Alta Fidelidade, de Nick Hornby

Alta Fidelidade Nick Hornby Resenha
Leitura em ritmo natalino

Alta Fidelidade era um daqueles livros na minha eterna lista de desejos. Li bem rápido, nas minhas férias, indo de ônibus para cá e para lá, entre a R. 25 de Março e a Av. Paulista.

Um desafio para mim como leitora sempre foi encontrar livros que fossem a minha medida. Alguns estão acima do que eu consigo alcançar apenas lendo despretensiosamente, sem qualquer contexto. Lembram do Valter Hugo Mãe? A leitura não é difícil, mas desvendar aquelas epígrafes deu um trabalhinho, né?

Só que também a leitura perde muito o gosto quando percebo clichês demais, “estratégias” batidas de fisgar o leitor. É como em filmes de comédia quando alguém simplesmente sofre uma queda do nada e você se sente enganado por ter mesmo de rir daquilo – Chaplin é permitido ;). Ou como me senti lendo Fortaleza Digital, do Dan Brown. Ele se esforça tanto para narrar como a moça da polícia é a mais inteligente e também a mais bonita do mundo inteiro, que fica bem difícil acreditar em todo o resto.

Alta Fidelidade é meu tipo de livro, queria encontrar vários assim. É tudo imperfeito, os personagens não sabem o que estão fazendo, são todos autenticamente a cara de todo mundo que a gente conhece e de que gosta. Não sei vocês, mas as pessoas que mais amo estão nessa coisa de tentar se encontrar por si mesmas. Todo mundo já passou por vários trabalhos, vários cursos, possibilidades milhares e estão aí ainda se desvencilhando das pedras para encontrar o caminho.

Especialmente, fazendo tudo isso com o coração, pelo coração. Ninguém está passando por cima dos outros, cuidando da vida dos demais ou calculando se o quanto alguém chegou atrasado bateu com a compensação de horas. Alguns estão, sim, mas aí essas não são as nossas pessoas amadas nem na literatura nem na vida. Hehe

Alta Fidelidade Nick Hornby Resenha

Rob Flemming tem 35 anos nos anos 1990 e possui uma loja de discos. Acabou de ser deixado pela namorada, Laura, com quem vivia em um apartamento no subúrbio de Londres. Ele começa a listar seus piores términos de relacionamento e essa é apenas uma de suas várias listas: discos, músicas, filmes e cultura pop em geral são seu assunto preferido.

O fato de eu ter 32 anos e também não saber muito bem o que quero da vida colabora para que eu entenda muito do que o narrador em primeira pessoa tem a contar, assim como suas preocupações. Além disso, vivi a infância nos anos 1990 e esse é o período que provavelmente nos causa maior nostalgia, não é? Quando se fala em gravar fita k7, conversar com a secretária eletrônica e afins já vou chegando a um lugar familiar e gostoso de estar.

O Rob é aquele cara todo no próprio mundo: tem medo de se arriscar em algo novo, com a desculpa de querer continuar envolto pelos seus gostos e tudo que permanece igual já há tanto tempo. O autor ajuda a gente a perceber que ele tem bom coração, ao enfatizar algumas oportunidades que ele deixa passar por pura correção, e então qualquer erro que ele cometa é relevável devido à prerrogativa de que ele não sabe muito bem o que está fazendo.

E ele erra bastante. Mas erra meio loser, meio por ser um tanto desajeitado. E é assim que a gente vai gostando dele, torcendo e às vezes pensando “nããão, ele não fez isso!!” Ele é inseguro, encasquetado com tudo. Fica pensando no que dizer e fala outra coisa não planejada. Não tem o que falar na hora e depois arranja mil versões que teriam sido muito melhores do que a realidade que ele conseguiu produzir. Sendo mulher, é muito legal ver um homem retratado assim. E acho que para os homens deve ser refrescante ver esse protagonista nada heroico, e que tem coisas a aprender. Não é o mundo inteiro que precisa se render a ele.

