, quando eu leio algo originalmente escrito em português, tenho aquela sensação de encantamento, de ver cada palavra que o autor pinçou e colocou no liquidinho no escuro esperando nosso olhar revelá-la.

É o trabalho de uma única pessoa, um diálogo dele conosco e, no caso do Saramago, é um pouco mais íntimo, pois ele sempre é narrador-autor (segundo ele mesmo), não é alguém distanciado, não é personagem; só é possível imaginar aquele senhorzinho, com aquelas sobrancelhas, com aquela voz que a gente mal entendia o que falava, contando o que ele imaginou, o que ele quis trazer a esse diálogo, no meio de uma tarde, com lençóis voando nos varais de algum lugar muito verde, muito quieto, em câmera lenta, um lugar com montanha e um pouco de mar também.

Já na tradução, alguém precisou se intrometer nessa conversa e o trabalho ganhou mais uma mão. Fica um pouco impessoal, não consigo imaginar Dostoiévski me contando nada. É só diferente, não me leve a mal. A história sendo mais importante que o autor, talvez.

Mas o Saramago é especial para mim. Ontem eu ouvi Oasis e fiquei pensando como Oasis foi a primeira banda de que eu mesma gostei sozinha. Eu os “descobri”. Não era o Chico Buarque que a minha mãe ouvia. Nem o Guns n’ Roses da minha irmã. Era a minha descoberta. E o Saramago foi meio assim. Sentei na livraria e comecei a ler Ensaio sobre a Cegueira. Foi a primeira vez desde os livros infanto-juvenis que eu simplesmente gostava muito de ler algo, não queria parar.

Eu tenho essa relação esquisita com os livros mesmo. Um monte de gente lê muito mais que eu, o problema é que alguns livros me emocionam muito, me deixam sem pensar em outras coisas, daí isso é algo que não dá pra acontecer toda hora, esses arrebatamentos de paixão dificultariam um pouco eu ter vontade de lavar a louça, ou traduzir 3.000 palavras por dia, ou sair dessa espiral que os livros certos, na hora certa, para a pessoa certa podem causar nos nossos pensamentos.

Conto ilha desconhecida José SaramagoAí na quinta estava lá eu lendo as crônicas e só pensando: que genial essa pessoa, essa escrita. Será que ele demorava muito para escrever ou as coisas já saíam assim ao natural? Na sexta-feira, li um livrinho do José Saramago, “O Conto da Ilha Desconhecida”. Está feito tudo de novo. Uma palavra já lembra outro livro, outro poema, outro sentimento, quando você vai ver, já está suspirando apaixonado pelas letrinhas e espaços enfileirados novamente.

Esse livro me lembrou de Eros e Psiqué, do Fernando Pessoa. E mais: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Enquanto a vida é limpar o castelo, receber homenagens, fazer pedidos, esperar sua vez na fila, alguém acredita que existe o desconhecido que vale a pena buscar. Para encontrar a ilha, é preciso navegar, sair de si, do seu lugar. Se o viajante ficar preso a si mesmo nunca vai se enxergar. Criar é preciso. Ninguém sabe o que é a ilha, onde está, até buscá-la, até transformar essa rota no mar incógnito no próprio destino.

barco mar saramago ilha desconhecida
De Luke Brookes

 

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7 comentários sobre “Um livrinho – O Conto da Ilha Desconhecida

  1. Muito engraçado o seu parágrafo sobre não ser possível ter esses arrebatamentos quando se tem louça para lavar e 3.000 palavras para traduzir. Vou ser dura no meu comentário de esquerda agora: é isso mesmo. A maneira como se organizou a sociedade industrial/pós-industrial não permite a quem trabalha poder fazer essas coisas. É impossível. Nunca se pensou em necessidades culturais ou de outros tipos que não a mera sobrevivência para quem trabalha. Por acaso alguém que trabalha no Mc Donalds ganhado uns 15 reais a hora vai ter incentivo ou energia para fazer tais coisas? É lógico que a coisa fica um pouco melhor à medida que você sobe a ladeira social e arranja empregos melhores, mas ainda assim é difícil.

    Eu sei que talvez você tenha escrito isso mais no intuito de expressar como esse arrebatamento te arrebata de tal forma que não é possível se ocupar dessas coisas ordinárias. O que eu acabei comentando é sobre como o “arrebatamento” das coisas ordinárias impedem qualquer arrebatamento literário. 🙂

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    1. Camila, é isso mesmo, entendi suas duas explicações! Acontece que com tudo o que temos de fazer (e olha que não pego mais fretado, o que já é um enorme avanço!) é difícil ter tempo para ler etc., porque mesmo que você tenha um tempo ao final do dia a sua cabeça já está cheia e ler demanda atenção. Por isso,se você precisou trabalhar, estudar, cuidar de casa etc. é mais fácil ver tv ou até ficar vagando na Internet sem precisar pensar. Ao mesmo tempo, eu, pelo menos sou muito emocional quanto essas coisas, e se eu abstrair demais, fica difícil voltar à terra firme e fazer essas coisas pragmáticas… Adorei vc por aqui, Camis!! Bjs

      Curtido por 1 pessoa

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