Um poema triste, o luto e as rachaduras

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

~~~

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do cão com um osso suculento,
Silenciem os pianos e com tambores lentos
Tragam o caixão, deixem que o luto chore.

Deixem que os aviões voem em círculos altos
Riscando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão,
Deixem que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
A minha semana útil e o meu domingo inerte,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha canção, a minha fala,
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.

As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas;
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar;
Esvaziem o oceano e varram as florestas;
Pois nada no momento pode algum bem causar.

W. H. Auden, in ‘Another Time’

Hoje eu queria escolher um poema bem triste, como esse. Passar pelo luto é difícil, lento, incompreensível em todas suas fases, ritos, transições. O luto de pessoas que não são mais o que nunca foram. O luto da vida que há pouco parecia tão exata. Luto dos planos, do propósito da existência. Luto dos ensinamentos e das palavras.
O luto de si mesmo, no qual é preciso descobrir quais partes continuam, porque o que você teima em enterrar pode ainda estar lá. E parte do que você queria tanto perpetuar de repente já não existe mais. Como se cura o coração após lanças afiadas transpassarem-no demoradamente? Fossem balas, talvez ficassem lá, alojadas.
Não vamos nos apressar. Nem nos enganar. As mentiras todas já estão bem evidentes. Tudo está ali dentro ainda e uma música doce pode deixar escapar uma gota, ou uma torrente inteira de mágoas, dependendo das circunstâncias.
A gente vai precisar achar um jeito de se curar. Conviver com essas feridas e encontrar beleza nisso. Uma hora a lua, as estrelas, o sol e a floresta precisam fazer sentido de novo. Por toda a beleza que nossos olhos ainda poderão enxergar, pelo amor que mesmo um coração em pedaços não pode ignorar.
kintsugi japones vaso recolado
Kintsugi é uma técnica japonesa de restauração de cerâmica. Em vez de esconder as rachaduras, busca-se valorizá-las, preenchendo-as com ouro.
Anúncios

7 comentários em “Um poema triste, o luto e as rachaduras

  1. Interessante essa técnica e a ideia por trás dela. É difícil aceitar e valorizar as rachaduras, ainda mais quando já temos tantas abertas, não preenchidas por ouro…
    Não gosto muito de poemas, mas este é muito bonito. Linda escolha, Val!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s