Grande Irmão, de Lionel Shriver

Adoro encontrar escritores contemporâneos que escrevam de forma envolvente, porém sem apelar a clichês. Sabe um livro inteligente, mas que você não precisa de PhD para entender? Ouvi falar sobre Lionel Shriver e seu “Precisamos falar sobre Kevin” pela primeira vez no programa Freud Explica e anotei na minha listinha, pois me interesso muito pelos problemas da mente e a abordagem dela parecia ser bem instigante.

Ainda não li esse livro, mas quando vi “Grande Irmão” a R$ 9,90 nas Lojas Americanas, como contei aqui, achei que seria uma ótima oportunidade para conhecer melhor a escritora e não estava enganada, Lionel é o tipo de autora perspicaz cuja escrita não te faz sentir enganado nem subestimado.

Ainda bem que este não é um trabalho acadêmico, ou eu teria de procurar palavras para descrever como o estilo dela é “direto e reto”! Rs Ela escancara as reflexões ao leitor, tornando a leitura mais fluida do que a de um clássico, certamente, mas isso é feito de forma até mesmo seca, sem qualquer condescendência com os personagens, que são vulneráveis e distantes dos ideais de perfeição. Mesmo as qualidades, como a modéstia e a prudência, são contestadas, o que torna tudo mais interessante.

A leitura em si é descomplicada, porém, por vezes, o raciocínio é mais profundo do que aparenta ser, há muitas passagens de pura observação dos relacionamentos humanos, amorosos e familiares, ou seja… amei!

Geralmente, tenho uma preguicinha de explicar a narrativa, gosto mais de falar sobre como o livro me fez sentir, mas como “Grande Irmão” é menos conhecido, vamos lá!

…Esta é uma história sobre culpa, família, saciedade e… comida.

Pandora cresceu no meio oeste americano, como uma garota muito comum em um lar incomum: seu pai era um astro da TV com seu próprio seriado de sucesso e o irmão mais velho e venerado, Edison, um prodígio do piano, popular atleta na escola e um espírito livre que parte para Nova York em busca de seus sonhos aos 18 anos.

Já na casa dos quarenta anos, nossa narradora estabelece-se como uma bem-sucedida empreendedora, “quase sem querer”, ao ver seus bonecos falantes personalizados tornarem-se febre nos Estados Unidos. Seu marido, Fletcher, cria móveis a partir de madeiras nobres no porão da casa da família e é extremamente metódico e rígido, sobretudo quanto à alimentação. Os dois filhos adolescentes dele tornam-se filhos de Pandora também e os quatro vivem tranquilos no Iowa, até receberem uma ligação totalmente inesperada…

Grande irmão Lionel Shriver Capa

Ao telefone, um amigo de Edison busca Pandora para dizer que o irmão dela não conseguia se manter em Nova York e mesmo a ajuda dos amigos não era mais suficiente: ele não tinha para onde ir. Pandora manda passagens, prometendo acolhê-lo por dois meses, o tempo necessário para que ele partisse em outra turnê e tivesse um pequeno alívio financeiro.

O cenário já era impremeditado para Pandora, pois o irmão havia tocado com nomes famosos do jazz e, quando conversavam, sempre eram citados shows mágicos por todo o mundo. A decadência do irmão a intriga, porém, o “tamanho” da situação apenas se delineia de fato quando ela não o reconhece no aeroporto: Edison havia engordado mais de 100 kg desde o último encontro.

Chocada e despreparada para as situações subsequentes, Pandora tenta conciliar os ânimos exaltados de seu marido e de seu irmão, de personalidades conflitantes, opostas entre gula x austeridade, ousadia x inflexibilidade, insensatez x rigidez excessiva.

Em meio a tal zona de guerra, Pandora chega à conclusão de que só ela poderia “salvar” o irmão dele mesmo e, como o marido, Fletcher, opõe-se vigorosamente à permanência de Edison na casa da família, ela decide mudar-se com o irmão para um apartamento onde começariam uma maratona de emagrecimento até que ele perdesse os 100 kg extras.

grande irmão lionel shriver miolo

O desenrolar dos acontecimentos é surpreendente, assim como o desfecho. Lionel Shriver é uma autora que encara o medo comum de falar sobre assuntos polêmicos e tabus do politicamente correto. Obesidade é um tema complicado porque envolve tocar feridas e ser inconveniente, porém a complacência também não parece ser a saída ideal quando se trata de um problema de saúde pública.

