Cinco músicas para gostar da Björk

Cinco músicas para gostar de Björk

 

Eu tive um blog de listas de cinco coisas e lá eu havia começado a falar sobre músicas de alguns artistas que eu adoro, mas como se fosse uma indicação para um amigo. Sabe quando você quer conhecer mais sobre algo, ou alguém te despertou um interesse, mas você não sabe por onde começar? Lá eu falei sobre o Edu Lobo e comecei a esboçar algo sobre o Milton Nascimento, e talvez eu volte a eles, mas agora vou recomeçar do zero.

Gente, este post foi super difícil de fazer. Decidi começar pela Björk por que, apesar de ela ser incrível, demorei muito para admirar o trabalho dela. Agora um aprendizado valioso: Não confie no seu gosto, ele muda! Já a genialidade permanece. Para música, literatura e arte, em geral, se você se fechar, vai perder a chance de conhecer muita coisa legal. Se não conseguir engatar um livro que reconhece ter sido bem escrito, deixe ele lá em algum lugar da sua fila, mas não o descarte completamente.

Outro aspecto importante é que a música tem um poder de te tocar de maneira diferente em cada momento ou circunstância. Lembro-me de ter lido algo sobre isso no livro Alucinações Musicais: um homem tentava ir à mesma sala de concerto e ouvir a mesma música para reproduzir a sensação que tivera anos atrás, mas era impossível! É como o bolo da sua mãe na infância, não vai existir nenhum outro parecido porque não existe sucessão de acontecimentos e sensações iguais aos daquele dia.

Parece que em algum momento o *plim* acontece devido a uma conjunção de fatores. Então, vamos fazer assim, vou deixar este post aqui e de repente algum dia você pode voltar e dar uma ouvidinha. Esses dias, fiquei pensando que é muito importante saber a diferença entre “não entender” e “não gostar”. Sabe, às vezes, você não “captou”, então não tinha do que gostar. Mesmo que seja um entendimento super pessoal, que você que inventou, um sentido único no mundo, ok! Nós temos o direito de gostar ou desgostar, mas muitas vezes confundimos “não entendi” com “não gostei” e acabamos nos limitando. Se você leu um livro do qual não entendeu nenhuma palavra, na verdade você não gostou de não ter entendido.

Tenho um livro do Carlos Drummond de Andrade aqui cujas primeiras páginas são uma longa análise sobre o Poema de Sete Faces, aí depois que você leu tudo aquilo e pensa “poxa, finalmente entendi o que era esse poema”, o autor diz que enviou esse texto ao poeta e ele disse que não tinha pensado em nada daquilo! Bom, para não correr o risco de influenciar você com algo que é uma interpretação minha apenas, acabei inventando que seria bom encontrar algumas explicações da própria Björk sobre as músicas e pretendia fazer disso uma série de posts, algo como “cinco músicas para gostar desse e daquele outro”, com cada artista falando um pouco sobre suas composições. Acontece que, no caso da Björk, eu precisei traduzir todas as falas, porque simplesmente não as encontrei em português. Então não sei se vou continuar os posts dessa forma, mas em todo caso, acho que é legal para quem já admira o artista saber o que ele tinha para falar sobre sua prórpia obra.

As músicas que escolhi são verdadeiras pérolas para mim, um pequeno tesouro que entreguei a você com muito carinho. Não pretendo fazer um “O essencial de”, são músicas que acho lindas e uma boa introdução ao artista. Nem sempre o “melhor” é o começo mais adequado. Eu amo “Memorial do Convento” do José Saramago, mas acho que indicaria “A Viagem do Elefante” para alguém que nunca leu nada dele, só para evitar o choque! Eu tive de reler umas três vezes a introdução desse livro para captar alguma coisa. E demorei uns 15 anos para gostar de Björk. Bom, em todo caso, Jóga é uma das músicas mais lindas que conheço, então o que eu falei está meio certo. Ao escrever isso, estava pensando que há outras canções dela que evocam diferentes sensações, não são simplesmente “agradáveis” de ouvir.

Depois dessa longa introdução, vou deixar a lista do Spotify (lá há apenas a versão acústica de Stonemilker) e, abaixo, os vídeos, seguidos das respectivas falas da Bjork, espero muito que você ame, adore, apaixone-se por essa artista incrível!

~ ~ ~

  • Human Behaviour

“Quando a escrevi, referia-me à minha infância e provavelmente falei sobre como eu me sentia mais confortável sozinha caminhando, cantando, entre outras coisas, do que ao passar tempo com humanos… Eu sentia harmonia com as crianças, as montanhas, o mar ao redor de Reykjavik e os animais, mas achava os adultos caóticos e sem sentido.”

