O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe – Parte 2

Veja aqui a parte 1 deste post!

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A característica que define a boa literatura, ou arte, é a capacidade de fazer se abrir um terceiro olho em nossa testa. […] A grande literatura tem se posto nos lugares e nas peles dos outros, estranhos, às vezes odiosos, seres humanos, dom Quixote, os Iagos, os Raskolnikovs desse mundo. A literatura ruim não vai fazer se abrir um terceiro olho. Vai simplesmente repetir o que já sabemos, e nos mostrar apenas o que já vimos.
O que a literatura ruim efetivamente faz é fixar o punhado de clichês morais e psicológicos que a fofoca nos inflige. Sim, a fofoca é prima da literatura de má qualidade, embora a literatura tenha vergonha desse parente e não o cumprimente quando se cruzam na rua.”

Encontrei essa citação maravilhosa do Amós Oz no blog Livros Abertos, semana passada.

Já falei aqui que às vezes confundimos “(não) gostar” com “(não) entender” ou “(não) apreender algum sentido”. Um dos componentes mágicos da arte é a ruptura com o gostar. Apreciar algo ao primeiro olhar pode estar mais associado ao que nos é comum do que ao despertar dos sentimentos. A literatura tem esse dom especial de nos emprestar lentes diferentes das nossas habituais, para talvez reconhecermos que a sujeira que avistamos são ranhuras da nossa própria visão.

Em “O Filho de Mil Homens”, Valter Hugo Mãe alterna essas lentes com extrema habilidade. Os primeiros sinais que precisamos decifrar, logo nas epígrafes, já nos envolvem com um sentimento de amor fraternal por todas as pessoas, despertando o desejo de que todos sejam valorizados como seres humanos e desfrutem do direito de rodear-se de amor e segurança.

A página inicial revela Crisóstemo, um pescador que, ao chegar aos quarenta anos, “assumiu a tristeza de não ter um filho”. É muito doce pensar que ele tinha o amor de pai  e seria natural buscar uma criança que tivesse o espaço vago desse amor. Com delicadeza, o autor já vai desconstruindo alguns conceitos por mostrar um homem triste, que assume a sua solidão, e busca a sua família de uma maneira não tão convencional, procurando pela aldeia aquele que seria seu filho. Ele pensa ter falhado no amor, mas não desacredita da sua capacidade de amar.

Novos personagens entremeiam-se na narrativa a cada capítulo, à medida que se apresentam os laços que os unem e definem. As noções de indivíduo e de coletivo são fortemente delineadas no livro. As pessoas são, antes de tudo, pessoas, e ninguém é mais pessoa do que a outra. O “maricas” e a “anã” são muito mais do que essas designações apequenadas. Mesmo a história de uma pessoa não deveria defini-la para sempre. Se não gostamos que diminuam nossos sentimentos, também é bom não desfazermos das emoções alheias.

“Uma pessoa nunca seria uma mentira. Era preciso que partisse dessa honestidade.” (p. 121)

Durante essa construção, algumas cenas e linguagens expostas foram incômodas: as situações de violência, julgamentos e hipocrisia, principalmente. Até mais da metade do livro, levei esse desconforto comigo e demorei para perceber algumas coisas sobre mim mesma. Tinha a impressão de que o livro não estava atendendo às minhas expectativas, mas na verdade eu que não queria ler o que era retratado ali, por puro distanciamento, por pensar que o assunto abordado não me tocava, ou que eu já sabia o que precisava saber sobre isso: ok, precisamos respeitar as diferenças.

E como é verdade que a boa literatura nos dá novas lentes… Uma noite, na praça de alimentação do shopping, vi uma menina com roupas masculinas e cabelo raspado sentada em meio a um retrato típico de uma família: avó, criança etc. e pensei como ela não combinava ali. Quando me dei conta do que havia pensado, fiquei com vergonha. O que passava pela minha cabeça? Será que existe mesmo alguma pessoa que não mereça ter uma família? Esse livro me mostrou o quanto eu preciso evoluir quanto a entender a naturalidade do amor e sobre o que é fazer parte da família humana.

