O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe – Parte 1

Esta é a parte 1,  Leia a continuação sobre o livro aqui!

Você entendeu corretamente: para falar de um livro de menos de duzentas páginas, vou precisar de mais de um post! Querido leitor amigo, essa leitura é tão gostosa, faz-nos sentir tão vivos, primeiro, pela maneira delicada com que o escritor trata dos temas escolhidos e que nos emocionam tão prontamente e, segundo, pela forma com que o texto me faz pesquisar, leva-me de uma busca à outra, amplia o repertório, recheia as palavras de reflexões. Tenho de dizer que é paixão, talvez já possa carimbar que é amor. ❤ É tão bom que dá até medo, sabe aquele receio de ser feliz? Rs Mas vamos lá…

Dividi o post, porque só a epígrafe me tomou uma manhã inteira e não quero dar a falsa impressão de que a leitura foi um *plim* e pensei tudo em quatro parágrafos. No post sobre “Como ler os russos“, contei aqui que os inícios dos livros são fundamentais. Dá uma vontade de ignorar tudo e ir correndo para a história, né? Sei que sim, mas acredito que este post vai mostrar como no começo de tudo o escritor está formando a caminha da trama toda, como ele já gostaria que chegássemos ao texto dele com o coração imerso em algumas ponderações.

Primeiro de tudo: Quem é Valter Hugo Mãe? É importante saber um pouco sobre o escritor e boas entrevistas ajudam-nos a conhecer suas preocupações, sua bandeira. Não tanto para ligar os personagens a ele, mas, sim o contexto das narrativas a determinada visão de mundo.

Valter Hugo MãeEncontrei uma ótima entrevista na Revista Época, onde li que ele nasceu em Angola, mas é radicado em Portugal desde a infância, além de saber de sua própria voz, de forma muito clara, que um propósito de sua literatura é “desmontar algumas verdades que nós tomamos como reais só porque elas são muito repetidas”:

“Eu combato a tirania da individualidade. Cada um de nós é uma figura coletiva e a única forma de reclamarmos uma identidade humana é termos em conta os outros. Parece que criamos uma euforia por nós mesmos e quase nos convencemos de que somos autossuficientes e podemos rejeitar os outros. Essa solidão extrema como objetivo é uma forma desumanização.”

“Propagar a ideia de que o ser humano é atroz e vai ser sempre uma coisa terrível é fomentar e naturalizar uma característica que eu não aceito como sendo humana. A oportunidade de praticarmos o contrário da atrocidade é o que nos humaniza. Eu acho, no mínimo, muito chata a pessoa que acredita que o indivíduo horrível é a definição pura do ser humano.”

O entrevistador, Ruan de Sousa Gabriel, ainda cita: “O escritor português José Saramago (1922-2010) definiu o seu estilo como um “tsunami linguístico, semântico e sintático” e afirmou que ler o que o senhor escrevia era como “assistir a um novo parto da língua portuguesa”. (Fonte)

Com a chancela do José Saramago e essa bela e esperançosa visão da humanidade, vamos ao livro. A capa da edição da Cosac Naify mostra uma pintura chamada “Aldeia”, da pintora brasileira Marina Rheingantz:

Aldeia, Marina filho mil homens

O texto da orelha foi escrito por Silviano Santiago e é mais uma boa ajuda na preparação da leitura, principalmente quando menciona os relacionamentos familiares presentes no livro e cita o trecho tão bonito “Nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor”.

A seguir, vem a epígrafe. Imagine que essas palavras são o que o autor queria que você soubesse antes de ler. Ele te mandou um bilhete de amor e você não está nem aí? Maldade, né? O Valter Hugo Mãe estava todo international e decidiu deixar a epígrafe em inglês. Como tenho uma capacidade extra de viajar na maionese (às vezes sem embasamento nenhum) penso que já seria de propósito, talvez por ser a língua mais comumente falada, algo que une as pessoas de certa forma, para o bem e o mal. Será?

