A Simples Beleza do Inesperado, de Marcelo Gleiser

Simples Beleza Inesperado Marcelo Gleiser

Hoje vim falar sobre um livro muito diferente das minhas leituras habituais, trata-se do mais recente título lançado por Marcelo Gleiser, professor de física, astronomia e filosofia natural na universidade norte-americana Dartmouth College. Talvez você já o tenha visto em entrevistas sobre ciência ou até mesmo lido a coluna dele na Folha. Há algum tempo, porém a certa distância, o vejo como um divulgador científico, por isso, ganhar o livro foi uma oportunidade de saber um pouco mais do que ele tem a dizer, e me surpreendi com muitas reflexões nessa experiência.

Beleza Inesperado Gleiser

Quando vi o tema abordado, já na hora o conectei a um dos meus preferidos de toda a vida, “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, por causa dessa analogia entre a pesca e a incessante busca que é a vida. Estou lendo eu a página 40 e qual livro o autor cita?

“Penso no Velho Santiago, o heroico pescador de O Velho e o Mar, emblema da pequenez do homem perante a Natureza, que manteve a sua dignidade até o fim, mesmo lutando contra forças além de seu controle.”
Beleza Inesperado Gleiser

O início do livro é muito instigante quanto a buscarmos aprender e saber mais, não desperdiçar oportunidades de mergulhar em um mundo de conhecimentos que já estão à nossa disposição e a partir daí descobrirmos novas perguntas que precisam ser feitas. Tudo o que ele fala sobre a ciência e o método científico dá a sensação de que essa leitura abre um pouco mais a nossa mente e para um lado diferente do habitual.

Nessa parte, citam-se duas frases famosas, uma das minhas preferidas:

“Não entramos nos mesmos rios. Pois as águas que fluem são sempre outras.” (Heráclito)

e outra bem simples, mas um bom lembrete para os momentos em que houver dificuldades ao início de alguma empreitada:

“Todos começos são obscuros” (Buda).

É muito diferente ler o livro de um professor de ciência exata. Se vocês são de humanas, devem ter percebido que os teóricos não fazem muita questão de se fazer entender, a gente tem que se debruçar sobre os textos e, quem sabe, desvendar o que está sendo dito… Já aqui, parece que ele realmente deseja nos fazer acompanhar seu pensamento e, para isso, explica muito bem assuntos complexos, chegando até mesmo a reiterar explicações em alguns pontos.

Beleza Inesperado Gleiser

Alguns dos assuntos abordados que mais me marcaram:

Pesca fly:

A pesca aparece como o mote da narrativa para muitas reflexões, porém, aos poucos, vamos percebendo que se trata muito mais da comunhão com a natureza do que o ato da pesca em si. O final é surpreendente quanto a isso e muito bonito.

 A ciência e o sentido da vida:

“O sentido da vida é viver em busca de sentido”.  O ato da busca é o que nos mantém “vivos”. Aprender, descobrir, conhecer e criar são fontes de felicidade. Quando pensamos que não há nada mais a explorar ou nos desanimamos perante o inesperado, o próprio sentido da vida se esvazia, e isso as humanidades sabem explicar bem. “Ânimo” vem do latim ANIMUS, que significa “alma, coragem, desejo, mente”, relacionado a ANIMA, “Ser vivo, espírito, coragem”, derivado do indo-europeu ANE, “assoprar, respirar”.

Ou seja, quando “desanimamos”, é porque perdemos a nossa “alma”, o próprio sopro de vida que temos em nós. Essa chama da busca precisa continuar acesa em nosso caminho. Perder a alma: jamais!

Ele conta como passou de jogador de vôlei sofrível a campeão estadual em sua categoria devido a muita dedicação e esforço, que geralmente acompanham aqueles que conseguem grandes feitos. Infelizmente, em nossa sociedade, o ato de estudar é associado a algo chato. Alguém muito perverso está tentando nos passar essa falácia goela abaixo, mas precisamos mostrar às futuras gerações, de algum modo, que aprender é uma das maiores alegrias que existem, pois é superar desafios e vencer o desconhecido. Deve haver algo que possamos fazer para melhorar a instrução básica das crianças no Brasil, é uma prioridade, pois, sem o elementar, privamos as pessoas da liberdade de compreender o mundo à sua volta e ir ainda além.

Enfrentar o novo, no entanto, não é um desafio apenas para os estudantes mais jovens. É muito interessante a forma como o Marcelo cita que mesmo as pessoas dedicadas à ciência retraem-se perante novidades e fatos até então desconhecidos, quando estes desafiam as crenças estabelecidas.

