A Insustentável Leveza do Ser

Minha orientadora do TCC comentou em uma ocasião que a primeira vez em que havia lido “A Insustentável Leveza do Ser”, bem mais jovem, não sentiu tanto impacto, apenas anos depois, na segunda leitura, o “peso” do livro se manifestou. Guardei isso comigo e quando vi um exemplar na Biblioteca do Sesc Pompeia, achei que era a hora dessa leitura.

insustentavel leveza ser kundera

O nome do livro já chama muito a atenção. Seria “insustentável” porque não conseguimos continuar com essa leveza, ou a leveza se torna um peso que não pode ser carregado? Até mesmo o ser já me trouxe algumas dúvidas: seria o “ser” enquanto “ser vivo” ou “ser” de verbo, então a leveza de existir é que é intolerável/insuportável ou não se sustenta pelo tempo? Quanto ao ser, com certeza é verbo pelo título em inglês: “The Unbearable Lightness of Being”.

Confesso que é um livro para releituras. São muitos planos entremeados: questões diversas sobre relacionamentos, sonhos com um quê de psicanálise, muita filosofia, referências históricas da República Tcheca, além de uma boa dose de comentários do “narrador-autor”, remetendo constantemente ao fazer literário.

Convenhamos que ler duas vezes em seguida não mudaria muita coisa, é como quando um professor repete a explicação de um problema de forma igual e os alunos não conseguem entender duplamente. No entanto, achei que seria interessante assistir ao filme de Philip Kaufman, o que é quase como ver a leitura de outra pessoa, para pensar um pouco mais sobre os personagens, que são bem complexos.

Primeiro conhecemos Tomas, um promissor médico neurocirurgião, que mora em Praga, e, depois, Teresa, uma jovem mulher do interior. Um dia, Tomas é chamado a realizar uma cirurgia na cidade de Teresa e os dois acabam se vendo pela primeira vez quando ele vai ao restaurante em que ela trabalha. Eles marcam de se encontrar mais tarde, mas ela se atrasa e logo chega a hora da partida, então ele deixa um cartão com seu endereço, para caso um dia ela estivesse em Praga.

Tomas é um homem que gosta de encontros esporádicos com as mulheres, sem nem mesmo deixá-las dormir em sua casa, porém, um dia Tereza chega à porta dele, resfriada, sem outro lugar para ficar, e, quando Tomas percebe, está a seu lado e de mãos dadas enquanto ela dorme em sua cama.

Completando o quarteto principal, temos Sabina, uma artista plástica, grande amiga de Tomas e também sua amante. Posteriormente, Franz entra em sua vida, um professor universitário casado, com quem ela tem encontros em viagens pelo mundo.

Vou abordar quatro planos principais aqui: filosófico, histórico, literário e amoroso.

Filosófico

Esse é um livro a ser lido com o botão “viagem na maionese” ligado e o autor já deixa isso bem claro na primeira frase:

“O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa ideia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?”

O “eterno retorno” é um conceito não terminado por Nietzsche e o narrador enfatiza por muitas páginas que, para ele, a vida é esta, sem ensaio, um rascunho em si mesma, por isso ficam uns borrões, uns rabiscos mal apagados, e tudo o que fazemos é impresso em nossas páginas, por isso tudo tem uma importância muito grande.

Como explícito também, o peso e a leveza são temas constantes. Posso estar errada, mas acho que esse livro não tem ponto final para essas questões, tudo faz parte de uma grande reflexão. Há uma grande dose de existencialismo, de repensar o absurdo da vida, porém de um modo muito próximo da realidade, ao observarmos a vida dos personagens e o que a torna leve ou pesada.

Tomas e Sabina têm uma vida “desregrada”, enxergam-na com leveza. É difícil falar desses temas sem contar tudo do livro. Para Teresa, as traições de Tomas são um peso enorme, mas não acho que seja uma escolha dela sentir-se assim. Ela até mesmo tenta sentir essa leveza, mas não consegue.

A contribuição de Milan Kundera para a reflexão está no fato de que a leveza nos distancia da vida real:

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Penso na minha própria vida. Eu já tive uma existência bem leve, em que não precisava me envolver em nenhum problema e a sensação que percebo agora era que eu vivia no “Mundo de Valéria”, não no mundo real, no “Mundo de todos”. Depois de levar umas tombadas da vida, percebo que vivo muito mais próxima do que é a existência de todas as pessoas.

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Amoroso

Este é um livro sobre o amor e tipos de amor. O comportamento de Tomas me intriga muito. Os meus próprios valores me impedem de entender o que Milan Kundera quis dizer com as traições de Tomas. Parece que Tomas tinha apenas um “passatempo” com outras mulheres, que isso não interferia no amor dele por Teresa. Não sei se o autor quis dizer “veja como é bom ser assim”, mas não consigo abstrair isso dessa forma, talvez me falte esse desprendimento, mas acho difícil ver isso como ok.

