Cem Anos de Solidão – da loucura e do extraordinário

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Existe algo no coração entre átrios e ventrículos e nos olhos entre o pousar e levantar de pálpebras, que desperta para a existência dos permanentes batimentos cardíacos e faz com que lágrimas tornem o rosto mais suscetível aos ventos. É a descoberta do amor. Eu não amo ler. Amo essa feitiçaria das palavras, a arte de contar que toca algum lugar desconhecido da nossa alma. Amo as histórias das pessoas que fazem a História existir.

Cem Anos de Solidão Márquez

Foi minha vez de terminar de ler Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. O primeiro aspecto evidente na história dos Buendía e seu povoado já se delineia na página inicial: a escrita como arte. Vou chamá-lo de Marquez aqui, com todo respeito devido. Marquez é um artesão das palavras. Imagino-o como um ourives trancado no aposento puxando acertadamente as palavras e alinhando-as com uma pinça delicada.

Conforme a leitura avança, sabemos também que é um exímio contador de histórias. Não há ansiedades, o abrir da página já o surpreenderá com todos os desenrolamentos e você terá de ser ábil o suficiente para subir no cavalo a galope e entender de onde vem e para onde vai essa história.

A “contação” vem de como sua avó lhe narrava “as coisas mais sobrenaturais sem alterar um só traço do rosto.” (Fonte) Depois de ler Franz Kafka, ele decidiu ser escritor. Veja só como se consubstanciam as experiências familiares e a leitura. Saramago também disse que a inspiração do seu contar vem de como os pais e avós lhe falavam sobre a vida e o passado.

Mas que histórias seriam essas? Os olhos do autor voltam-se à América Latina e sua formação. Falta intertexto para que eu entenda as referências, mas Márquez deixa inúmeras pistas de que elas existem. Um povo se forma com suas memórias e lendas, não importando tanto o que houve: a história é o que se contou, e este livro nos faz desconfiar do que está sendo contado.

A História, que se encarrega de contar os fatos, escapa da realidade, pois os vencedores explicam suas vitórias e os perdedores sempre se sentem infinitamente injustiçados, cada lado apontando para sua inteira legitimidade. Em meio a tudo isso, deparamo-nos com a história das várias pessoas, das vidas, da solidão. A literatura, que é encarregada da ficção, em seu sonho codificado, muitas vezes dá voz às pessoas que construíram a História, mas não têm espaço nela. E isso é muito lindo… e necessário. Nos “textos escolares”, a História decretou a inexistência dos 3408 trabalhadores que, durante manifestações, foram mortos e subsequentemente despejados no mar. A versão oficial imposta é que “este é um povo feliz” (pág. 144). Algo em comum? Não é o que se fala de nós, “um povo alegre por natureza”? É bom pensar.

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Cem Anos de Solidão Márquez

Este livro não é uma distração. Na literatura hispânica, está abaixo apenas de Dom Quixote em influência e relevância. Acho incrível sua posição entre os cinco livros mais vendidos no mundo, que grande capacidade do escritor de criar um livro tão denso e poderoso, mas ao mesmo tempo encantador, mágico. Tive um pouco de medo de lê-lo. Já havia começado antes sem sucesso, mas, leitor, é importante você se conhecer! Tenho dificuldade de embarcar com atenção nas leituras, é comum eu precisar ler e reler até poder prosseguir, e talvez você passe por isso também. Não desista de, ao fim, sentir os olhos marejados e o pulsar latente do coração.

Durante a leitura, tive medo de já dar alguns sinais de esgotamentos mentais, dificuldades cognitivas, alentamentos intelectuais severos. Minha versão tem a árvore genealógica e a cada página eu precisava voltar a ela para me certificar de quem era quem, filho de quem, saiu de onde. Aos poucos vamos percebendo que esses ciclos, as repetidas características e reações presentes nessa “casa de loucos” são propositais, pois o tempo passa “em voltas redondas”. Cem anos depois, até os ciganos voltam a encantar com seus ímãs e lentes (página 379).

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Cem Anos de Solidão Márquez

A narrativa nos chama para a delicadeza do absurdo e a normalidade do extraordinário. As mortes e os amores são vistos com naturalidade, uma parte do ciclo deste realismo mágico de paixões irrefreadas. Entre o comum e o incomum, deparamo-nos com os limites entre loucura e lucidez. O narrador nos revela discretamente, um a um, que os chamados loucos, desde José Arcádio Buendía, passando por Remédios, a Bela e José Arcádio Segundo, eram, na verdade, os mais conscientes habitantes de Macondo, o que nos leva a refletir o que é sanidade e o que é desvario.

As dualidades também estão presentes nos contrastes entre conservadores e liberais e, para o lado mais humano, nas relações inesperadas entre as personagens. Aureliano Segundo dividia-se entre a esposa Fernanda, que centraliza a imagem do querer-ser-parecer europeu-cristão e tranca sua casa ao mundo e ao novo, considerando tudo absurdo, e a concubina Petra Cotes, cujas atitudes refletem a venerada caridade que Fernanda nunca demonstrou.

