Nós e o medo de amar

Terror de Te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”

medo de amar

Nunca estamos tão vulneráveis como quando amamos. As fragilidades todas expostas e os medos ressurgentes. Nossos próprios defeitos depõem contra a perfeição dos sentimentos. E como é difícil fazer com que algo tão frágil sobreviva a este mundo volátil repleto de imperfeições e distanciamentos. Como se não houvesse lugar para o sublime em meio a tamanhas frugalidades e vícios. Essa flor encantadora fenecerá estancada em solo árido. O amor não pertence a este mundo. Um lugar em que tudo se parte, todas as relações pendem por um fio e tais rupturas podem nos cortar as palavras em segundos. Um lugar de mentiras, quando o amor se alimenta de verdades. Decepções sempre sucedem descobertas. Nossas verdades talvez não sejam amáveis. Tudo se encaminha ao não mais e se afasta da reiteração do sim.

Apelamos a todo os santos e credos para a proteção do objeto de nossa afeição. O amor parece ser uma bolha de sabão que, em sua efemeridade, não suporta um soprar do vento. E quem se arriscaria? O amor precisa de cuidados.

Em meio ao caos, prometo que, para o nosso amor, criarei um refúgio. Não uma redoma, mas a liberdade que percorre o céu imenso e retorna como as ondas que se repetem uma após a outra. Quem sabe não seja esse o segredo de amar, deixar a correnteza livre, na esperança quase certa de que as agitações do mar seguirão seu destino de contínuo retorno.

 

 

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14 comentários em “Nós e o medo de amar

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  1. Val, que coisa mais bela! Tenho recebido notificações de posts do teu blog e de vez em quando venho aqui espiar. Temos várias coisas em comum! Além de ser uma fã de Drummond (o nome do teu blog deixa isso um pouquinho evidente!), também adoro Placebo e a turma do Charlie Brown. Uma coisa bem engraçada nesse universo de blogs é que eu não tenho uma disciplina pra postar coisas. Tem dias que acho super válido e útil, em outros penso que é uma coisa nada a ver, etc. etc. Tenho gostado muito de passar por aqui, talvez um contato maior com o pessoal que segue o meu blog seja um incentivo para ser mais regrada.

    Adorei esse poema, vou procurar mais coisas sobre a Sophia 🙂 Quando morei em Lisboa lembro de ter visitado o miradouro que recebeu o nome dessa poeta, no qual está localizado o Largo da Graça, coisa muito linda de se ver.

    Até a próxima! 😉

    ps: gostei da sua série “cinco…..” vou tentar fazer uma qualquer dia desses! 🙂

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    1. Oi, Suellen!!
      Estava respondendo ao seu outro comentário sobre o livro e acho que marquei como spam sem querer, desculpe! Lá eu dizia que, ao fazer o outro post, procurei bastante sobre a mudança no titulo, mas não encontrei, tb foi algo que chamou minha atenção. Que legal termos tantas coisas em comum! Sobre a periodicidade, estou me forçando um pouco a escrever, pois as vzs posso querer que as coisas fiquem perfeitas e não vão ficar, então, pelo menos é um modo de me exercitar, né? Muito legal vc ter morado em Lisboa! Dei uma passada no seu blog e achei super diferente! Vou ler mais posts! Falando nisso, faça um de 5 coisas tb, seria legal.
      Obrigada pelo comentário, pela visita, adorei vc aqui. Bjs!!

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  2. Também gostei bastante do poema e deste belíssimo texto. Parabéns, Val! Não é mesmo nada fácil este desafio de tentarmos fazer com que algo tão sutil como o amor, este sentimento tão ligado à leveza, sobreviva neste mundo e nestes tempos de tanta rudeza… Sua reflexão me lembrou bastante o que o filósofo Zygmunt Bauman chama de tempos líquidos, este em que vivemos, em que nada foi feito para durar…
    Grata surpresa descobrir seu blog! 😉

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    1. Oi, Ricardo!
      Obrigada pela visita, adorei o comentário. Não sabia sobre os tempos líquidos, mas é algo que percebemos ao nosso redor, né? De objetos a relacionamentos… Adoro a Sophia, os poemas dela sempre me cativam pela beleza e depois fico um tempo refletindo… Obrigada, novamente, e até mais!

      Curtido por 1 pessoa

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