Uma Aprendizagem do Sentir com Clarice Lispector

Antes me irritava um pouco ver algum dizer bobo atribuído à Clarice Lispector. Hoje entendo que ela é a dona das palavras. Quando alguém vem passando pela rua das frases e encontra uma que acha especial, bate à porta e pergunta “de quem são essas palavras?”, e o porteiro responde “olha, não tenho certeza, mas devem ser da Dona Clarice”. No fundo, são todas dela mesmo, ela lhes dá vida e razão de ser, os outros estão só pegando emprestado. Ou talvez a minha cota de bondade do dia acabe e eu não escape à tentação de achar que é pura falta de noção mesmo! Hehe

clarice lispector aprendizagem prazeres

Terminei de ler Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres e a sensação é esta: Clarice Lispector é a dona de tudo, parece que ela sabe onde as palavras querem estar, conhece cada um de seu rebanho pelo nome e guia-os com exatidão. A isso, soma-se a transparência com que delineia seus personagens e desnuda seus sentimentos e aspirações.

A última entrevista da escritora, concedida em 1977 ao repórter Júlio Lerner, contém algumas preciosidades e gostaria de compartilhá-las aqui antes de falar sobre o livro. Ela diz que, por ser escritora, a maior bobagem que ela dissesse poderia ser considerada uma coisa linda ou uma coisa boba. Como leitores, sabemos que as bobagens ditas da maneira certa pelo nossos escritores favoritos acendem as luzinhas do nosso coração. 🙂

Ouça o sotaque da escritora e veja que sua escrita guarda mistérios até para ela mesma

O repórter pergunta quando ela assumiu a carreira de escritora e ela responde que nunca:

“Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade.”

Adorei essa resposta porque desde pequena eu pensava isso especialmente com relação a músicos e cds, porque podia vir uma ideia muito boa de uma música apenas, não de quatorze para um álbum inteiro, né? Talvez o que complique um pouco a vida de outros escritores “profissionais” é ter de arcar com contas e tudo mais, mas se ela tinha esse privilégio, que bom, talvez por isso não exista nada “mais ou menos” com sua assinatura.

O repórter pergunta a ela sobre a juventude ler cada vez menos, e ela explica que um professor de português lhe havia dito ter lido quatro vezes A Paixão segundo GH sem ainda entender sobre o que se tratava, enquanto que uma jovem de 17 anos tinha-o como livro de cabeceira:

“Também em relação ao outros trabalhos, ou toca ou não toca. Suponho que não entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Tanto que o professor de português e literatura, que deveria ser o mais apto a me entender, não me entendia. E a moça de 17 anos lia e relia o livro, não é? O que é um alívio.”

Bom, aqui é o ponto em que eu gostaria de falar sobre o livro e sobre o sentir…

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… Lóri é uma professora primária e Ulisses um professor universitário de filosofia. Eles se conhecem na rua. Encontram-se algumas vezes, Lóri falta a alguns dos encontros. Viver é algo muito pesado para Lóri e ela ainda está descobrindo que precisa aprender como fazê-lo. Desde o começo, eles têm um desejo um pelo outro, mas Ulisses diz a Lóri que ela não está pronta.

Ela sente o peso de ser e da vida. Chegar sozinha a um lugar repleto de pessoas é um martírio. Estabelecer uma conexão com algum estranho na rua também. A vida dentro de si é um peso tão grande, que entregar de si a outros é aumentar esse fardo, algo antinatural, é uma troca inventada.

No começo, tive uma antipatia pelo Ulisses, porque quem era ele para dizer se Lóri estava ou não pronta para alguma coisa, né? A própria escritora diz com todas as letras que ele não era arrogante, como poderia parecer e, pelas páginas a seguir, vamos descobrindo que ele é na verdade uma pessoa muito amável e demonstra enorme respeito pela Lóri, com toda paciência para que ela resolvesse seus conflitos internos. Ele diz a ela a frase que deixei no começo e aqui também, algo que me marcou muito:

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“(…) Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

Essa paciência de unir o corpo e a alma é algo tão delicado. Duas delicadezas me sensibilizaram muito na leitura desse livro: a delicadeza de viver e a delicadeza de amar.

Viver era tão pesado para Lóri. Isso começa a mudar quando ela olha para Ulisses um dia na piscina. Ela tinha vergonha de estar de roupa de banho, mas em um momento único, olha para ele e talvez aí ocorra o desprendimento de todas as elocubrações, dando espaço ao sentir, talvez num sentido até mesmo animalesco. Depois, vai ao mar às 5h00 da manhã e, mais uma vez, entrega-se à sensação. Sem ninguém ao redor, sem medo, sem preocupação de si com relação ao outro. Ela puramente sente o instante, entrega-se ao ser e sentir e tem uma epifania. É dessa maneira, abrindo-se às sensações, deixando-se livre para absorver o maravilhamento inesperado do cotidiano, que Lóri abre-se também a viver e amar.

Mais uma vez acredito que tudo esteja relacionado. É aquela questão da garrafa de azeite caindo no pé: por que previamente dizer que não foi nada, em vez de simplesmente sentir o inevitável? Permitir sentir-se e experienciar primeiro e depois ver o que fazer com essa sensação. Lóri indagava-se frequentemente “quem sou eu?” e Ulisses diz a ela que essa é uma pergunta difícil demais. Tentar encontrar resposta para isso é um labirinto sem fim. Mesmo que se reúnam todas as nossas qualidades e defeitos, nós não somos inteiramente nossos vícios e virtudes em todos os momentos.

