Cinco músicas para gostar do Bob Dylan

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Hoje finalmente saiu o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e o resultado foi surpreendente: Bob Dylan. Ele tornou-se a única pessoa a receber os prêmios Nobel, Pulitzer, Oscar, Grammy e Globo de Ouro. Comecei a pesquisar se havia livros dele que eu não conhecia, lembrando do post sobre o Leonard Cohen, que tem um vasto trabalho com poesia. No entanto, parece que o prêmio vem do reconhecimento pelas letras das canções mesmo, como mencionou a secretária da Academia Sueca Sara Danius, ao explicar a motivação do prêmio: “por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana” (fonte).

Gostei bastante da matéria do G1, que traz os discos e os livros publicados por Dylan, assim como os títulos traduzidos para o português: “Tarântula”, publicado em 1986 pela editora Brasiliense; “Crônicas – Vol.1”, publicado em 2005 pela Planeta; “Forever young”, publicado em 2009 pela Martins Fontes; e “O homem deu nome a todos os bichos”, publicado em 2012 pela Nossa Cultura. (fonte).

É um tema bem polêmico porque, por um lado, talvez devessem ser privilegiados aqueles que têm uma obra puramente literária, e são muitos. Por outro, as letras do Bob Dylan têm um conteúdo único de expressão poética e social. Sara também mencionou algo interessante comparando-o a poetas gregos: “Eles escreveram textos poéticos que foram feitos para serem ouvidos, declamados, muitas vezes com instrumentos [musicais], do mesmo jeito que Bob Dylan. Nós ainda lemos Homero e Safo, e nós apreciamos”. (fonte).

Aprendi a gostar de Bob Dylan com minha amiga Camila e acredito que para muitas pessoas seja mesmo uma questão de “aprendizado”, porque a voz dele pode não ser tão convidativa, a princípio. Já falei aqui no blog sobre romper a barreira do “costume” para apreciar diferentes belezas, e a obra do Bob Dylan é tão vasta e diversa, que é bem possível que a gente ame várias canções sem ligá-las ao autor. Um exemplo é a cover de “Make you feel my love”, cantada pela Adele, composta por Dylan.

É difícil fazer uma lista dessas, a da Rolling Stone, por exemplo, não tem nada em comum com a minha… Ficam de fora clássicos como Times they are a changin, Knocking on heaven’s door, Mr. Tambourine Man, entre outras. Tenho várias listas de cinco músicas em rascunho, como a do Tom Waits, a qual inclusive me fez criar esta seção, porém nunca publiquei. Esta aqui tem um significado especial, pois a criei em um dia em que a Camila estava super mal e fiquei pensando muito nela, então vieram essas músicas que ela me apresentou e que amei, é uma homenagem a ela também.

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Vamos lá?
  1. Boots of Spanish Leather

Oh, how can, how can you ask me again?
It only brings me sorrow
The same thing I want today
I would want again tomorrow

Acho que essa é uma das músicas que mais traduz o que a Sara falou sobre expressão poética. Na letra, há um casal prestes a se despedir, um deles irá velejar e então haverá um oceano de distância entre os dois. O velejador pergunta à amada o que ela gostaria que ele lhe trouxesse, ouro, prata, qualquer bem precioso e único. Ela lhe responde que não adiantaria ter as estrelas ou diamantes, porque a presença dele tinha maior valor. Ele insiste em querer trazer um presente e já na viagem escreve a ela contando que não sabia quando iria voltar, pois dependeria de como ele estivesse se sentindo… Ela então sabe que os sentimentos deles são diferentes, que o coração dele está mais distante do que o próprio corpo, e, se tudo que ela pode pedir é um presente, pede então botas de couro espanhol.

Lindo demais, profundo. Isso me lembrou sobre o que a Jennifer Garner falou sobre a separação dela: “Quando o sol dele brilha em você, é possível sentir isso. Mas quando o sol está brilhando em outro lugar, fica frio. E ele pode trazer uma sombra enorme.” Quando se ama alguém, é triste, porém necessário saber se o sol dele brilha em sua direção ou não, e então deixar que essa pessoa busque sua luz.

2. Hurricaine

Now all the criminals in their coats and their ties
Are free to drink martinis and watch the sun rise
While Rubin sits like Buddha in a ten-foot cell
An innocent man in a living hell
That’s the story of the Hurricane
But it won’t be over till they clear his name
And give him back the time he’s done
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world

Essa música foi coescrita com Jacques Levy, e a inspiração surgiu após Bob Dylan ler a autobiografia do pugilista Rubin “Hurricane” Carter, a qual descreve a prisão indevida dele e de John Artis por triplo hoicídio. A acusação foi motivada por racismo e houve diversas controvérsias no julgamento. (fonte)

A letra é super detalhada e você fica pensando em como eles conseguiram encaixar tudo isso em uma melodia! A chamada a um contexto social e a uma mudança necessária de paradigmas torna a obra dele muito especial e transformadora, em qualquer época.

3. Blowin’ in the wind

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, and how many times must the cannon balls fly
Before they’re forever banned?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

Para mim, é uma das músicas mais bonitas já escritas e uma mensagem fundamental: um ser humano não precisa fazer nada para ser. Não precisa haver mais de um sofrimento, mais de uma guerra, mais de uma morte. Está tudo ao nosso redor, se não enxergamos é porque fechamos os olhos. Ouvindo agora, essa música me lembrou muito O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe, as duas obras falam sobre essa “humanização”, um sentimento de que todos somos iguais, mesmo com tantas diferenças.