Original em inglês

  • Army of Me

“Eu sou um urso polar e estou acompanhada de centenas de ursos polares, invadindo uma cidade. A letra é sobre as pessoas que sofrem de constante autocomiseração e não conseguem resolver seus problemas. Você chega a um ponto com essas pessoas em que já fez tudo o que podia por elas, e apenas elas mesmas poderão solucionar suas vidas. É hora de partir para a ação. Eu me identifico com ursos polares. Eles são muito fofos, bonitinhos  e muito calmos, mas se eles cruzarem seu caminho podem ser incrivelmente fortes.”

Original em inglês

  • Hyperballad

]

 “Quando você se apaixona, nunca sabe se essa será a última vez em que se apaixonará na vida, então isso se torna algo muito precioso. Você passa a agir de modo superprotetor . Toda vez que encontra a pessoa amada, mostra apenas seu lado bom, assegurando-se que ela nunca veja seu lado ruim, a fim de preservar esse amor.
Isso aconteceu com todos meus amigos. Eles sempre diziam “Oi, amor” de forma tão doce àquela pessoa.
Depois de três anos, a “bagagem” sobre suas costas estava tão pesada, que eles precisavam livrar-se por completo dela para poderem continuar sendo doces. Eles são agressivos, mas apenas quando distantes da pessoa amada, depois eles retornam sem essa bagagem e dizem “Oi, amor, tudo bem?”. Acho que muitas pessoas fazem isso. Com os amigos normais, você pode mostrar todas as suas facetas. Ao lado do seu melhor amigo, você pode ser engraçado, insano, protetor, brincalhão, doce ou pode ser triste, tudo no mesmo dia, porém, com seu amor, é apenas muito doce. Você mantém toda energia sobre suas costas. Acredito que você faça isto ao se apaixonar, divide sua personalidade em duas: a sombria e a positiva. E mostra apenas a positiva. Então “Hyper-Ballad” contém o “hiper” e a “balada”. O verso é o lado obscuro e o refrão, o lado positivo.
O refrão é “Estou aqui com você, apenas você e eu. Mas então você precisa sair e mmmmm [grunhido gutural profundo]. Porque todo mundo tem um lado obscuro, todo mundo.”

Original em inglês

  • Jóga

“Escrevi a música sobre minha melhor amiga. Todo mundo deveria ter um amigo daqueles para quem você pode ligar a qualquer hora do dia e ser abstrato e essa pessoa te entender. Somos unidas emocionalmente. Eu estava no meio da Islândia em pleno Natal, porque havia passado por uma superexposição a pessoas e apenas queria ficar sozinha. Estava solitária por aproximadamente uma semana e havia apenas duas horas de luz solar. Eu fazia longas caminhadas, talvez por dez horas todos os dias ali no gelo e nas montanhas, no escuro. Eu havia passado um longo período distante da Islândia, sentia muita saudade e a pessoa que estava me dando força era minha amiga. Então é como uma canção de amor para minha amiga, mas também para a Islândia. Eu passei por um momento mágico no qual, após caminhar por muito tempo, parei no topo de uma montanha e olhei para uma parte da ilha a partir daquele ponto. O tempo estava muito estranho — a temperatura havia aumentado uns dez graus no intervalo de pouquíssimas horas, de negativos a positivos, então todo o gelo em uma área incrivelmente vasta começou a derreter, estalindo como pipoca, mas ecoando um som muito incomum. As nuvens estavam incrivelmente espessas e úmidas, formando uma espécie de lençol, e muito baixas. E as cidades — todas as minhas cidadezinhas favoritas onde estive quando criança — refletiam-se nas nuvens, por estas estarem tão repletas de água. A luz dos postes em todas as cidades era laranja. Acima das nuvens, via-se a aurora boreal. Foi um momento tão mágico, visual e emocionalmente, pois eu amo muito essa parte do país. E ouvir esse tipo de pipoca ecoando por todo lugar — foi realmente maravilhoso. O ritmo [na música Joga] tenta reproduzir isso, enquanto as cordas representam a emoção.”

Original em inglês

  • Stonemilker

“É sobre alguém que está tentando extrair emoções de outra pessoa. A música inteira é sobre desejar clareza e simplicidade emocionais e falar com alguém que quer que as coisas sejam muito complexas, nebulosas e pouco claras. E você diz, ok, eu sou clara: quer ou não quer? É a celebração da simplicidade e da clareza…
Era muito importante que as cordas fossem cíclicas, é o ciclo das cordas que dá essa impressão de continuidade eterna em círculos e passa a sensação de equilíbrio, como se a pessoa que está entoando a canção estivesse demonstrando um tipo de harmonia… É uma tentativa, da maneira mais harmoniosa possível, de embasar um argumento [risadas]. Porque acredito que se manter emocionalmente aberto é uma escolha. Acredito que seja igualmente difícil para todos nós e estamos fazendo nosso melhor, mas também há uma escolha. Você quer tentar e talvez fracassar… ou escolhe nem mesmo tentar?”