Há aqueles impedimentos ao sentir e agir genuínos, como a rapidez contemporânea e as convenções. Chegar ao cerne do sentimento, que deveria ser simplificar a existência, acaba sendo algo complexo. Talvez por isso a natureza aja de uma forma mais eficaz para Lóri: o mar, o sol, as plantas ajudam-na a ter uma percepção arrebatadora das sensações.

No momento em que ela passa a sentir de maneira mais pura e desprende-se de algumas bagagens, está pronta para o amor. Esse cuidado com os sentimentos é algo muito lindo nesse livro. Comecei a leitura desconfiando do Ulisses e terminei fazendo coraçõezinhos com as mãos para ele. Toda a aprendizagem dos dois vem dessa delicadeza com que eles se permitem viver e lidar com os sentimentos. A paciência que os dois demonstram em antes cuidar de si mesmos, para então poderem entregar-se ao amor e um ao outro é o que de mais doce e singelo li este ano.

Acenderam-se luzinhas no meu coração. E não foi nenhuma bobagem. 😉

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Beijos, boas leituras e até mais!
Obrigada. 🙂

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37 comentários em “Uma Aprendizagem do Sentir com Clarice Lispector

    1. Obrigada, Nayara, concordo contigo… acho que tudo que a Clarice diz tem um pouco a ver com o q vc falou sobre as pressões. Talvez seja esse o grande desafio de viver: sentir e fazer as coisas de uma forma mais natural, até mesmo primitiva. Difícil, né? Bjos!

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    1. Oi, Marcela! Obrigada pela visita e pelo comentário. Também sinto isso com ela: subjetiva, mas simples ao mesmo tempo. Acho que o centro das coisas tem disso, é simples por ser a coisa primária, mas complexo pq atingir essa simplicidade é mto difícil. Bjos!

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  1. Tenho uma relação ambivalente com Clarice. Algumas coisas me tocam muito, outras mal consigo compreender. Gostei muito do seu texto e ele me deu vontade de ler esse livro, que ainda não li. E seu relato me lembrou O Guardador de Rebanhos, do Alberto Caeiro. Também pra ele é a natureza a fonte de tudo o que é real e o melhor caminho para que nossas sensações existam. Gosto muito.

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    1. Ai, que comentário maravilhoso, adorei!! Saiba que eu também não consigo entender, ou sentir, tudo da Clarice. Li Água Viva e não me lembro nem da história, só sei que não me tocou exatamente. Depois li uma resenha em um blog (https://falandoemliteratura.com/2016/05/09/resenha-agua-viva-de-clarice-lispector/) que fiquei até com vergonha da minha leitura. Acho que é do momento, e acho que é totalmente respeitável não nos sentirmos tocados por algo. Bjos! Obrigada 🙂

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  2. Caramba, a minha relação é exatamente como a do comentário da Renata. O conto O Ovo e a Galinha, por exemplo, acho que jamais entenderei.
    Amo a forma com que você monta o cenário para os seus livros ♥

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    1. Oi, Bárbara, obrigada!! Então, nessa entrevista que mencionei, a Clarice diz que nem ela mesma entende esse conto, é um mistério para ela mesma, então ok! Hehe Bjos! obrigada!!

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  3. HAHAHAHA Adorei a introdução, agora vou olhar os “atribuidores” de frases a Clarice com mais misericórdia ao invés de sentir raiva.
    Eu li Perto do coração selvagem e precisei de um tempinho pra me refazer do mergulho nas palavras dela.Te aconteceu isso também?
    A colagem ficou muito fofa <3.
    Beijos!

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    1. Oi! Com certeza, não é na hora que você junta tudo, bom, pelo menos para nós… hehe eu li esse livro e demorei um pouco para escrever. Sinto q se ler de novo talvez as coisas mudem de novo… hehe Bjos!! Obrigada 🙂

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    1. Obrigada! 🙂 Você também poderia começar pelos contos dela, acabou de sair uma coletânea linda demais e acho q está em promoção na Amazon. Só não comprei ainda, pois já estourei a cota do ano inteiro de livros, mas ok! hehe Quem sabe no Natal… 😉 Bjos!

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  4. É isso aí! Pensei na sua perspectiva a respeito de Clarice e me convenci: as palavras atribuídas errôneamente a ela acabaram por popularizá-la. Se alguém, sensibilizado por elas, acessar os livros e textos reais dela, já valeu a pena! Sou fã master da Clarice, li toda a sua obra!

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    1. Que legal, Ana! Pois é, a gente vai ficando mais tolerante… rs 🙂 Achei super legal você ter lido tudo, conte mais no seu blog sobre os livros dela, ou sua impressão geral, seria bem interessante! Bjos e obrigada 🙂

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    1. Oi, Dani, acho que você vai gostar de A hora da estrela, último livro dela, depois você pode ler este sobre o qual falei aqui! Ah, o livro com todos os contos dela, lançado recentemente ė muito lindo!! Mas antes de fazer esse investimento seria legal vc se apaixonar primeiro… rs… Bjos e obrigada!

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  5. Ela era uma escritora incrível. Quem lê nota a paixão dela pela vida e pela escrita. Sinto até vergonha de ter começado a ler a Clarice ano passado com ”A paixão segundo GH”.

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    1. Sempre é tempo!! Mtos escritores ainda estão esperando na minha lista tb, a fila é grande 😉 Beijos e super obrigada pela visita, espero que tenha gostado 😃

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