Encontrar o equilíbrio ao falar sobre esse assunto sem ser desagradável ou “gordofóbico” é muito difícil. Deveria caber a cada um pensar seu relacionamento com a comida, independentemente do IMC. O que vemos no livro é um caso de uma pessoa que sim, comia bastante, não alguém simplesmente grande ou que tivesse problemas de saúde que a impedissem de emagrecer, pelo contrário, a doença era a própria comida.

Para Edison, comer talvez fosse uma forma de preenchimento ou pura autossabotagem. Lionel trata desse assunto de forma direta e sem se importar com o politicamente correto, no entanto, ela está mais para aquela amiga que fala as coisas de uma maneira com a qual você não se ressente, sabe? Ela se importa e quer o bem, não apenas se intrometer. Ela quer passar um recado.

Sabendo um pouco da história dela, isso fica mais evidente: a autora teve um irmão que morreu devido a complicações da obesidade. “Grande Irmão” parece uma espécie de tentativa de aliviar a culpa por não ter feito nada para ajudá-lo, mas também uma declaração de que é preciso lutar contra nossas ansiedades, derrotas, medos, desilusões. Mesmo que seja difícil ouvir isso, mesmo que ninguém tenha o direito de julgar isso, mesmo que talvez uma pessoa simplesmente não possa ser diferente do que é e apenas ela mesma possa avaliar essas questões. Refletir é sempre bom.

grande irmão frase fome lionel shriver
“fomos feitos para sentir fome”

Apesar de a questão do peso/emagrecimento me tocar de perto, minha grande reflexão do livro surge sobre como as pessoas encaram a vida e o sucesso. Isso tem tudo a ver com meu post de domingo e com vários pensamentos que tenho tentado pôr em ordem.

Hoje eu estava no supermercado e tocou a música Woman, do John Lennon. Linda demais:

And woman, I will try to express,
My inner feelings and thankfulness,
For showing me the meaning of success

E, mulher, eu vou tentar expressar
Meus sentimentos profundos e gratidão
por ter me mostrado o significado de “sucesso”

John Lennon foi um Beatle, uma das pessoas mais famosas e celebradas do mundo, mas apenas entendeu o significado de “sucesso” com algo que a Yoko lhe ensinou. Esse amor era mesmo muito poderoso. Cheguei em casa, coloquei Woman no Youtube, e a reprodução automárica me levou a (Just Like) Starting Over.

But when I see you darling
It’s like we both are falling in love again
It’ll be just like starting over
Starting over

Mas quando te vejo, querida
É como se nos apaixonássemos novamente
Será exatamente como um recomeço
Recomeço

Não gostaria de estar errada, pois levei um tempão pensando e escrevendo isso… rs Mas talvez esse sentimento de frescor, de estar disposto a recomeçar, no caso dele, especificamente, com a mesma pessoa, seja o sentimento do sucesso. Acho que isso tem a ver com o que move alguém, e o livro trata bastante desse tema, mas de forma subjacente.

Para o pai de Pandora, o sucesso era o seriado. Após inúmeras temporadas, o cancelamento do programa o tornou uma pessoa ressentida, que não encontrava alegria verdadeira em outros meios e nem força para se reinventar. Para Edison, ser aclamado como um pianista de sucesso era tudo e, quando perdeu isso, o vazio foi tão grande e maior que si mesmo, que preenchê-lo era impossível, uma carência insaciável.

Pandora, a pessoa “normal”, sem nada de extraordinário, é quem recomeça todas as vezes. Ela teve sucesso como banqueteira e mudou de ramo. São frequentes na narrativa os momentos em que ela desconfia que sua empresa de bonecos poderia vir a se tornar desinteressante a ela mesma e aos outros. Ela percebe que atingiu o “sucesso”, mas que, ao cruzar a linha de chegada, a graça já não era mais a mesma.

