Viagem à Africa com Mia Couto

Atenção, senhores passageiros com destino a Moçambique, favor embarcar – agorinha mesmo!

Viagem Moçambique África Mia Couto Livros
Snoopy Aviador será nosso comandante!

É comum ouvirmos que os livros nos fazem viajar, mas alguns autores levam isso um pouquinho mais a sério! É o caso do Mia Couto, escritor moçambicano que invariavelmente nos leva a seu país e continente em um roteiro pavimentado pelas melhores surpresas que a língua portuguesa pode nos reservar. Passaporte em mãos, aperte o cinto!

Mia Couto Biografia

Essa é a orelha do livro sobre o qual vou falar hoje, “O Último Voo do Flamingo”, que já nos conta um pouquinho sobre o comandante (bom, não o Snoopy, o Mia Couto mesmo!) Abaixo, a sinopse do livro, concisa e precisa, que é para ninguém se atrasar para o voo:

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(Na época, o acordo ortográfico ainda não estava em vigor)

Com todas as provisões a bordo, é preciso saber que há dois caminhos paralelos nessa narrativa: a realidade histórica e a presença do fantástico.

A fictícia Tizangara simboliza o contexto histórico vivenciado em Moçambique que, passando por uma árdua luta pela independência, sofreu uma guerra interna, acarretando a vinda das tropas de paz. É neste cenário hostil, em que é preciso aprender a “pisar” como as aves, que Massimo Risi, representante da ONU, chega para desvendar os mistérios acerca das mortes dos soldados que explodiam, restando-lhes apenas o sexo masculino e a boina azul-celeste.

O fantástico torna-se realidade a partir do momento em que toma a forma de símbolos. As personagens femininas representam a África, a mãe-terra. Deusqueira, a prostituta, é o continente explorado, relegado à vontade divina, após ser usurpada. A mãe do narrador é a sabedoria africana, com seus contos e ditados, porém, cega para o presente do filho e estéril para o futuro. Temporina, a jovem com face anciã, representa a combinação entre o novo e o velho.

Os personagens masculinos ilustram o comportamento perante o continente, muitas vezes de desconhecimento e exploração, do político corrupto ao feiticeiro e o estrangeiro. Mia Couto contrasta o momento em que Risi faz uso da sabedoria de Temporina para passar pelas minas com a morte de um nativo alienado, a fim de demonstrar a importância da cumplicidade com a terra.

A visão esperançosa do narrador é nevoada pela realidade exposta na ferida das almas dos demais, porém, não há desistências. A ânsia do flamingo pelo desconhecido, mesmo que incerto, faz de seu último voo, o primeiro. A descoberta de um novo céu transcende-se a outro horizonte, revelando o desejo do autor para que o povo africano consiga, como o flamingo, mesclar a sensibilidade ao caminhar no terreno inóspito em que vive e a sabedoria em migrar quando necessário, buscando harmonizar o conhecimento adquirido e o empírico.

O conto chega ao leitor pela oralidade e despede-se em um papel escrito, dobrado em forma de ave, lançado em um abismo de desesperança, mostrando que o fantástico é símbolo da realidade africana e dos sonhos projetados pelo homem.

flamingo aquarela
De Irene

~ ~ ~

Gostou da viagem? Espero que sim. Mia Couto tem uma narrativa muito poética e, para nós, como falantes de língua portuguesa, é um privilégio lê-lo. Até as crianças têm sua vez:

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Meus livros do autor

Boa leitura!

Beijos e até mais.

~ ~ ~

Obs.1: Estudei esse livro na faculdade e boa parte das reflexões aqui expostas foram feitas em conjunto com minha amiga Iasmin Martins.

Obs. 2: Estou lendo “Cem Anos de Solidão”, por isso optei por falar de um livro que já li há algum tempo 😉

Obs. 3: Só para ser um pouco irônico, de fato encontrei o Mia Couto no aeroporto ano passado, mas fiquei com vergonha de dizer um oi :\

Snoopy viagem mia couto
Ele está pronto para a próxima!

 

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21 comentários sobre “Viagem à Africa com Mia Couto

  1. Muito obrigado por me dizer que Mia Couto é um autor!!! Eu sempre achei que era autora…(rsrsrs). Eu trabalho em uma biblioteca onde tem o livro O Fio das Missangas e não sabia que era um autor. Puxa vida…

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    1. É verdade, parece nome de mulher mesmo, né? Rs… Assisti a um tcc na faculdade sobre O Fio das Missangas, parece ser bem interessante. Obrigada e até mais!!

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  2. A obra do Mia Couto é muito boa mesmo! Demorei a conhecê-lo, mas quando o fiz já quis comprar logo todos os títulos, heheh…
    Gosto do que ele faz com as palavras, neologismos com uma carga semântica e poética belíssima! 🙂

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    1. Oi! Depois que repare que nem citei isso, só falei que é poético… É que eu adorei esses simbolismos do feminino e do masculino nesse livro, especialmente pq não vi ninguém mais falando isso, então quis enfatizar 🙂 Obrigada pela visita e pelo comentário!!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Eu gosto muito desse tipo de livro que nos apresenta lugares e culturas diferentes. Eu conheci o Paquistão lendo Eu Sou Malala. Fora os conflitos, é um povo que tem um cultura incrível e muito diferente do que mostra a televisão. Bela postagem, obrigado por compartilhar! Abraço.

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    1. Olá, Eurico! Fiquei contente com sua visita. 🙂 É mesmo uma ótima maneira de viajar, né? Poderia ser até um primeiro passo obrigatório, pq com certeza nossa visão do local muda, quando chegarmos lá, teremos muito mais coisas já gravadas na mente que nos permitirão entender um pouco melhor o lugar, sua história, sua gente. Obrigada! Abraço e até mais!

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  4. Eu sou muito muito fã do Mia Couto, ainda não li esse livro.
    Mas sou apaixonada por Terra Sonâmbula e A canção da leoa.
    Estou com outros aqui na estante. Você devia ter falado com ele, ele é tímido, mas muito simpático! Estive com ele no lançamento de As mulheres de cinzas. E ele é demais! Boas leituras! Gostei muito da análise e já quero esse na minha estante também! beijos

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    1. Oi, Thamiris! Que legal! Obrigada por sua visita e pelo comentário. Deve ter sido super marcante ir ao lançamento, hein? Me arrependi de não ter falado nem um hello, fazer o que… Vale a pena ler esse livro, sim, na verdade gostei mais dele do que de Terra Sonâmbula, mas acho que eu que não li tão bem um quanto o outro, sabe? Bjooos! Boa leitura ❤

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    1. Que legal o kindle, ainda não tenho, às vezes fico pensando nele… rs A Terra Sonâmbula eu li prestando pouca atenção, o que é um erro difícil de reparar… rs Bjos!

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