114 anos de Carlos Drummond de Andrade

Já quis ter muitos talentos. Tentei tocar piano, pintar aquarela e a óleo também. Ainda quero escrever um livro, mas uma arte com a qual não me meto muito é a poesia. É tão único. Acho que a pessoa tem que ser poesia para transbordar seus versos.

… mas admirar poemas é outro departamento e é totalmente ensinável e aprendível. Eu não gostava deles antes de fazer Letras. Digamos que eu não entendia muito. Só os versos de amor me tocavam. Hoje eu sei que, para ler um poema, é preciso abrir muitas portas e gavetas escondidas do seu coração e da mente. Deixar o vento entrar e sair. Nesse movimento, vêm folhinhas, gravetos, poeiras de lembranças, aprendizados e sentimentos, com que você tece um ninho para acalentar as palavras, só seu.

Hoje, 31 de outubro, CDA (para os íntimos), o maior poeta brasileiro, faria 114 anos.

Por estatísticas e provas irrefutáveis, é o “mais presente” na minha vida. A impressão é que ele está sempre em algum lugar espreitando tudo. Engraçado pensar em quantas palavras que ele organizou em versos e estrofes disseram tanto sobre meus momentos, fases. Estava lá tudo anotado por ele.

É só sofrer de amor que aparece um Amar-amaro (porque amou por que amou). Para os amores impossíveis, ele está lá também. Para o amor que brota inexplicável, inenarrável, ele descobriu as palavras para chamar todas essas sem-razões.

Ele tem as palavras para a felicidade, mas em tempos de desesperança, de vazio e descrença, lá vem o itabirano e todo o peso do mundo.

Um poema de filhos para mães e outro dos pais para os filhos.

Caminhando com palavras da infância à velhice.

Nas eleições, ele aparece para dizer que precisamos descobrir o Brasil.

Quando for outro 31, o de dezembro, ele estará lá de novo com sua Receita de Ano Novo.

Até mesmo para temas não tão corriqueiros à poesia, ele surge, pela parte de trás.

Um poeta do tamanho do mundo inteiro, que conhece o caminho e suas pedras.

~ ~ ~

O nome do meu blog vem do poema “No meio do caminho”. Esse é um bom exemplo de um poema que pode ser só seu. Não precisa muito saber do que ele estava falando. Que pedra seria essa? Eu tropecei nas minhas ou as avistei de longe. Eu sei quais são as minhas pedras no caminho. Você também deve ter as suas.

No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

Esses versos dizem tanta coisa para mim. Sou vidrada. A repetição enfatiza justamente esse sentimento de quando há uma “pedra” que atravanca a sua vida, você fica estagnado ali.

Em 2008, o poema fez 80 anos e foi lançado este kit comemorativo com três livros e a sacolinha. Desculpe se eu deixar você com vontade, mas realmente não é mais vendida essa sacolinha maravilhosa com os desenhinhos feitos pelo próprio CDA. Agora você está com vontade de ir aos blogs que falam sobre as novidades do mercado e não sobre objetos do passado, né? Rs

Além do primeiro livro, “Alguma Poesia”, que contém “No meio do caminho”, há um livro de prosa, “Contos de Aprendiz”, esse pequeninho “Receita de Ano Novo”, que é um encanto, e a própria sacolinha com os desenhos, então em poucos itens, é possível conhecer muitas facetas do escritor.

carlos drummond de andrade

carlos drummond andrade sacola
Maravilhoso ou o quê?

carlos drummond andrade sacola

carlos drummond andrade caminho

Durante esta semana, vou falar mais sobre um poema em especial do CDA. Por enquanto, deixo vocês com dois artigos incríveis que li recentemente:

Além das discussões técnicas, as cartas trazem histórias divertidas, como a de um congresso literário no Rio, nos anos 70, que motivou uma vinda de Manolo ao Brasil. Antes de embarcar, ele pediu para o sogro lhe pagar a taxa de inscrição. Entretanto, no dia do colóquio, o nome de Manuel Graña Etcheverry não constava da lista. Embaraçado, ele explicou que sua inscrição havia sido paga por Carlos Drummond de Andrade. E assim acabou descobrindo que, ao receberem o cheque com a assinatura do poeta, os organizadores do evento pensaram num fim mais nobre para o autógrafo, emoldurando-o na parede. Fonte.

A fórmula, a equação, o modelo que a obra do poeta sugeria era este: estava diante de um fluxo contínuo no tempo e espaço e de um ator específico que representava uma peça de teatro em três atos:

1. Eu maior que o mundo (“Mundo mundo vasto mundo/ mais vasto é meu coração”, Poema de sete faces);

2. Eu menor que o mundo (“Não, meu coração não é maior que o mundo/ É muito menor”, Mundo grande);

3. Eu igual ao mundo (“O mundo é grande e pequeno”, Caso do vestido). Fonte.

Beijos e boas leituras!

carlos drummond de andrade

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