O Velho, o Mar e Eu

ernest hemingway velho mar
Este livro tem uma mensagem para você!

Estou atrasada. Foi ingênuo achar que seria rápido reler O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. No entanto, percebi um amadurecimento como leitora entre as duas leituras e fiquei contente. Na primeira vez, desejava logo saber qual a “lição”, além de querer que algo acontecesse depressa. Ledo engano literário! Agora, fui saboreando a narrativa, tentando conhecer um pouco do velho e do mar, mas as palavras de Hemingway são pesadas, carregadas, e as descrições precisas. Demorei um pouco mesmo.

Ernest Hemingway Velho Mar Análise

Não foi só isso. Percebi que o tempo em que fiquei tirando fotos do livro, poderia ter usado lendo-o de fato, mas vamos nos organizando. Bom, falando em fotos, o resumo da contracapa é muito bom.

Velho Mar Ernest Hemingway Contracapa
Quem escreveu isso tem um poder de concisão admirável!

Logo no começo, achei tão bonita esta frase:

“Tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis.”
(página 14)

A pele enruga-se, as articulações doem, os músculos se enfraquecem, mas se os olhos permanecem vivos, brilhantes, há bons motivos para continuar vivendo. E sonhando.

O velho reitera muitas vezes que ele havia nascido para pescar. Sua relação com o mar era íntima: chamava-o no feminino, como companheira e sedutora, não como inimigo traiçoeiro, como faziam os mais jovens. Mesmo os animais, considerava-os irmãos.

Ernest Hemingway Velho Mar Análise

Após a luta vencida contra o peixe enorme, surgem os próximos desafios: os tubarões, um a um atrás do sangue despejado no mar.

Pense um pouco sobre essa reflexão na página 102:

” – Mas o homem não foi feito para a derrota – disse em voz alta. – Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”.

Não sei como o Ernest Hemingway conseguiu fazer um livro tão lindo usando descrições tão exatas e pragmáticas. É mais lá para o final que você vai enxergando a beleza que ele já vinha contornando desde as primeiras palavras. Estou cada vez mais convencida de que os melhores escritores são os que conseguem nos deixar fazer boa parte do trabalho.

Talvez você seja super perspicaz, mas eu só pensei isto lá para as últimas páginas. Com quem o velho travava a luta? Contra o peixe enorme? Os tubarões? O sol?… Com ele mesmo. Ele e seu sonho. Ele começa a falar com suas mãos, sua mente, seu estômago. Consolando-os, dando-lhes força para continuar. Queria ser escritora também para explicar direitinho esse sentimento, mas me vi no mar, carregando um peixe enorme junto ao barco, com diversos tubarões levando cada pedaço dele. E isso me fez chorar.

Ele nascera para aquilo. Para pescar e para lutar também. Um a um levavam-se os pedaços do seu objetivo de vida, do seu sonho, do seu trabalho. O velho poderia ter largado o peixe devido ao medo dos tubarões, afinal, a cada um morto, uma arma a menos para se defender. Eles levavam pedaços do peixe, e o velho também se machucava, mas dizia a si mesmo:

“- Lute! – exclamou. – Lute até morrer.”
(página 113)

O final é tão delicado, tão doce. Senti gratidão por tê-lo relido. Este pequeno livro de 124 páginas foi o que mais me tocou este ano, fiquei muito sensibilizada ao término da leitura. E disposta a continuar, por mais um dia, ao acordar pela manhã, mesmo após uma batalha perdida.

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Obrigada, boas leituras e até mais!

Obs. Em 2000, o filme de Aleksandr Petrov baseado em “O Velho e o Mar” ganhou o Oscar de curta de animação. Saiba mais aqui.

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39 comentários em “O Velho, o Mar e Eu

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  1. Val, você sempre trazendo boas indicações de leitura. E a forma como as descreve, já dá para saber que serão leituras que valerão a pena. Assim fica difícil manter minha lista de “Livros para Ler” pequena rsrs
    Bjão

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    1. Oi, Alê, que meigo o comentário, obrigada!! Sabe, tinha muito mais coisa para falar sobre esse livro, preciso me organizar melhor o tempo!! Obrigada pela visita e pelo comentário 🙂 Bjs!!