Não quero dizer que o livro seja uma ode às pessoas medianas, mas ancorar-se no sucesso pontual ou em um único aspecto da vida para ser feliz é ilusório, pois logo mais vem o “what’s next?” e aí sair do êxito à falha total pode ser devastador. Que tal dispersar a “felicidade” em pequenas gotas aqui e ali, em vez de buscar o reservatório de 200 litros? Não depositar todas suas fichas em ser isso ou aquilo, conseguir tal feito e desprezar todos os outros minutos da vida.

Talvez o caminho seja procurar motivos para recomeçar cada dia de forma menos pesada, com mais “frescor”, sem que a vitória final ou a aprovação alheia sejam o ápice da trajetória. Pandora chega à conclusão que “nascemos para sentir fome”. Quem sabe a busca de nossa vida, em vez de ser saciar nossa fome, deva ser gerar “novas fomes”. O famoso “Stay hungry. Stay foolish”, do Steve Jobs. Não esperar que todos o adorem por você ser simplesmente demais.O melhor pianista que deixa a plateia no meio da apresentação e ninguém mais confia que fará um show até o final. O mais adorado ator de um seriado que acabou há uns vinte anos e ninguém mais vê. 

É comum a gente se sentir assim: infeliz porque ainda não conseguiu aquela “uma coisa”. E isso tudo não quer dizer que devemos nos poupar de aspirações, mas podemos aprender, pelo menos pelo exemplo, que grandes realizações são superestimadas, a ponto de nada mais importar ou fecharmos os olhos para o que há de bom. Talvez esse vazio possa ser preenchido por milhares de coisas pequenas. Tenho tentado me ensinar isso.

Sei que essa reflexão pode cair no balde “felicidade elitista” de alguns, mas acho que talvez esse seja o exato problema que nosso mundo impõe às camadas mais pobres: a falta de autoestima para se enxergar como merecedor de algo melhor. Há os extremamente infelizes por não serem os bonzões que mereciam ser e há também os que vivem a ilusão de felicidade do fim de semana sem sair do ciclo do carnê. Seria tão bom se conseguíssemos sermos felizes com o que temos, sim, aproveitando a jornada, mas almejando novos aprendizados. “Sentindo fome”. Pena que, para muitos, “aprender” não esteja no rol de elementos da felicidade e, bom, esse é um outro grande problema.

Já falei de tantos assuntos neste post, que deve estar suficiente, né? Rs Leiam o livro, pessoal, acho que vocês vão gostar. “Food for thought”. 😉

grande irmão contracapa lionel shriver

Obs. Estou lendo “A Insustentável Leveza do Ser” e é simplesmente o MELHOR começo de livro que já li!

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31 comentários em “Grande Irmão, de Lionel Shriver

  1. Que coincidência, Val! Ontem eu assisti, mais um vez, o filme “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, do qual gosto muito. Por causa deste filme eu li o livro – sensacional! – e por causa do livro assisti novamente ao filme e por aí vai. Impressionante como uma mesma história foi contada tão fantasticamente em duas obras distintas e complementares. Tornei-me um fã da Lionel Shriver e da diretora Lynne Ramsay. Vou tratar de ler o livro que você comentou aqui.

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    1. Que legal saber que os dois são bons! Eu adoro esses assuntos. Peguei emprestado Precisamos falar sobre Kevin e gostaria de ver o filme depois, pelo jeito vai valer muito a pena!
      Obrigada! 🙂

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  2. Que legal! Eu já li dois livros dessa autora, o “Precisamos falar sobre Kevin” e um chamado “Tempo é dinheiro” e gostei muito justamente dessa característica que você fala, sobre ela ter um estilo direto e reto. Ela sempre trata de assuntos polêmicos e faz isso muito bem. Fiquei curiosa para ler “Grande Irmão”, vou colocar na minha lista.

    🙂

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  3. Val, sempre que leio os seus posts fico com uma curiosidade e hoje vou perguntar: Quando tempo após a leitura você faz os seus posts? Parece até que consigo imaginar você refletindo muito tempo sobre o livro… Os seus posts são uma delícia de ler, tenho sentido falta de ler livros que me façam refletir dessa forma.
    Um beijo!