Um dos pontos mais bonitos do livro é quando se descreve o amor dos animais e dos humanos, por meio de Karenin, a cadelinha de Tomas e Teresa. Karenin não tinha ciúme e os donos também a amavam de forma pura. O narrador diz algo muito sensível, que o amor de verdade acontece quando você ama alguém teoricamente abaixo de você, que não tem muito a oferecer. Esse é um amor verdadeiramente “leve”, pois só há bondade, vontade de ver o outro bem, não há sentimento de posse.

Lindo o amor de Karenin e seus donos. Seria bonito termos tamanha leveza de querer apenas a felicidade dos outros. Acho que com isso consigo lidar: seria maravilhoso não desejar a pessoa inteiramente para si… mas também seria bem legal ninguém trair ninguém, né?

Histórico

Esse foi um dos pontos mais surpreendentes para mim. Primeiro, eu achava que esse livro era bem mais antigo e, na verdade, Milan Kundera está alive and kicking, seu último livro é de 2014, “Festa da Insignificância“.

Aqui, detalha-se como foi a influência comunista da União Soviética na então Tchecoslovákia, dado que o livro ambienta-se durante a Primavera de Praga. Muitas pessoas perdem posições de prestígio e carreiras intelectuais, e tornam-se faxineiros e garçonetes por não apoiarem o regime comunista.

É um ponto muito importante porque entre o peso e a leveza, há questões sociais e fatos históricos que impedem ou moldam o ser, então a abordagem dessa questão já evidencia um fardo que nos aproxima da Terra, pois não é apenas o nosso eu, mas todo um contexto em que estamos inseridos.

Literário

A narração desse livro é a melhor parte, pois o narrador comenta tudo, conversa com o leitor durante essa viagem temporal, cultural e filosófica. E vemos também que não é um personagem distanciado, é o que o Saramago chama de “narrador-autor”:

Como já disse, os personagens não nascem de um corpo materno, como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta, ou sobre a qual nada ainda foi dito de essencial. Mas não se diz sempre que o autor só pode falar de si mesmo?

Considerações

É um livro muito especial. “Must-read”. Sobretudo devido à complexidade dos personagens e a possibilidade de vê-los como pessoas reais que amam e erram amando… Nada aqui é idealizado. Tentamos buscar a intenção do autor, claro, mas também a profundidade das pessoas e dos relacionamentos.

Como eu falei, é algo bem pessoal meu que não consigo ver traição como “forma de amar”… mas essa é uma oportunidade de enxergar as pessoas além do “erro”, sabe como é? Porque Tomas é muito mais do que isso. Se a natureza dele realmente era essa, o amor que ele tem por Teresa mostra-se muito maior do que o seria em outras circunstâncias. O próprio narrador diz que temos a tendência de ficar do lado “mais fraco” e não percebermos o quanto Tomas fez por Teresa.

Ela foi uma das minhas personagens preferidas. No filme, a força se perde, parece que ela é apenas um pouco bobinha. No livro, descreve-se muito a relação dela com a mãe, os pesadelos que a atormentam, assim como as motivações dela.

Tenho a sensação de que vou ler esse livro de novo e seria muito legal lê-lo com maior embasamento e direção, pois realmente é uma explosão de temas e de possibilidades de olhar para dentro e ao redor. Posso dizer que não li muitos livros que tivessem tamanha visão real da vida e das pessoas, que olhasse para as contradições de ser e de existir como este.

Estou ansiosa para saber se você já leu e o que acrescentaria à minha leitura 🙂

Beijos!

Obs. Encontrei uma versão em pdf, caso você queira se aventurar, clique aqui.
Obs 2. As imagens são do site FreePik e eu adicionei a parte escrita a elas.

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23 comentários em “A Insustentável Leveza do Ser

  1. Um livro incrível com uma crítica/resenha tão incrível quanto!

    Me identifico muito com suas palavras a respeito de A insustentável leveza do ser. É um livro tão complexo, com tantas abordagens, que fica difícil tentar abranger tudo.
    Acho que o que mais me marcou nele foi a proximidade do autor mesmo, e o fato dele nos dar explicações sobre as atitudes dos personagens. Como os sonhos de Teresa, por exemplo, que eram apenas reflexo de um trauma de infância somado ao peso das traições de Tomas. E, sobre essas traições, sendo mulher, elas realmente são impossíveis de serem entendidas. Acredito que o autor tenha tentado nos mostrar a diferença entre amor e paixão quando evidencia que Tomas dorme com várias mulheres, sente a necessidade de conhecê-las num nível íntimo, diferente do que está exposto para todos, mas que é só com Teresa que ele quer passar a vida. Ainda assim, ele tomou um caminho muito polêmico pra isso 😛

    Esse livro me marcou porque, mergulhando nas causas das atitudes dos personagens, passei a prestar mais atenção em mim e é justamente isso que faz um livro valer a pena: o fato dele conseguir nos melhorar.