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  2. Oi, Val!
    Li esse livro no ensino médio, devia ter uns dez ou doze anos. Lembro que gostei, mas é claro que provavelmente foi uma leitura superficial dada a idade que eu tinha.
    Amei essa edição da sua foto, a capa é linda! A que eu li tinha essa capa aqui http://mlb-s2-p.mlstatic.com/livro-o-velho-e-o-mar-frete-gratis-23245-MLB20244476561_022015-O.jpg e lembro que foi um dos livros que ganhamos do governo, e o meu tinha metade das folhas de cabeça pra baixo hahahh
    Seu post me deu vontade de reler.
    Beijos

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    1. Oi, Barbara!! Para mim também foi releitura e, como disse, na primeira vez não me encantou tanto. Achei legal vocês terem recebido o livro gratuitamente, mesmo com esse probleminha… rs Gostei de vê-la aqui, é um prazer 🙂 Bjos e obrigada!!

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  3. Nossa, não conhecia esse livro, amei a capa e parece ser bom, mas não quis ler todo o post pq eu gosto de ler o livro meio sem saber como é por dentro (não tente me entender). Agora o lance do amadurecimento é incrível. Ontem mesmo estava conversando sobre isso, mas sobre o Pequeno Principe. Cada fase da nossa vida a gente tem um pensamento uma cabeça completamente diferente, e a interpretação da história vai ser outra. Queria reler alguns livros, mas tem tantos pra eu ler pela peimria vez que não tem como.
    Bjs

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    1. Oi, Priscila! É verdade, às vezes a gente quer ser pego desprevinido ao ler algo, né? 🙂 Adoro O Pequeno Príncipe também, é um livro que podemos ir relendo a vida toda. 🙂 Também queria reler outros, mas e como faz com a fila, né? hehe
      Bjs!! Obrigada pela visita e pelo comentário. ❤

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  4. Esse livro também foi uma grata surpresa pra mim, como ele é maravilhoso, né?
    Eu também fiz uma resenha pra ele, porque é tão bom, mais tão bom que a gente quer que todo mundo leia! Amei sua resenha 🙂

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  5. Que lindo. Encontrei o Velho e o Mar por acaso, quando era criança, na casa de uns amigos dos meus pais. Já encontrei muito livro assim, flanando pelas casas enquanto os outros conversavam. E peguei. Fui lendo, fui lendo, fui lendo… mergulhando. Hemingway. Como você diz, preciso. Seco. Cortante. As palavras. A história são as palavras, como continhas que ele arruma meticulosamente. Adorei ler seu olhar sobre ela.

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    1. Renata, que doce seu comentário! Obrigada por trazer essa sensibilidade. Engraçado como descobrimos esses tesouros em meio ao inesperado. 😃 Bjs!

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      1. Meu irmão curte demais, mas eu por ser muito acostumada com outro estilo de narrativa não sei… não captei toda essência, embora a mensagem em si seja ótima. (( Esse logo foi criação espetacular de um cara muito criativo, amei ❤ )) Obrigada !

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  6. Li esse livro dia desses e ainda estou refletindo sobre ele, até fiz minha irmã ler para saber o que ela achava também, rs. É engraçado que todas as reflexões sobre O Velho e o Mar que eu li e ouvi são bem diferentes, acho que cada um extrai exatamente aquilo que está sentindo no momento. E acho que essa é uma das coisas mais lindas do livro. Sua interpretação é uma das mais legais que eu vi! 🙂
    Já viu essa animação do livro? https://youtu.be/W5ih1IRIRxI está muito bacana, tem quase 20 minutinhos.

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    1. Oii! Td bem, Ju? Como vão as coisas por aí? Lendo seus livrões? Hehe… Então, veja só, eu li uma vez O Velho e o Mar e achei “ah, ok, o velho vai lá pescar, tal, bom”. Não achei nada demais… Na segunda lida, é difícil explicar, mas me pegou de jeito, li o livro quase todo chorando… rs Não desista dele, em algum momento ele vai falar ao seu coração 🙂 Espero q não de uma maneira mto trágica, claro… rs Vi a animação, sim, é bem legal 🙂 Sabe, vc tem um jeito bem respeitoso, eu não… eheheh Quando eu vejo gente falando que o livro é sobre a relação do homem com a natureza me dá até um calafrio. Pode até ser em pequeníssima escala, há muuito mais ali. Mas tento respeitar as opiniões…. Bjos, Ju!