Não encontrei traduções, por isso resolvi traduzir tudo, estou super didática. 🙂

Primeiro vem a frase da Baby Dee: “You can buy me for the price of a sparrow” – “Você pode me comprar pelo preço de um pardal”

A minha leitura inicial dessa dúzia de palavras foi bem crua. Tudo envolveu pesquisa, não sabia quase nada. Baby Dee (nascida em 1953) é uma artista americana performática, multi-instrumentista, compositora e cantora de Cleveland, Ohio. É uma transexual, e essa frase é o início de uma música dela:

Primeiro, achei que ela se referia a prostituição. Buscando na Internet, vi que a menção ao preço do “pardal” remete a um trecho da Bíblia:

“Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês.
Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.
Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais!”
Mateus 10:29-31

Para os homens, o pardal vale muito pouco, mas Deus cuida dele, como sua criação, imaginemos então quais são os cuidados reservados aos seres humanos, que valem muito mais do que os pardais. Para comprar dois pássaros, é preciso uma moeda, porém Baby Dee menciona na música que uma pessoa em sua condição, para a sociedade, vale o mesmo que um pássaro apenas, ou seja, ainda menos que uma moedinha.

Isso é muito triste. Como alguém pode valer tão pouco? Se é justamente o contrário do que é falado no texto bíblico… É importante pensarmos que nossa visão de certo e errado não pode determinar o valor das pessoas. É impossível não pensar nas mortes em Orlando, nas pessoas que são excluídas, humilhadas, mortas, que parecem valer menos do que as outras. As motivações do ataque em Orlando são um assunto diferente, talvez, mas pensando em nosso cotidiano, o amor precisa ser maior, as pedras que atiramos ferem nossa humanidade.

Isso me lembrou muito também o caso em Portugal da transexual brasileira morta, agredida por quatorze adolescentes durante 15 dias, que inclusive virou música cantada por Maria Bethania. É tudo estarrecedor, precisamos pensar e falar sobre essas mortes, sim, não podem ser apenas mais uma notícia.

A segunda parte da epígrafe, é o poema “The Pact”, de Sharon Olds. Traduzi para o português:

O Pacto

Brincávamos com bonecas naquela casa onde o Pai cambaleava com a
faca de Ação de Graças, onde a Mãe chorava ao meio-dia diante de seu pequeno pedaço de
queijo cottage, pedindo forças em oração para não se
matar. Ajoelhávamo-nos sobre os
corpos de borracha, dávamos-lhes banhos
com cuidado, limpávamos suas
mãozinhas laranja, cobríamo-las bem,
dizíamos boa noite, nunca falávamos sobre a
mulher como uma ferida aberta
chorando na escada, o homem como um
búfalo preso, perplexo, atordoado, arrastando
flechas na pele. Como se tivéssemos feito um
pacto de silêncio e segurança, ajoelhávamo-nos e
vestíamos aqueles minúsculos torsos com seus umbigos elegantes
e minúsculos furos
na parte superior da nádega para fazer xixi e toda a
escuridão em suas bocas abertas, de tal maneira que eu
não pude perdoá-la por
abandonar sua filha, deixá-la partir aos
oito anos, como se você pegasse a Molly Ann ou
a Chorinho e segurasse sua cabeça
embaixo d’água na banheirinha
até que não surgissem mais bolhas, ou jogasse seu
corpo rosa escuro no fogo que
queimava naquela casa onde você e eu
mal sobrevivíamos, irmã, onde nós
juramos ser protetoras.

É para se acabar de chorar sem nem ter lido nada ainda, né? Esse poema é tão repleto de imagens. As irmãs brincavam com suas bonecas e demonstravam o cuidado que talvez gostariam de ter para si. O pai, provavelmente bêbado, com essa faca na mão. A referência ao dia de Ação de Graças, um dos feriados norte-americanos mais importantes e tão atrelado à reunião da família. A mãe que em uma cena cotidiana ora por forças para não se suicidar. O pacto de silêncio e proteção entre as irmãs.

