Lendo O Curioso Caso de Benjamin Button

Curioso caso Benjamin Button tempo Fitzgerald

De Tim Hearne

 

Este conto sobre um homem que nasce velho e morre criança me surpreendeu de várias maneiras. Logo no início, o fato de as pessoas não se importarem com o bem estar e a saúde de Benjamin me indignou. Os funcionários do hospital tratam-no como aberração e mesmo o pai não esboça preocupação ao deparar-se na maternidade com um senhor que aparentava já estar no fim da vida. Em nenhum momento, o pai demonstra interesse genuíno pelo filho, apenas procura comprar-lhe roupas joviais, tingir seus cabelos e fazer sua barba a fim de disfarçar tamanha inconveniência.

O problema dos disfarces, como sempre, é que a essência dificilmente se esconde. Benjamin não apenas aparentava a velhice, sua alma era idosa; chocalhos e leitinho morno não lhe interessavam, ele queria fumar seu charuto e ler a Enciclopédia Britânica. Nota-se, junto à crítica à sociedade, uma reflexão sobre os nossos relacionamentos de todos os tipos, nos quais esperamos que as pessoas se encaixem em nossas expectativas, e qualquer diferença de movimento tende a resultar em frustrações extremas. Nos dois níveis, o comportamento fora do esperado é tolhido no esforço de acomodar-se às normas ou às nossas vontades, na maior parte das vezes, não importando em nenhum instante como o outro indivíduo se sente.

As pessoas só lidavam bem com Benjamin quando nenhuma adaptação era necessária e ele podia corresponder às expectativas delas, sem grandes esforços de nenhuma parte. Isso ocorre quando ele começa a ajudar nos negócios do pai ou encontra aquela que seria sua esposa, Hildegarde, uma jovem afeiçoada por homens mais velhos. O conflito se instaura, pois Benjamin era um senhor que estava rejuvenescendo e, se o amor deve sobreviver ao teste do tempo, imagine quando não há mais do que a intersecção de um instante.

O conto me lembrou muito a Metamorfose, do Kafka, quanto às reações da sociedade ao que é incomum. A falta de entendimento e o abismo que se forma entre as pessoas, mesmo quando um dia houve fascinação. Como é difícil olhar e ver o outro de maneira límpida, sem as lentes da normalidade ou das expectativas. É mesmo um enorme desafio.

* * *

Li “O Curioso Caso de Benjamin Button” da coleção da Folha “Grandes Nomes da Literatura“, cujos livros são muito bonitos, têm capa dura e traduções especiais, como este trabalho cuidadoso de Rodrigo Breunig.

Coleção Folha clássicos

Coleção Folha clássicos

É uma grande oportunidade de ler clássicos e, para mim, esse conto foi uma feliz surpresa. Já havia assistido ao filme, porém, apenas a questão etária e temporal é comum aos dois meios, o enredo em si é completamente diferente. Não sabia que “O Curioso Caso” (abreviei) e “O Grande Gatsby” eram do mesmo autor, F. Scott Fitzgerald, e isso até me causou certo estranhamento, pois a crítica à sociedade americana evidenciada em “O Grande Gatsby” não ficou tão aparente, para mim, no filme “O Curioso Caso”, o qual focaliza o romance dos personagens principais. Ler o conto desfez essa impressão, pois a exposição das imperfeições da sociedade está presente em cada página, estabelecendo a conexão entre os dois textos e o autor.

grande gatsby fitzgerald classico
Minha versão de O Grande Gatsby
grande gatsby fitzgerald classico
Capa dura, como a gente gosta, e bem didática, com fotinhos e tudo mais.

Além das reflexões da história em si, a leitura me fez pensar um pouco em por que não tenho lido mais… Talvez a faculdade de Letras tenha me deixado muito ressabiada. Parece que, quando se trata dos clássicos, eu nunca vou ser capaz de fazer uma leitura sozinha, o autor sempre  vai lançar uma referência a algo que não vou conseguir entender, nunca vou ser culta o bastante para inferir tudo necessário ou vou ler achando que o autor retrata o amor quando na realidade trata-se de alusão à guerra do ano tal, da qual nem mesmo ouvi falar.

A parte boa é que aqui posso falar o que desejo e sinto, sem que ninguém apareça com a maquininha de código de barras para analisar friamente se o que pensei está correto. Resolvi fazer um trato comigo mesma e me dar uma chance, me permitir gostar de ler, buscar minhas próprias reflexões ou até mesmo ler sem ter o dever de estudar a fundo, e, se algo apontar para uma direção diferente do meu primeiro entendimento, terei a Internet toda para pesquisar, não é mesmo? Bom, se eu compreender algo diferente da realidade pretendida pelo autor, você pode me avisar, é sempre tempo. 😉

Beijos e até mais!

 

 

 

 

 

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27 comentários em “Lendo O Curioso Caso de Benjamin Button

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    1. Faz tempo que vi o filme, estava tentando me lembrar, mas era difícil… rs. Adoro a Cate Blanchett, tudo que ela faz já tem um toque a mais, né? Acho que preferi o livro porque eu me concentro mais lendo do que vendo filmes, acabo perdendo mta coisa. Bjs e obrigada pela visita!