    Como sempre, ótimo post, adorei ver sua opinião sobre um livro que gosto tanto.
    Beijo!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi, Manu!! Que legal seu comentário, obrigada, adorei!
      Realmente é impossível passar por esse livro sem refletir muito, como você disse, ele nos “marca”, mexe com algo lá dentro.
      Fico feliz que mais alguém não engoliu as traições… hehe Acho que a ideia era bem isso que você falou mesmo. Para não ficar algo machista, temos Sabina que tb tem esses desprendimentos. E que dó do Franz, né?
      Bjinhos e muito obrigada!!

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  2. Val, vou ser sincera que não li a resenha inteira… comecei mas decidi parar pois esse livro já tá na minha lista de próximas leituras e não quero ficar ainda mais ansiosa pra ler pq a faculdade tem tomado muito o meu tempo.
    Que editor é esse fofíssimo que você usa? ♥

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Bárbara!! Então depois volte aqui… rs Esse livro tb ficou na minha lista por muuuito tempo, mas foi só por eu não ter tido o contato mesmo, pois não é difícil de ler. Sobre o editor, senta que lá vem história… rs Acho q vc está falando das imagens, né? Então vamos passo a passo. Achei mto linda essa espécie de coroa de flores e borboletas, encontrei no site freepik.com, que aliás só tem coisa bonita. O problema é que eles usam imagens do tipo vetores, que não é qualquer programa que edita. Então tive que baixar tudo mas só usar a amostra JPG.Para colocar textos em imagens, o https://www.befunky.com/ já é bem legal, ele deixa vc usar as fontes que já tem no seu computador. Essa fonte chama-se Selima. Eu tive que dar uma apagada no meio da imagem e para isso usei o http://www.pixlr.com/editor, mas o befunky é melhor com fontes, pq no pixlr, as coisas saem cortadas. Tudo seria mais fácil se eu pudesse instalar o Gimp, que inclusive tem uma extensão para usar vetores. Bom, resumindo, se for só para colocar texto em imagens, é o befunky msm. rs Bjos!!! Ah, quando ler o livro, volte aqui 😉

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  3. Esse livro eu já separei da estante da minha mãe e carreguei para a minha para ler rs
    Mas ainda estou dando um tempinho para ele, gostei muito da resenha me deu mais vontade!
    bjos

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    1. Thamiris, é um livro profundo, porém fácil de ler, quase uma conversa. Ele já começa bem filosófico, então vc já embarca logo de cara. Como vc é uma pessoa bem sensível, acho q vai se identificar mto com as lutas dos personagens.
      Bjos e obrigada!!

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  4. Eu ainda não li esse livro, mas fiquei muito curiosa. Fiquei com a sensação que é o tipo de livro que tem que marcar uma data para reler. A cada dez anos, nas fases de mudanças, pra fazer uma autoanalise de como vai o nosso eu, expectativas e visão de mundo. Fiquei “viajando na maionese” ao ler sua resenha… rs… pensando no “eterno retorno” e cheguei ao comentário acima. Quando lemos livros como esse, que nos faz refletir, tiramos lições e, as vezes, tomamos decisões pautadas nessas novas crenças de leituras. Quantas dessas novas crenças e filosofias realmente tornamos reais? Quanto aprendemos de tudo aquilo que vivenciamos ou lemos? Aparentemente, muito pouco. E acabamos vivendo o “eterno retorno”, de ver o mesmo filme, de fazer e viver as mesmas coisas… sem ler eu já me “besuntei na maionese”… rs…

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    1. Uau, Michelle, quantas reflexões! Que legal. Acho que esse eterno retorno realmente existe com relação a coisas que precisamos aprender. Acho que até por uma ordem natural, talvez, mas se ainda não aprendemos algo, surgem oportunidades novamente em que esse aprendizado fará falta. Quando já passamos por isso e sobrepujamos a dificuldade, na próxima vez não será sentida. Mto obrigada, Michelle!! Bjos 🙂

      Curtido por 1 pessoa

  5. Um livro sensacional esse Val. Li duas vezes e pretendo uma terceira. 0.0 😀

    Gostei imenso da sua visão do livro, em especial no plano amoroso. Afinal Val, “seriam os amores como os impérios “? Bj

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    1. Cris, você sempre acrescenta 🙂 Tenho a impressão de que vou amar mais ainda esse livro se relê-lo. Obrigada pela sua leitura e pela citação. Bjs!!

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  6. “Esse é um livro a ser lido com o botão “viagem na maionese” ligado” uhauhauhah Val, ainda não li, mas pretendo logo logo 🙂 Numa dessas caminhadas pela cidade encontrei um livro dele falando “leve-me, leve-me”. Acho que era “A imortalidade”. Que um amigo falou que parece ser muito bom. Gosto muito do que escreves e acho massa quando você mostra suas sensações sobre o que o autor escreveu. Era como revelar pro leitor as reações químicas que ocorrem em você após ou durante o contato com o livro. \o/

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