4. Like a rolling stone

 

How does it feel, how does it feel?
To be on your own, with no direction home
A complete unknown, like a rolling stone

Esta música simplesmente foi eleita a melhor de todos os tempos pela revista Rolling Stone (bom, dava para imaginar, né?) e o próprio Bob Dylan a reconhece como a melhor música que escreveu. Revolucionou uma época ao romper com tudo e, no pós-guerra, escancarar um cenário em que não há direção certa a seguir. Robert Shelton resumiu seu significado: “‘Rolling Stone’ é sobre a perda da inocência e a dureza da experiência. Mitos, adereços e crenças antigas caem para revelar uma realidade muito desgastante.” Como não se identificar, né?

5. Forever Young

May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

Esta música virou um livro ilustrado por Paul Rogers e é a coisa mais linda, como é possível ver no Brain Pickings. Bob escreveu para seu filho Jacob, mas pode ser nosso desejo para todas as crianças. É bonito pensar que há, sim, uma direção… e é ser correto, verdadeiro, atento à verdade e às luzes ao nosso redor. É ser corajoso , forte e sempre ter um espírito jovem, com alegria, amor às descobertas, acolhimento das transformações e, assim, construir uma escada até as estrelas. Acho que é minha preferida. 🙂

E vocês? Alguma importante ficou de fora? Qual sua música preferida do Bob Dylan?

Beijos e até mais!

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31 comentários sobre “Cinco músicas para gostar do Bob Dylan

    1. Rs!! Eu pensei em falar algo, mas não queria jogar algo negativo no prêmio, só que realmente facilita ter língua inglesa como nativa, né? É um idioma com o qual qualquer pessoa pode se identificar, já em português deve ser mais difícil passar a ideia exata nas traduções.
      Obrigada, Paulo!!

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    1. Oi! As músicas que indiquei aqui são especiais para mim. Já sobre o Nobel, ainda tenho sentimentos controversos, porque há muitos outros autores que mereceriam e dedicam-se exclusivamente à literatura. Milan Kundera não ter um Nobel é bem estranho, por ex. Estou para escrever sobre A Insustentável Leveza do Ser, mas são muitos assuntos, estou tentando me organizar e deixar claro, de alguma forma, que é um livro que precisaria de mais análise e reflexão. Philip Roth era uma grande aposta, e agora ficou difícil por um americano já ter ganhado.
      Não sei se está tão na moda, eu mesma conheço poucas pessoas que gostam. Talvez seja “cool” dizer que gosta, mas eu enxergo muito sentimento nas músicas, uma profundidade atemporal, acredito. Obrigada pela visita e pelo comentário, senti falta das suas opiniões por aqui 🙂 Beijos!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Ando com a cabeça ocupada em aprender o holandês. O meu blog Tb anda um pouco parado.
    Estou lendo Mãe em o Filho de Mil homens. Estou a gostar imenso. Ele sabe brincar com a cultura portuguesa.
    Sem dúvida, o Kundera é injustiçado.
    Mais eu não espero grande coisa do Nobel nos últimos anos. O da Paz, nem falo.

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    1. Boa sorte nos estudos! Parece ser bem difícil :\ Que bom que está gostando do Filho de Mil Homens, depois volte aqui para comentarmos, vermos se temos as mesmas impressões! Sobre os prêmios, é complicado. Vários brasileiros que já se foram tb deveriam ter ganhado o prêmio, agora já foi… Bjos!!

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  2. Poxa, Valéria, por “coincidência”, li este post em um dia em que também estava mal, hoje, hehe… Como não dizer que amei? Ando boba e até chorei. ❤

    Adorei a lista, amo todas essas músicas, e veja que coisa: eu não conhecia a "Forever Young". A gente sempre aprende algo novo toda hora… As letras dessas músicas são mesmo algo ímpar.

    Eu fiquei muito contente por o prêmio Nobel ter sido dado ao Bob Dylan este ano. Eu ainda não sei se ele deve aceitá-lo, sabe. Tem muito bafo por trás desse prêmio. O Sartre, por exemplo, o rejeitou.

    Ah! A Suze Rotolo foi namorada do Bob Dylan no começo da carreira dele. Tem uma capa de disco dele, o The Freewheelin' Bob Dylan, bem icônica, onde eles estão caminhando juntos de braços dados em uma rua de Nova York.

    Vi que você mencionou Hurricane, né, maravilhosa. Essa música está em um disco chamado Desire, que acho que é meu favorito. Dá uma olhada em Mozambique, Black Diamond Bay e Joey. 😉

    Um beijão e amei esse post "para mim". Estava precisando. ❤

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    1. Poxa, Camis, espero que fique tudo bem logo. Obrigada por tudo. Você é alguém que enriquece a vida das pessoas que a conhecem, e talvez simplesmente por você ser assim como é. Admiro muito você, amo ser sua amiga. Tenho certeza de que isso tudo vai passar e você vai ter milhões de motivos para ser muito, muuuito feliz sempre!! Bjos 🙂

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  3. Bem legal, Val! Eu conheço o Dylan por causa do meu pai, que é roqueiro nato, mas não conheço a obra dele a fundo. Achei estranhíssima a decisão, com o tanto de escritores pelo mundo, mas entendo a justificativa.

    Beijo,
    Brenda

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    1. Legal, Brenda 🙂 Ficou uma coisa um pouco confusa msm, né? Há motivos para sim e para não… Mas tb acho q na maioria das vezes, eu, pelo menos, mal conheço os ganhadores, este ano temos o que comentar… hehe
      Bjos!!

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  4. Pingback: Resumo da semana

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