Mexe muito comigo tudo isso, é um pesar cortante. Pensar em famílias sem amor, em maus tratos, em desequilíbrio total. Gostaria que todas as crianças crescessem envoltas por uma couraça de amor e segurança para que quando, bem mais tarde, conhecessem o ódio, o rancor e a violência, esses sentimentos não penetrassem seu coração. E elas podiam conhecer só de ouvir falar também.

O poema todo e esse “nunca falávamos”, me lembraram da música “Luka” da Suzanne Vega, em que uma criança diz morar no andar de cima e pede que, se você ouvir algum barulho de briga e objetos atirados, não pergunte nada. Mostra ainda todo o sentimento de culpa das pessoas agredidas. Chorei horrores essa semana com as epígrafes e as músicas. Deixo aqui duas versões, a do clipe, por causa da criança, e a de baixo, mais lenta, incrivelmente comovente…

Bom, é assim que chegamos à narrativa, com os olhos vermelhos, marejados, repletos de compaixão pelos seres humanos, pelas crianças, querendo que todos tenham um pouco de amor e não se sintam inferiores de nenhuma maneira…

Ainda nesta semana vem a parte 2 🙂 Leia a continuação sobre o livro aqui!

Beijos e boas leituras!

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28 comentários sobre “O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe – Parte 1

  1. O Mãe tem muita influência do Saramago, até mesmo na forma de seus parágrafos. Se me engano, o Mãe não inicia com letras maiúsculas. Eu li versões portuguesas qdo vivia em Portugal.
    Este livro, em especial, ainda não li.
    Eu sinto-o mais como português e não angolano, mas talvez pelo fato de ter nascido em Angola, não sei qto tempo lá viveu, ele não tenha uma cabeça portuguesa, assim como Saramago Tb não era o comum português. Não sei se me fiz ser entendida, e acabarei por entrar em polêmicas lusitanas. Rsrs

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    1. Hehe entendi mais ou menos o que você falou, na entrevista que citei, ele fala um pouco sobre certo “comodismo” português. Adoro seus comentários, na minha cabeça chamo você de Miau, pois ainda não encontrei seu nome 🙂 Li apenas esse livro dele, parece que os quatro primeiros, ele escrevia sem maiúsculas, inclusive assinava o próprio nome assim. Você muda bastante, hein? Que legal! Adoraria ver um pquinho de Portugal no seu blog, vou procurar se há algo. Bjinhos e obrigada!!

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  2. Rsrs Acho q escrevi em “sobre” a forma como mais me chamam Sul, meu nome é Silvana. Mais prefiro ser o Miau.
    Talvez um dia fale de Portugal. Portugal causa feridas, como alguém q não quer ser amado.
    Sim, era isso do comodismo Tb.
    Eu adoro os parágrafos do Saramago e as minúsculas do Mãe pq quebram com a seriedade q alguns portugueses gostam de dar a língua portuguesa q é tão bela, mas q não tem a grandeza de um francês.
    Eu vivi em 3 países contando com o meu Brasil. Já viajei um bocado, o blog é um exercício a partir de qdo vim morar na Bélgica. Morar aqui é um exercício mais fácil para prática da tolerância, o outro tema do seu post. Mais a tolerância Tb pode se confundir com indiferença.

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    1. Deve ser mto legal sua experiência de morar em vários lugares, que ótimo que você leva isso ao blog. Essa questão da tolerância tb é bem difícil e achei legal que você mencionou, pois o livro aborda isso de uma maneira incomum, acho que você gostaria de lê-lo. Bjos!

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  3. Seu post só reforça minha vontade em insistir Valter Hugo Mãe.
    Minha primeira tentativa com com “A máquina de fazer espanhóis”, mas não rolou. A narrativa que intercalava entre o presente e as lembranças de um idoso, aliado à época super cansativa da vida em que eu estava, me fizeram abandonar o livro que tinha efeito de sonífero em mim. 😦
    Mas por ouvir opiniões relevantes a favor to autor comprei “A desumanização” para dar outra chance ao autor.