Lado a lado com a valorização do ser, dessa noção de singularidade, vem o fato de que as pessoas são necessárias umas às outras. Os relacionamentos nos trazem as maiores dores, mas também os sentimentos mais sublimes. Esse livro é um grande tratado sobre os seres humanos e suas relações de amor e ódio. Ficamos a pensar como as pessoas podem ser todas iguais e ao mesmo tempo tão diferentes. Como “ser o que se pode é a felicidade”, e como é angustiante quando cabe a outros definir o que se pode ser.

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Depois de vermos como as pessoas podem ser cruéis, vem a singeleza da outra face. E são muitas as lições sobre o amor:

“O Crisóstemo explicava que o amor era uma atitude. Uma predisposição natural para ser a favor de outrem. É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer se pensar, por outra pessoa. Isso dava também para as variações estranhas do amor.” (p. 111)

“O toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro lado de cá da pele. Quem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra. E amar uma pessoa é o destino do mundo.”(p. 122)

“Quando se conhece alguém, pensou o Crisóstemo, procuram-se a exuberância dos gestos, como para fazer exuberar o amor, mas o amor é uma pacificação com as nossas naturezas e deve conduzir ao sossego. O gesto exuberante é um gesto desesperado de quem não está em equilíbrio” (p. 127)

Crisóstemo diz a Camilo: “Nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor.O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescados respondeu: por que é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro que és.” (p. 128)

Minha “luta” com o livro chegou ao fim antes das vinte páginas finais. São algumas das páginas mais lindas e leves que já li. Somos levados a pensar como o amor pode ser algo mais natural, algo que simplesmente nos una, sem expectativas, sem aparências, sem julgamentos, sem embaraços.

Acho que esse livro contém um chamado à humanização, a sermos menos solitários, a estarmos dispostos a entregar nossa melhor parte e pertencermos uns aos outros, pois todos somos o resultado das ações de muitas pessoas:

“O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.” (p. 188)

Lindo demais ler: “O Antonino via a Isaura” (p. 123). “Ver” alguém é muito profundo. Quantas pessoas realmente o “veem”? Quantas pessoas você pode dizer que “vê”? Enxergar o outro é um grande exercício. Estamos acostumados a rótulos e referências, e não só para o que a sociedade julga errado ou estranho, pois mesmo uma mãe dificilmente é vista como ser humano; o título fala mais alto. Precisamos ir além das definições que construímos para as pessoas.

Escrevi e reescrevi tantas coisas sobre esse livro. Acredito que o êxito do Valter Hugo Mãe esteja em transmitir o peso e a leveza. O peso que existe quando as pessoas não aceitam umas às outras e a leveza que surge quando o amor fala mais alto. Somos diferentes e precisamos ter o direito a sê-lo. Ao mesmo tempo somos iguais em nossa humanidade. Antonino lembra-nos de que dispomos de uma ferramenta incrivelmente necessária nessa trajetória de humanização:

“Nunca queira livrar-se do coração. Siga-o” (p. 126)

A imagem de que todos somos parte uns dos outros me tocou muito em “O Filho de Mil Homens”, e foi isso que quis retratar na animação. É a ideia de que os sofrimentos de uma pessoa atingem a todos os outros, pois somos um.

Filho Mil Homens Valter Hugo Mae

Obrigada pela visita. Boas leituras e até mais!
Obs. Caso não tenha visto a Parte 1, tratei do autor e das epígrafes, que são muito lindas e combustível para muitas reflexões.

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23 comentários em “O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe – Parte 2

  1. Adorei a animação, tô achando o livro lindo, babando, a primeira história já me tocou muito. Fiquei com vontade de mostrar para muitas pessoas que ainda torcem o nariz para adoção, que acham que não pode ser o mesmo amor de que um filho gerado. E a história da anã e da vila cheia de hipocrisia, estamos vivendo em um mundo tão hipócrita ai ai… Enfim só não li aqui na resenha os trechos que ainda não li pq quero ler de primeira mão no livro 😉
    Ah, e vamos ser parceiras?