Agnosticismo e a beleza do inesperado:

Marcelo define-se como agnóstico, por não poder afirmar com certeza a existência ou inexistência de Deus. Ele atribui exatamente ao fato de a ciência não ter todas as explicações a beleza de sempre haver mais descobertas possíveis. Talvez vislumbrar fatos inexplicáveis sem supor a interferência de qualquer ser maior exerça maior fascínio justamente pelo desencadeamento de fatos espontâneos que geram pequenas (ou grandes) maravilhas do cotidiano e das eras, se soubermos apreciá-las. Mais de uma vez cita-se que somos feitos da mesma matéria das estrelas, e que isso nos torna unos com o planeta e tudo que nele há de uma maneira muito especial.

Vegetarianismo e comunhão com a natureza:

Muitos dos argumentos a favor do vegetarianismo eu já conhecia, como a crueldade com os animais e os desmatamentos. No livro, Marcelo chama a atenção a outro fator importante: os remédios usados na pecuária. A maior parte dos antibióticos produzida no mundo é dada aos animais para evitar proliferação de doenças, por isso toda a carne que comemos já vem repleta de drogas, o que está impulsionando a existência de bactérias resistentes a tudo conhecido. Ou seja, o que ouvimos sobre superbactérias não é apenas devido aos antibióticos que as pessoas tomam quando estão doentes e realmente precisam de remédio, mas pelo que a maioria de nós ingere todos os dias, muitas vezes, sem saber.

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Foram muitas reflexões ao longo da leitura. O principal ponto, para mim, foi a relação do homem com o planeta, em vários sentidos: de aproveitarmos o que temos na Terra, pois é extremamente raro sob todas circunstâncias; de tomarmos responsabilidade pelo que usamos e tomamos da natureza, que também é parte de nós; estarmos em contato com a nossa essência e não deixarmos de nos maravilhar com o “milagre” da vida e da existência, o que nos remete à pureza da criança que fomos um dia.

Esse livro me fez querer saber mais sobre física, o planeta, as ciências naturais. Hoje temos muitos recursos à disposição. No dia 31 de janeiro terá início o curso gratuito do Marcelo “Questione a Realidade!”, no edX, e com certeza será tão especial quanto o livro. 🙂

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24 comentários em “A Simples Beleza do Inesperado, de Marcelo Gleiser

    1. Que interessante. Não sabia que você era de exatas, acho que facilita o entendimento de muitas coisas que ele fala. Eu tive que prestar atenção redobrada em alguns pontos. 🙂 Obrigada pela visita 😉

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  1. Sensacional! 🙂 Lembro que ele escreveu também cartas a um jovem cientista, pela Elsevier 🙂 Mas não sei do que se trata porque não li :/ E lembrei também do livro que o Stephen Hawking escreveu, “O universo numa casca de noz”. Acho que tal como o livro do Gleiser, instigará a vontade de conhecer.

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    1. Que legal, Jorge! Não sabi das cartas a um jovem cientista. Sobre o Stephen Hawking, não li nenhum livro dele, só uma passada de olhos mesmo, tinha medo de ficar muito “bla bla bla wiskas sachê”, pq realmente não entendo naaada de física, preciso ver tudo bem do básico.. hehe Obrigada!

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      1. “bla bla bla wiskas sachê” AUHAHUAHUAUHHUAHUAHUA eu tb nao entendo nada de física 😦 opa! lembrei de um livro que uma amiga comentou uma vez comigo e gostou muito da linguagem. é o “SETE BREVES LIÇOES DE FISICA” de Carlo Rovelli. 🙂

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    1. Vi uma entrevista sua no programa do Jô (muito raramente assisto televisão ) e sua entrevista despertou minha atenção pq quase td q vc falou na entrevista (é claro ,suas respostas sempre além das perguntas …) são como eu penso ! Desde então me interesso pelo seu trabalho . Parabéns ,evoluindo sempre !
      Flavia Borges

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      1. Oi, Flávia, não sou o Marcelo, apenas fiz a resenha, mas ele com certeza ficaria muito feliz ao ver seu comentário 🙂 Bjs!

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    2. Oi, Marcelo! Muito obrigada pelo comentário, fiquei muito feliz e honrada por ter sido citada nas suas redes. Adorei o livro, é muito instigante, o que é uma ótima qualidade para um livro, não é? Espero aprender ainda mais sobre muitos dos pontos descritos ali.
      Viajei quanto à data, já arrumei 🙂 Obrigada!

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  2. Namastê! Gratidão pelo belissimo trabalho Marcelo! por nos inspirar e auxiliar-nos a manter esperança sobretudo em nós mesmos e na humanidade, quando saimos das caixinhas, não raro, também criadas por nós mesmos! Abraços de Curitiba!

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  3. Pingback: 1 Pedra no Caminho

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