A Metamorfose, de Franz Kafka

Desde criança, minha associação imediata à palavra “metamorfose” era a borboleta, que nos remete a como as mudanças podem ser boas quando se vai de larva a uma das mais belas e delicadas criaturas da natureza, mesmo com privações e certa dose de sofrimento. No entanto, pode haver muita tristeza quando se muda para pior, para o que é inesperado pela sociedade, pela família e até por si mesmo.

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamoforseado num inseto monstruoso.”

metamorfose resenha kafka

Reli “A Metamorfose”, de Franz Kafka. A primeira leitura não me despertou tantas emoções, mas desta vez, as poucas 71 páginas me derrubaram. Não foi preciso nem o livro inteiro, na verdade. Conforme vamos adquirindo vivências, a identificação com os personagens é mais imediata e profunda, acho que nosso repertório de sentimentos aumenta, um pouco da dor do outro é a nossa também, por reconhecimento e empatia.

Está lá Gregor Samsa, caixeiro viajante, que desperta todos os dias muito cedo para trabalhar e garantir o sustento integral da família. O pai viu seus negócios falirem há cinco anos e, desde então, deixou-se estagnar em peso e lerdeza. A mãe tem asma e mal pode lidar com os trabalhos da casa, por isso Gregor paga duas empregadas para cozinhar e lidar com todas as tarefas. A irmã, Grete, é a eterna adolescente em férias, que também tem muito pouco a contribuir.

Gregor é o ponto de equilíbrio da família inteira. Cita-se a vida sossegada que ele havia dado aos familiares, “em uma casa tão bonita”, contudo, para isso, foram necessários muitos sacrifícios, como a submissão a um chefe inescrupuloso devido a uma dívida contraída há anos. Pobre Gregor, sugado por todos os lados, até que um dia desperta na forma de um inseto repugnante. Mal ele mesmo sabe o que está acontecendo e já começam as pressões familiares e do trabalho.

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Ele está lá virando barata (o inseto não é tipificado no texto, mas vamos ao mais repugnante que conseguimos pensar! rs) e ninguém está nem aí. NINGUÉM. Já me senti assim, talvez você também. No pior momento da minha vida, quando estava completamente sem chão, enfrentei egoísmos, cobranças e até mesmo a raiva das pessoas, sendo que por dentro borbulhavam sensações desconhecidas, com as quais eu não sabia lidar.

É impossível não pensar nas relações de emprego desumanas que enfrentamos, mas também refleti muito sobre o que guia o nosso coração. O mundo está aí, é assim mesmo e vai nos cobrar até mesmo o que não tivermos para dar, mas e as pessoas de nosso convívio? Nossos amigos e familiares deveriam ser o contrapeso dessa balança. E nós para eles também.

Gregor não sabe nem como mexer suas perninhas em sincronia ou como manter sua cabeça a salvo das quinas do quarto, e lá está o chefe cobrando pontualidade e produtividade, sem querer saber o que se passa. Tudo o que ele fez até então não tem o menor valor. Ninguém se põe no lugar dele. Como é importante pensar em como as pessoas estão se sentindo ou se sentiriam, não quero me esquecer disso nunca, porque é fácil perceber quando não sou vista, mas enquanto penso isso, atravessada por toda angústia, também posso estar ignorando os sentimentos alheios. Acho que também já fiz isso muitas vezes.

Gregor tenta fugir da realidade e é impressionante que, mesmo após perceber sua nova condição, suas primeiras reclamações sejam sobre a sua profissão extenuante. Cita os contatos humanos cambiantes, nunca duradouros e jamais afetuosos. As relações de trabalho e humanas lhe afligiam mais do que ter virado inseto!  Hoje andei de trem e metrô e fiquei pensando quais possibilidades muitas daquelas pessoas têm (não têm…), como estão em um ciclo muito difícil de se libertar. Quanto a Gregor, é evidente que ele permanecia nesse emprego que não tolerava para pagar a dívida da família e é muito triste perceber adiante que o pai poderia ter pagado o compromisso com o chefe desde o início e não o fez.

É angustiante ver que o que ele era e no que ele se transformou não tinham qualquer importância para ninguém. Com todas essas mudanças, Gregor ainda tenta fazer o que é esperado de si: ficar em pé. Não consegue, percebe que só se sente bem deitado. O pai o enxota, ao vê-lo. A mãe tenta enganar a si mesma dizendo que a condição de Gregor era passageira. Todos passam a acreditar que ele é uma “coisa”, porém ele sente e entende tudo.