    Por termos amado tantos livros em comum, sua opinão sobre ele me fez querer ainda mais ler algo dele logo!

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    1. Vale a pena, sim! Às vezes é melhor desconfiar de nós mesmos do que dos escritores… hehe Cem anos de solidão foi um livro que tentei ler algumas vezes e não conseguia, primeiro durante a faculdade, depois prestes a me casar. Acho que os livros têm seu momento certo 🙂 Obrigada e bjos!!

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  4. Val, que riqueza de Post! Conheci esse escritor pelo comentário outro escritor, o João Paulo Cuenca, no programa Estudioi e o único livro do mãe que eu li foi O apocalipse dos trabalhadores. O livro é curtinho, mas o conteúdo é denso e fui digerindo aos poucos tb.
    Eu gosto muito de posts como este que tu fizestes,que tenham links que me permitam caminhar pelo assunto, me auxiliam a conhecer a historia, ver outros pontos que complementam,entrevistas e matérias sobre o autor e por aí vai. Eu uso bastante esse recurso la no blog pq adoro a forma como a ligação desses pontos nos ajudam na compreensão da obra. Vou esperar a segunda parte, pra colocar esse livro na extensa lista de ” Preciso ler”.
    Beijos ❤

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    1. Oii! Obrigada 🙂 Você é sempre muito gentil, né? Não li o livro que você citou, não tinha nem ouvido falar hehe Sou nova de Valter Hugo Mãe 🙂 Os links foram coisas que me tocaram bastante mesmo, principalmente os vídeos. 🙂 Sobre a segunda parte, está chegando, queria que fosse hoje, mas acho que amanhã ela está por aqui 😀 Bjos!! E obrigada, novamente! ❤

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  5. Que linda a maneira como você lê! Vai atrás de informações e tudo o mais. Nunca tinha pensado em ir tão além…

    A forma como você escreve é tão bonita e convincente. Fiquei até feliz por ter encomendado A Desumanização.
    Beijos, boa semana!

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    1. Oi, Nathalia! Obrigada pelo comentário 😉 é muito gostoso ler dessa forma. Obrigada pelas palavras meigas tb. Estou curiosa para ler mais livros dele. 😃 Bjos!

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  6. Oi Val! Ainda não li nada do Valter Hugo, mas achei seu post maravilhoso, as referências e reflexões me fizeram pensar bastante e me deixaram com mais vontade ainda de ler algo do autor.
    Beijos,
    Camila

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  7. Que post lindo! Comecei a ler o livro hoje e estou tão encantada…
    Ainda não tinha pesquisado nada sobre a epígrafe e adorei mesmo saber tudo isso!
    Obrigada! Quando eu for fazer a resenha vou por se querem saber sobre a epígrafe vão lá olhar o texto da Val. ❤

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    1. Que legal, Thamiris!! Como você começou a ler agora, talvez seja bom ler a parte 2 depois, mas seria legal ler para conversarmos se pensamos as mesmas coisas 😉 Bjs!! Obrigada 🙂

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  8. Nossa! Brigada por compartilhar tudo isso! Em relação à primeira epígrafe, sabes o que eu pensei também? Que se eu posso ser comprada com um pardal e dois pardais valem uma moedinha, quer dizer que eu valho meia moedinha, eu valho a metade. E isso é bem o Crisóstomo do primeiro capítulo, que sentia que tudo lhe faltava pela metade. Foi o que pensei quando comecei a ler a tua explicação. Mas a grande questão é que esse livro é maravilhoso e deixou meu coração cheio de esperança na vida! ❤

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    1. Oi, Regina! Obrigada pelo comentário, concordo com você. Interessante essa analogia com a metade. Tem tudo a ver por causa dessa busca pelo amor que vemos no livro, né?
      Obrigada, amei seu comentário! Bjs

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