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  1. Valeria, adorei a sua visão do livro, me interessei muito. Adoro o filme, sempre me faz chorar. Também gostei muito de ler The Great Gatsby e não sabia que era do mesmo autor.
    Acho que essa critica sobre tentarmos encaixar as pessoas na caixinha das nossas expectativas continua mais válida do que nunca. É bom sempre relembrar
    nós mesmos de que não precisamos ser do jeito que ninguém espera.
    Beijos

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    1. Oi, Lou!! Adorei sua visita aqui, fiquei muito feliz. Apesar de que sempre vejo um “Reino Unido” por aqui e sei que é você, fico super contente 🙂 Você é uma pessoa sensível, Lou, adoro seus comentários e visão de mundo, aprendo muito com você. Sei que com tantas coisas a caminho, é difícil manter o blog, mas adorava ler seus escritos. Bjos, amiguinha!! :*

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    1. Oii! Eu vi no seu blog que você tem um novo projeto de ler a coleção da Melancia (esqueci o nome, rs…) Aí fica difícil ler tudo, né? hehe O curioso caso é pequenino, um sabadinho de manhã você lê! E como vc ainda está na faculdade, imagino que vc deva ter muuuitas leituras pesadas então é legal na parte pessoal escolher algo mais leve e que você já conhece, né? bjos, obrigada pela visita e pelo comentário!!

      Curtido por 2 pessoas

      1. Pois é Val, tenho muitos textos da faculdade, mas sempre pego “coisas minhas” para ler, se não eu surto, rs. Nem tem um nome certo para a série Melancia, que eu amo ❤ Eu até ia ler o conto, mas estou no meio de uma maratona e não sei porque não encaixei o livro, rs vai entender, rs. Bjos da Cah! 🙂

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  2. Estou comprando essa coleção também, ela é linda demais!

    E o primeiro que vou ler logo após terminar minha leitura atual, vai ser O curioso caso de Benjamim Button, justamente por ter sido escrito por Scott Fitzgerald. Adorei a escrita do autor em O Grande Gatsby, pelo romance e pela crítica social. Então, assim que peguei Benjamin, fiquei curiosa para saber se a crítica fazia parte de seu estilo.

    Beijo! :*

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oii! Ele é bem rapidinho e incrível. Adorei! Me deu vontade de ler mais livros dele, mas não dá p/ abraçar o mundo, né? Rs Obrigada pela visita… Bjs!!

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  3. Assisti ao filme e foi simplesmente dos que mais amei na vida, apesar de que agora que você colocou que o livro e o filme diferem, fiquei muito curiosa para ler o livro!
    Sobre você poder colocar suas ideias sem se importar se elas estão certas ou não, compartilho do sentimento! Faço Direito e no meio em que convivo diariamente é difícil manter essa despreocupação, e o meu blog também nasceu dessa vontade, hehehe. Parabéns pelo blog, sigo sempre que possível acompanhando! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Bettina, que legal seu comentário. Realmente, são diferentes. No livro, a crítica fica tão evidente, que você não consegue imaginá-los como Brad Pitt e Cate Blanchett! Rs E mesmo o Benjamin não é tão admirável, ele é apenas a pessoa comum que passa por isso, mas não se torna herói.
      Entendo como de ser em Direito, uma ciência humana mas muito próxima de algo exato, né?
      Bjos! 🙂

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  4. Que linda essa coleção! E olha, não se preocupe em estar intelectualmente preparada com todo o conhecimento necessário para ler alguma obra, pois sempre há aprendizado quando há curiosidade.
    Leia logo Admirável Mundo Novo! Kkkkk! É sensacional! Parabéns pela resenha de Benjamin Button, fiquei curioso pra ler e vou colocar em minha lista.

    Abraços e boa leitura!

    guloseimasnerds.wordpress.com

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    1. Legal, obrigada pelo incentivo! Pretendo ler logo, realmente, eh q quero ler cem anos de solidão, irmãos Karamazov e grande sertão: veredas este ano ainda, vamos ver se consigo! Bjs

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  5. Mais uma história que tenho imensa curiosidade! Eu AMO o filme, acho que se eu tivesse que apontar algum filme favorito ou que eu recomendo muito, seria O Curioso Caso de Benjamin Button. Eu acho uma história perfeita, o arco evolutivo do personagem me enche os olhos de lágrimas, para mim é magnífico como eu consigo conhecer inteiramente o Benjamin. Sou toda encantada com esse filme, e quero muito ler o conto. Fico contente que sejam diferentes, ou eu experimentaria a mesma coisa que me aconteceu ao ler Jogos Vorazes. Eu lia bem apática, porque já tinha visto ao filme. E o último livro, nem li o final, pois vi o filme antes, e como são irmãos gêmeos… Enfim, adorei ter esse contato com a história na sua opinião, que foi bem breve, mas que me deu aquela pontadinha de “quero esse livro logo” 😀
    Beijos, Val!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Carol! Que legal seu comentário, obrigada 🙂 Acho que vc vai sentir uma grande diferença para o filme, e possivelmente será um dos poucos que você preferirá o filme ao livro… rs Pq vc já tem esse encantamento com o filme e o livro é mais “duro”, sabe? Mas acho q vc devia ler, sim! Bjos, Carol, obrigada pela visita e pelo comentário 😉

      Curtido por 1 pessoa

  6. Também estou colecionando os livros da Folha. Coleção linda, não é? Adorei as capas e o acabamento, além dos títulos escolhidos pelo curador. Li o Curioso caso faz alguns anos, e achei mais fraquinho do que o filme (pela primeira vez um filme supera o livro) mas levo em consideração que é apenas um conto rápido. Pretendo reler agora na ediçao da Folha.
    Alexandre Melo – http://www.doqueeuleio.com.br

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Alexandre. Estou adorando a coleção. 🙂 Eu preferi o conto, para dizer a verdade! Rs… O filme extrapola para outras questões, mas eu gosto do sentimento árido do conto, de descrédito da humanidade msm… Rs. No filme, o amor é mais idealizado, o que é bonito de ver na tela, realmente, ainda mais com os atores escolhidos. Obrigada pelo comentário! Até mais

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  7. Muito informativo o post, e os livros que você possui são tão bonitos! Só tive oportunidade de ver o filme, mas agora quero ler o livro

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