Se as pessoas são imperfeitas, as conexões entre elas também são, e o amor é retratado em todas as suas ranhuras e remendos. Mais do que vemos nos intervalos expressos em músicas, filmes e livros, em que há ou a extrema felicidade passional ou o amargor da perda, o desafio das últimas gerações é viver o amor possível, é preencher esse intermédio com algo que façamos valer a pena.

O livro me lembrou muito do Like a Rolling Stone, do Bob Dylan, por retratar uma geração que não sabe para onde vai ou que está criando seus próprios cenários. Foi muito gostoso ler cada página, queria mais livros assim, que falem da vida, das pessoas e do amor de forma tão real e tão doce.

Alta Fidelidade Nick Hornby Resenha

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22 comentários em “Alta Fidelidade, de Nick Hornby

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  1. aue! Val voltou :)) acho sensacionais o que escreves sobre os livros 🙂 dia desses vi esse alta fidelidade na livraria 🙂 li por causa do filme com john cusack. depois assiste e vê o que achas: https://www.youtube.com/watch?v=Kg-9uxP52yM um livro que acho que gostarás e não sei se foi feito com uma certa grande influência do alta fidelidade é o “Clube dos corações solitários” do André Takeda 🙂 descobri esse autor quando tb descobri o filme alta fidelidade, o livro, tudo pelo site screamyell.com.br. Val, ótimo dia e tudo mais 🙂 é sempre massa quando escreves como escreves sobre os livros. é uma conversa sempre massa da intimidade vossa com o livro para a intimidade nossa 🙂 aue! o/

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    1. Oi, Jorge, que legal!! Obrigada por ter passado o link do filme, adorei!!! E também pela dica do outro livro, vou procurar. Muito obrigada mesmo pelo comentário, sempre tão gentil 🙂 Bjs!!

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  2. Oi Val! Sei que não tem muito a ver, mas existe um canal de música chamado Alta Fidelidade: https://www.youtube.com/channel/UCjbwfB_8hlg_GebxV46O_0A 🙂
    É um canal de certo modo nostálgico, e bem vida comum, feito por gente como a gente e da nossa geração. Dá uma olhada 🙂
    Quanto ao livro + filme, perfeitos!! Ta na wishlist os outros romances do Hornby; fico aguardando tua resenha dos próximos rs :))
    Bjssss e Feliz Fim de Ano pra gente ❤
    Rebeca

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    1. Oi, Rebeca!!
      Tudo bem?
      Estou vendo o canal q vc recomendou, o vídeo aqui está falando sobre um disco de blues dos Rolling Stones 🙂 Mto legal 🙂 Obrigada pela visita, fico feliz msm Sobre próximos romances dele, realmente queria mais!! Devo ler em breve “O Turista Acidental”, da Anne Tyles, já leu? Eu comprei pq na capa tem a indicação do Nick Hornby, dizendo q ele leria qq coisa escrita pela Anne. E tb pq tava 9,90. hehehe Bjs!!

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  3. Olá!
    Neste Natal o meu desejo é de que tudo de bom que você plantou durante o ano, reverta-se em forma de paz, saúde e felicidade.
    Que você e sua família possam sentir a paz verdadeira do Natal.
    Feliz Natal!
    Um abraço,
    Blog Organizzada

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  4. Li esse livro há um bom tempo. Na época me identifiquei muito com o Rob porque também eu, nos anos 90, era aficcionado por montar fitas com músicas especiais para amigos, namoradas, etc – os primórdios das playlists de hoje. Também achei muito bacana esse jeito imperfeito dele e como, apesar das lições aprendidas, ele continuou errando até o fim da história – uma pessoa de verdade. E o que dizer das infindáveis listas de cinco mais? Enfim, obrigado pela sessão de nostalgia, Val. Esperamos vê-la no Entre Contos. Um abraço!

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    1. Oi, Gustavo! Obrigada pelo comentário! Gostei muito do livro mesmo, e essa sensação de nostalgia é inevitável, né? Estou seguindo o Entre Contos, achei muito legal. 🤓 Bjs!

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