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    1. Oi, Bárbara!! Muito obrigada pelo comentário! Sobre a sua dúvida, é engraçado, né… antes da faculdade de Letras eu acho que viajava menos na maionese… hehe Agora tudo eu meio que já fico tentando ver a simbologia, mesmo que não seja nada. rs Eu não demoro muito a escrever sobre os livros porque tenho um probleminha: eu me esqueço das histórias! heheeh Sério mesmo… Dos livros que mais gostei de ler, com certeza me lembro como me fizeram sentir, mas o enredo em si parece que vai se apagando na minha mente. E estou falando de livros que li duas vezes e analisei no tcc, como Memorial do Convento, ou Crime e Castigo que amei demais. Tenho até vergonha pq se alguém me perguntar da história, vou titubear e vai parecer q nem li direito ou inventei! Rs Filmes então… sério. Posso ter visto 300 vezes q não vou me lembrar com mta clareza. Então na vdd não posso demorar mto! É que leio e aí fico pensando no livro, e na hora de escrever mtas outras reflexões vêm e tb sempre acabo associando a outros livros, músicas, então o pensamento vai tomando forma, sabe? Acho tb q eu sempre me entrego às leituras, já penso mto nas minhas experiências pessoais. Esse post, p. ex., rescrevi várias vezes, pq eu ficava pensando na minha relação com a comida e pq não paro de comer. Bom, falei um monte e não sei se era exatamente o que você perguntou, mas acho q é isso! Bjs!

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      1. Respondeu exatamente o que eu perguntei e até antecipou a resposta de algo que eu tinha curiosidade de saber: sobre o seu TCC! Tenho pensado muito em o que fazer no TCC, já tive uma ideia mas ainda não sei se é viável, enfim… Amo ler seus posts, não digo que você consegue passar tudo o que sentiu pois é algo muito pessoal, mas ao menos uma parte você consegue! Um beijo ♥

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      2. O meu TCC veio da ideia de uma professora. Ainda vou falar sobre ele aqui, mas analisei como os primeiros capítulos de duas obras do Saramago funcionam como “contratos entre escritor e leitor” (isso é uma ideia do Amós Oz”. Adorei fazer o TCC. A única coisa é que eu poderia desde o começo ter escrito tudo e com todas as referências segundo a ABNT, pq essa é a parte mais chata… hehe

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  4. Adorei o post Val!!! A narrativa sobre o livro, como você se sentiu sobre ele, e as partes finais, sobre a tal busca de sucesso em que muitas vezes negligenciamos todo o resto! De fato, a vida é muito mais para focarmos em apenas um ponto!
    bjão

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  5. Eu AMO a Shriver! Disse neste mesmo final de semana para meu namorado (que acabou de ler Precisamos falar sobre o Kevin no sábado e achou pesadíssimo) que se eu encontrar essa mulher na rua, vou querer abraçá-la apertado e bater nela depois! Hahaha Ela é simplesmente genial, mas seus livros acabam com a gente. Com certeza, é minha autora preferida da atualidade. Li quatro obras dela, mas Grande Irmão ainda está na minha TBR list! Haha Adorei a resenha!

    Beijo e boa semana,
    Brenda

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    1. Estou lendo We need to talk about Kevin, em inglês. É um desafio! Estou gostando, em breve falo dele aqui 🙂 Ela é uma escritora muito inteligente e descreve as coisas de forma tão intrigante, você pensa: como tudo isso saiu da cabeça dela? hehe
      Bjos, Brenda!!!

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      1. Exatamente!!! Como é que essa mulher consegue pensar, escrever tudo isso maravilhosamente e fazer sentido??? Eu vou ler o novo dela em inglês e também já vi que será um desafio!

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  6. Olá, Val!

    Não conheço muito sobre a Lionel, mas assisti “Precisamos falar sobre Kevin” e fiquei curiosa para ler. Sobre a resenha, que interessante essa pespectiva que ela dá para a obesidade, não lembro de nenhum livro que aborde o assunto dessa forma. Coloquei “Grande irmão” na minha lista também 🙂

    Beijos!!

    buscandoofoco.com.br

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