Esses trechos me fizeram refletir sobre o que acontece quando um filho se transforma em algo que os pais não esperavam. Algo que nem mesmo ele sabe o que é, que se descobre aos poucos. No livro, o sofrimento dos pais tem como motivação a vergonha e as mudanças indesejadas no padrão financeiro da família, não a desumanização, pelo menos externa, de Gregor. Não o fato de que ele não poderia conviver normalmente com as outras pessoas, nem se casar, ou ser feliz e aceito por todos, mas o desconforto pela situação repugnante. Às vezes eu penso que quando eu tiver um filho, ele será desse ou daquele jeito e já freio tal pensamento, pois acredito que o maior desafio para os pais seja amar incondicionalmente os filhos seja lá o que eles forem ou quiserem ser, e isso não é fácil.

metamorfose contracapa kafka

O livro é muito profundo, mesmo que curto. Não dava para ser maior porque a vida da barata realmente não tem muitas expectativas, eu acredito. Há livros que te tiram da realidade, fazem você viajar a um bom destino, talvez impensável no cotidiano, e há outros que te jogam na dureza crua da vida. Caro leitor, sugiro a mim mesma e a você intercalar um pouco os dois, pois é cruel demais. Quando li “O filho de mil homens“, essa maldade do mundo estava bem escancarada, mas o final é redentor e muito doce, acredito que esse seja um grande mérito de Valter Hugo Mãe, encontrar um escape.

Em A Metamorfose, fui esbofeteada sem nenhuma florzinha branca no final. No entanto, esse lembrete de realidade é importante, porque precisamos nos colocar no lugar do outro. Precisamos saber o que está acontecendo ou ao menos reconhecer que não sabemos:

battles be kind
“Todo mundo que você encontra está lutando uma batalha sobre a qual você não sabe nada. Seja gentil. Sempre”
contracapa metamorfose
Contracapa da edição da Coleção Grandes Nomes da Literatura, da Folha

 

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30 comentários sobre “A Metamorfose, de Franz Kafka

    1. Obrigada!! Esse livro me derrubou mesmo, fiquei muito triste. Não consegui ler rápido, pois é mto profundo, cada página traz mts reflexões! Acredito que você vá gostar 🙂 Agora estou ansiosa para ler O Processo! Bjos 😉

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  1. Pow muito massa a postagem Val 🙂 Gostei também de encontrar o conjunto “a metamorfose” inteira na primeira e segunda fotos e depois totalmente desfeita na terceira, como uma desconstrução da metamorfose. mas notei também a relação das baratas à cada foto. na primeira parecem sinalizar um encontro; na segunda, esse encontro parece realmente que se efetivará; na terceira, com a transformação/metamorfose desfeita está cada uma virada para a direção do desencontro. posts seus sempre massa \o/

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  2. Eu também li este livro em duas ocasiões: na adolescência por curiosidade – pensando que era um livro de terror (kkkkk)) – e no ano passado, já com a visão mais ampla de sua temática. Nunca quis pensar em barata, penso num besouro.

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    1. Oi, Paulo! Na minha edição, nas notas de tradução aparece que uma das palavras em alemão sinaliza mais a besouro mesmo! Apesar de ter um sentido dúbio. E diz também que Kafka fez questão de deixar isso em aberto. O problema é que minhas duas edições desse livro têm uma barata na capa, então foi difícil dissociar… Rs e é mesmo a coisa mais repugnante em que consigo pensar!!

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  3. Muito boa sua análise, Val. Concordo totalmente.
    Esse foi um dos livros que mais me “incomodaram”. Passei uns bons dias com uma sensação amarga, angustiada.
    Beijos,
    Bia.

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  4. Nossa só o que eu li agora me fez pensar em tanta coisa! Eu sempre tive receio de começar essa leitura, mas você me deixou curiosa. Parece ser uma leitura bem intensa que você acaba refletindo sobre ela por um bom tempo. Gostei! Acho que vou ler.

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  5. Oi Val! Meu primeiro e único contato com Kafka foi com o livro ‘O Processo’ muitos, anos atrás. Foi um livro denso e estranho que me incomodou muito e que tive que me forçar a ler, ainda o guardo em casa com a intenção de reler, afinal, sempre somos surpreendidos em releituras, mas ainda não tive coragem. Gostei da sua análise e estou pensando em antes de reler ‘O Processo’ ler ‘A Metamorfose’ quem sabe não tenho outra visão do autor. Texto muito bom e intimista 🙂

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    1. Oi, Camila, quero ler O Processo tb em breve. Esses livros foram feitos p/ incomodar msm… Por isso a gente fica com essa sensação. Eu gosto mto de releituras, sempre são muito diferentes! Bjos e obrigada 😉

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  6. acho que li esse livro ano retrasada e, fiquei com pavor na descrição na hora da transformação. até pq já tenho pavor mesmo na vida real do tal bicho que prefiro nem escrever hahahaHAHAHAhahHAH!!! como a família reage depois é horrível, é um livro mas que causa mil e uma coisas na gente!
    obs: fiquei nervosa sim ou claro com o bichinho na foto? hahahaha
    =*

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