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      1. Oi Val, tudo ótimo e você? Aliás, tenho que responder sua tag, não esqueci, até respondi mentalmente enquanto li o seu post, mas ainda não consegui sentar para escrever.
        Sobre O Velho e o Mar, vi várias leituras diferentes. Além da relação do homem com a natureza, vi pessoas abordarem questões como solidão e também sobre “querer algo, mas não estar preparado” e ao mesmo tempo pessoas que abordam a persistência diante dos desafios e frustrações. Eu ainda estou amadurecendo as minhas ideias, mas gostei bastante das suas colocações, tive uma leitura parecida com a sua (embora eu não tenha me emocionado)… e acho que no fundo deve ser tudo isso, hahaha, por isso que eu achei lindo, porque acho que cada pessoa extrapola suas experiências para a leitura do livro e por isso existem tantas interpretações. A menina que falou sobre solidão, por exemplo, estava em um intercâmbio. O “não estar preparado” saiu de uma pessoa que prestou vestibular e não conseguiu ser aprovada no curso que queria… e por aí vai. E ainda pensei muito no próprio Hemingway e na trajetória de vida dele e como ele a encarava. Em Paris é uma festa, por mais saudosistas que sejam os relatos contidos ao longo do livro, que diz respeito ao período em que ele ainda não era famoso, ele os termina com um tom mais frustrado conforme essa “fama” vai sendo alcançada. Mas não sei, ainda estou pensando, hahaha

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      2. Oi, Ju! Havia lido seu comentário e estava pensando sobre ele. Quando eu estava na faculdade, implicava muito com uma professora que queria que as nossas respostas fossem “códigos de barras”. Na verdade, ela fazia perguntas de certo e errado e sempre achei q literatura não fosse algo assim, mas percebo que posso ter me tornado algo parecido! Hehe Esse livro foi especial para mim, pq eu realmente me senti com o pescador, cujo sonho era levado parte por parte embora pelos tubarões. E a forma como ele tira forças para simplesmente recomeçar é linda. Mas é claro que pode haver outras interpretações que tocam as pessoas no momento em que elas estão vivendo. Acho q isso é bem claro na música, às vezes um momento em que escutamos uma em particular a marca para toda a vida, né? obrigada pelo comentário, adorei, me fez pensar bastante, não quero ser leitora óptica, não! hehe Beijos e, novamente, parabéns pelo mestrado e bons estudos! 🙂 ❤

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      3. Aaah, imagina, Val, é assim mesmo. Quando a gente estuda, ganha uma lente diferente para se debruçar sobre aquilo que estudou e tem um olhar mais clínico do que quem não estudou e assim consegue captar mais coisas. Tanto que sua interpretação de O Velho e o Mar foi a mais organizada que eu vi, pois mesmo te tocando de forma mais subjetiva, sua forma de organizar suas ideias é mais objetiva. Acho que isso acontece com todas as áreas de conhecimento. Eu mesmo, acabo valorizando mais as questões sociais e econômicas dos livros, porque automaticamente, em decorrência da minha formação, são essas coisas que saltam aos meus olhos quando estou lendo, por mais que eu tenha alguma relação mais emotiva com a leitura. Agora mesmo estou fazendo diário de leitura de Os Miseráveis… e diferente dos diários que eu assisto e leio por aí, os meus não tem quase nada da história, porque eu fixo todo o texto nas questões socioeconômicas. Vi um diário de leitura em que a pessoa colocou só as questões religiosas do Bispo de Bienvenu, mas para mim as questões políticas e econômicas desse personagem são mais importantes. Então acho que é normal a gente dar esse toque da formação na leitura, rs.
        E mais uma vez obrigada pelo mestrado, estou empolgada, espero conseguir manter a leitura e esse espaço na blogosfera.
        Beijinhos

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