Original em inglês

Obs. Minha amiga Camis fez dois posts nessa categoria, sobre o Bruce Springsteen e o Ruspo. Ela é minha personal friend — uma profissão que deveria ser inventada, aquela pessoa que te dá dicas e te ajuda a ser menos sem noção — e já me passou várias indicações de música. Aliás, acho que está na hora de ela fazer um post sobre Bob Dylan ou Devendra Banhart no blog dela, seria um sucesso!

Beijos, até a próxima!

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21 comentários em “Cinco músicas para gostar da Björk

    1. Verdade! Estava comentando outro dia que se existisse uma expedição para algum outro planeta e quisessem demonstrar a capacidade humana, deviam acrescentar algo da Björk, mas na verdade não seria muito fiel ao que temos aqui, pq ela vai mto além! Bjos, obrigada pela visita!

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  1. É, uma coisa é ter a música crua em conexão direta com a gente. Outra, é tê-la depois de transcender os olhos do artista. Em geral, se o primeiro me fascina, fico só nele. É uma espécie de apropriação indébita, mas que me faz um bem danado, porque dou à música a minha forma. Caladinha, na imensidão da alma.

    Val, o post ficou simplesmente sensacional. Põe o Devendra na sua sequência, porque não? adoraria ler uma riqueza dessas sobre ele, ou seja, sob o teu olhar. Bjo grande e parabéns!

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    1. Oi, Cris! Adorei sua visita e seu comentário por aqui. Obrigada!
      Sobre a nossa interpretação das coisas, eu também muitas vezes gosto de permanecer no que eu senti ou refleti sobre algo, parece que se o artista falar outra coisa vai estragar tudo! Rs E depois de pronta, a obra com certeza é um pouco de quem a aprecia também, pq os sentimentos e reflexões evocados vão depender da nossa vivência e repertório. Às vezes surge essa curiosidade de saber o que eles mesmos estavam pensando sobre o que fizeram. 🙂 Sobre o Devendra, acho que não sou capaz de falar tanto, por isso passei a bola p/ a Camis! Obrigada pelos elogios, adorei ver você aqui! Bjos

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  2. Gostei muito do seu texto. Me identifiquei bastante quando você fala das sensações que determinada música provoca em nós. Algumas vezes eu escuto um música – ou um álbum – procurando as mesmas sensações que me ocorreram no passado. Foi nessa busca que comecei a escrever no meu blog, sobre músicos, músicas e discos que foram – e são – importantes para mim.

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    1. Oi, Paulo, obrigada pelo comentário! Acho interessante que a música parece ser algo que vai diretamente ao nosso sentimento, sem passar por tantos filtros, como nas outras artes, né? Elas nos marcam muito…

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  3. Valériaaaaa!

    Haha que fofa, teve menção a minha pessoa neste post, amei! Você esqueceu de dizer que eu fiz esses posts “cinco músicas” inspirada no seu blog anterior de listas.

    Amei o post, eu adoro a Björk. Como não gostar dela, mesmo sem entendê-la? Olha essa voz maravilhosa… Só isso já basta, né não? E os arranjos? As cordas, os violinos… É muito lindo. Eu acho que, e isso é para a arte em geral, as pessoas se apegam muito ao entender/não entender. Gente, quando é que vão entender que não é necessariamente para entender? A arte não é para ser entendida assim, racionalmente. Mas aí é necessário uma entrega, o que assusta. Você tem que se entregar ao não-entender. É difícil as pessoas se entregarem assim.

    Mudando de assunto, para não faltar aqueles comentários “ah, mas você não incluiu tal música”, lá vai: podia ter incluso All is Full of Love. Eu acho que é a minha favorita dela. Mas eu adorei a seleção, viu? E também sinto falta de ser personal friend ao vivo. 🙂

    Beijão!

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    1. Oi, Camila! Tbm acho muito linda All is Full of Love. Minha favorita é Joga. Uma coisa que pensava sobre a Bjork ao fazer esse post é que ela ultrapassou essa coisa de música para agradar. A música dela realmente é arte nesse sentido que pode despertar qualquer sentimento, que pode sim ser algo agradável, mas tb pode ser de mto estranhamento. Acho ela genial e estou adorando seus comentários! E quero posts… 😀

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  4. Eu nunca parei pra ouvir Björk, embora me lembre de já ter visto diversos clipes dela na MTV quando criança e ter ficado com medo hahaahah Engraçado eu chegar a este post nesta semana, não lembro que dia foi mas eu vi um tweet dizendo que tudo o que a pessoa queria era morar na casa da Björk. Logo joguei “casa da Björk” no google e descobri que a casa do tweet em questão não era dela, e dai pra eu começar a pesquisar mil coisas sobre ela foi apenas um segundo hahaah

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  5. Ótima indicação, Val. A Bjork é muito ❤
    A genialidade dela nem parece ser coisa desse mundo. Uma música basta para você se sentir de fora também.

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