Ainda assim, a genialidade do escritor nos mostra que o mal e o bem não são tão dicotômicos. É um convite ao entendimento dos sentimentos humanos muito além de certo e errado. Achei lindo quando o narrador explica as razões de Amaranta, que tinha medo de viver seu sentimento. A própria Fernanda humaniza-se na solidão.

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Cem Anos de Solidão Márquez

Minha personagem preferida foi Úrsula, gigante de “coração invencível”, que, ao morrer, cabia em um cesto de criança. A cura proveniente de seus remédios, sua visão além-corporal (inventei isso), os lapsos de sabedoria e de insanidade, de cuidado extremo, mas também de incompreensão diante do amor do filho pela irmã de criação. Queria um livro só sobre ela, e leria com dedicação.

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cem anos de solidão márquez

São muitas passagens, o frio da guerra, as borboletas amarelas, os amores, as ausências, a chuva, as mortes, cada personagem e seu universo. E o neto do Gerineldo Márquez que é também Gabriel Márquez? Seria o diretor que faz uma ponta no filme? Há muito sobre esse grande livro. Ele parece ter cinco mil páginas condensadas. Sei que o que falei aqui foram primeiras impressões dessa narrativa que à medida que chega ao fim cresce em beleza, e quando termina deixa um rastro na vida. Esses personagens são tão vivos, mesmo mortos, que se assombram uns aos outros e ainda querem despontar em nossa própria existência. Essa noite fui ao banheiro e temi encontrar algum Buendía por lá. 🙂

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E sobre a literatura… O autor deixa sua mensagem para não amassá-la e guardá-la no bolso… tampouco deixá-la no vagão de carga. 😉

Cem Anos de Solidão Márquez

Sim, eu tirei essas fotos e fiz a animação, por isso estou três dias atrasada! 😉

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49 comentários em “Cem Anos de Solidão – da loucura e do extraordinário

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    1. Eba, Thamiris!! Obrigada pela visita e pelo comentário!! Adorei ler esse livro.. Não foi fácil lê-lo nem escrever isso, é pesado falar sobre tanta coisa. Muito grata pela sua visita e pelo comentário!!
      Bjooooos! ❤ Fiquei super feliz.

      Curtido por 3 pessoas

  1. As personagens femininas tem igual importância queas masculinas. E Úrsula Tb foi a minha preferida. Grande ser humano feminino.
    E viu como tudo acaba com o temor do início. Abordagem q tem sido muito utilizada nos filmes de hoje.
    Parabéns por sua escrita.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi! Obrigada pelo comentário. Achei as personagens femininas incrivelmente mais fortes que as masculinas, amei. Esse livro tem uma coisa engraçada. Eu não achei q estivesse gostando tanto enquanto o lia, mas ele deixa uma marca. Quando termina, parece q junta tudo e dá saudade.
      Obrigada mesmo, fiquei feliz de vê-la por aqui.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Que linda a animação! Adorei seu post. Dá até vontade de gostar de Cem Anos….
    que foi um dos poucos livros que abandonei na vida. Não consegui. Me dá uma angústia danada. Não sei explicar direito…
    Já contei em post até.
    (deixo aqui pra se vc tiver curiosidade 🙂 mas não se sinta obrigada)
    http://chopinhofeminino.blogspot.com.br/2011/09/30-livros-em-um-mes-dia-2.html

    Fazer o quê. Queria mesmo gostar. Adoro ouvir quem gosta. Mas pra mim não rola.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi, Renata!!
      Então, comecei e parei esse livro… algumas vezes… rs Em outro comentário aqui que eu disse que enqto estava lendo, não sentia q estava gostando tanto, mas no final, vem esse calorzinho. Ele me deu uma bagunçada 🙂 É muita coisa, podia ser um livro de 5000 páginas! Rs Vou lá ver, sim!! bjos e obrigada pelo comentário 😉

      Curtido por 1 pessoa

  3. Oi Val , tenho mas não tenho vontade de ler esse livro… rsss Você conseguiu dar um plus para a leitura dele, muito bem trabalhado o post , um crédito especial que o livro ficou encantador . Agora vou pensar em ter vontade de ler o livro, beijos Claudia

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Cris, que legal vê-la de volta e na ativa, fico muito feliz!! Obrigada pelas visitas e comentários tão amáveis. Você é uma pessoa tão boa que fico até sem graça! bjs ❤

      Curtido por 1 pessoa

  4. Belíssima impressão a que teve. Fez-me fazer o caminho de volta. A recordar a narrativa e a cadência de um enredo entrelaçando nomes e momentos diversos, bagunçando a mente da gente e fazendo-nos ver que a vida e a guerra não existiriam uma sem a outra. Abraços

    Curtido por 1 pessoa

  5. Que maravilhoso esse blogs, obrigado por me proporcionar esse conhecimento, e contato essa obras de Gabriel García Márquez-CEM ANOS DE SOLIDÃO. TO EXLUSIVE LENDO NESTE EXATO MOMENTO TO AMANDO A LEITURA.
    Parabéns, pelo blogs, grato pela indicação.

    Curtido por 1 pessoa

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