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    1. Obrigada, Thamiris! É bonito sim o livro. Uma hora começa a ficar um pouco desconfortável pelo que é narrado, mas acho que vai de cada um, sabe? E vê-se claramente que é a intenção do autor, não é gratuito. Claro que podemos ser parceiras, mas sou nova nisso, como que a gente vira parceira? 🙂 Bjos!! E obrigada, novamente.

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      1. Trocamos banners ou logo para por no blog (eu ponho numa área para parceiros), e continuamos nos visitando, conversando e tentando fazer algo juntas. 🙂 Podemos combinar de sempre ou de vez em quando divulgar os posts nas redes tbm…

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      2. Legal, Thamiris! Vou organizar meu espacinho aqui e fazer um banner 😉 de coração já é parceira, tá bom? Falta só oficializar… hehe Bjos e obrigada!!

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  2. Já li duas obras do Mãe. Vou colocar esta na lista p ler.
    Vc citou o “maricas” …Eu noto nas obras dele alguma sexualidade. Há sempre um certo ar de homossexualidade no ar, no usar muito a palavra “cú”… Vc observa Tb isso ? Qual a relação do autor com este tema? Vc leu algo nas entrevistas?
    Abraços

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    1. Oi, Sil!! Sim, nesse livro fica muito presente essa questão da sexualidade, principalmente, como algo que define as pessoas aos olhos de muitos, e que também acaba por revelar muitas hipocrisias. O palavreado tb é constante nesse livro. Sobre o autor, com relação ao assunto específico, não encontrei nenhuma declaração dele sobre ele mesmo ser homossexual, mas acho que ele narra os sofrimentos do Antonino (o “maricas”) com tanta propriedade, que nos faz imaginar algumas coisas, mas, não sei, talvez ele seja um Chico Buarque falando com a voz das mulheres. 🙂 Nesse livro, as questões da sexualidade estão presente, além do caso do Antonino, em traições e julgamentos. O autor vai ensinando pela dor, e nas últimas páginas resolve dar a lição pelo amor, e então tudo fica leve e faz sentido. Bjos e obrigada pela visita!!

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  3. Pelo que você diz, já sei que preciso ler este livro. Lindas reflexões! E adorei a citação sobre a literatura, logo no começo. Seus posts são muito inspiradores. Beijos

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    1. Oi, Nathália! Muito obrigada pela visita e pelo comentário. Amei a citação. Às vezes a gente quer ser mais democrático e achar que não existe literatura ruim, mas no fundo, existe, sim, né? Rs… O livro é bem tocante, vale a pena ler. Bjos e obrigada!

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  4. Gif massa, resenha mais ainda! Mostrar os recortes antes de serem unidos no gif é o compartilhar do processo. Tudo feito com carinho. Acrescenta à leitura do livro. Obrigado por somar mais experiências a experiência primeira de ler. Se o autor soubesse do seu post ele agradeceria porque expandiste a criação dele e crescesse com ela e compartilhaste conosco seu descobrir. Beijo

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    1. Oi, Jorge, que legal seu comentário, adorei! Ao terminar de escrever sobre os livros, sempre acho que havia muito mais a dizer, muito a analisar. Acaba ficando uma partezinha aqui do que mais me tocou e se isso também toca outras pessoas, fico muito feliz!! Obrigada pela visita e pelo comentário. Até mais! 🙂

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  5. Não poderia finalizar meu domingo de um jeito melhor do que vir aqui e acompanhar esta segunda parte sobre o livro!
    Que escrita generosa e que despertou meu interesse para ler esta obra.
    Parabéns, Val! O Blog fica melhor a cada post e adoro conhecer novos blogs sempre que venho aqui. Um beijão e ótima semana pra ti ❤

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    1. Poxa, que comentário mais lindo, amei!! Obrigada pelas palavras tão meigas, você sempre me deixa animada pra continuar 😉 Bjos e super obrigada! Ótima semana pra vc! ❤

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