1. O Triunfo ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

Que especial poder falar sobre “O Triunfo“, o primeiro conto publicado por Clarice Lispector. Fico imaginando como estava ela à época dessa estreia literária, três anos antes da edição de seu primeiro romance. Importante: estou seguindo a ordem do livro “Todos os Contos”, porém é possível ler o texto no link.

O conto inicia-se pelo meio da ordem cronológica dos fatos. Há uma mulher que começa a despertar. Algo aconteceu na noite anterior e sabemos que dali em diante mais deve ocorrer, inferimos que o próprio “triunfo”.

Ao ler o conto de uma escritora como Clarice, tudo é extremamente simbólico, esse “acordar” da personagem principal significa muito na narrativa, e principalmente como isso se desenrola. Esse conto é muito rico em imagens e já dá mostra da obra da escritora: ela não se atém a contar fatos e narrar propriamente casos interessantes, ela expõe os acontecimentos como se fossem telas cheias de símbolos. Se você não se preocupar em visualizar o conto na sua mente e refletir sobre os significados, vai parecer que você leu, leu e não aconteceu quase nada ou que houve somente passagens desconexas.

Sabemos que eram 9h00 da manhã, então não nos parece que tenha sido uma noite especialmente mal dormida. Aos poucos vem uma “luz” sobre a casa, o que já nos remete a “iluminação”, no sentido de aumento de percepção, lampejo, inspiração. O cenário está imóvel. A personagem está deitada na cama, “crucificada pela lassidão” (cansaço, esgotamento). Interessante notar que a posição da cruz alude à crucificação de Jesus Cristo e ao pagamento dos pecados. Será que ela está passando por uma remissão também?

garota espelho picasso

Garota em frente ao Espelho, Pablo Picasso, 1932 – Nesta obra, uma mulher se “descobre” em frente ao espelho, mas será que o que ela vê é real? Como ela se vê?

O dia entra aos poucos pelo quarto, e esse conto tão imagético continua a nos manter em silêncio absoluto, como “de morte”. Em meio a essas telas de luz e quietude, o despertar de Luísa nos ajuda a entender o que aconteceu na noite anterior. Houve uma briga entre o casal e Jorge, o companheiro, saiu de casa.

Nessa parte, começamos a ver as diferenças entre o que parece ser e o que é. Ele é descrito como “fino e superior”, porém vocifera e aponta, em descontrole. Sabemos então que essas explosões eram frequentes e havia sempre ameaças de partida, perante as quais Luísa também se descontrolava e afirmava que morreria caso se concretizassem.

Assim como ele, ela difere de seu exterior: sempre “digna”, “irônica”, “segura de si”, porém, em tais momentos, deixava despontar sua palidez e loucura. Ele continuamente decidia ficar e a felicidade invadia Luíza. Segundo a narradora, os motivos das brigas eram banais. Ela o teria interrompido. Ele, como escritor, dependia de seu fluxo de pensamento, mas ela o sufocava.

E agora ela estava ali, parada, “como se tivessem extraído de seu corpo toda a alma.” O dia passa e ele não volta. “Ele foi embora” é repetido diversas vezes. Sabe quando você tem muito medo de que algo aconteça, e quando esse fato finalmente ocorre, é difícil saber como agir? Ela revolve-se na cama, sem sono, meio inconsciente. O restante do cenário permanece parado, em silêncio, o quarto está em em trevas.

A mudança começa quando ela põe os olhos na marinha. A liquidez e a mobilidade desse novo “quadro”, a princípio apenas um detalhe na tela, que mal se enxerga, contrasta com a imobilização de seu quarto/espaço.

Ela tenta procurar Jorge, mas encontra uma espécie de confissão, em que ele cita sua própria “mediocridade”. Luísa chora até sentir-se “lassa” (esgotada). Quando a água começa a tomar um espaço maior dessa “tela” é que a personagem sai da passividade e quietude, para sentir o frescor, o “desafogo”: “Anima-se”.

Ela quase passa um batom, mas sente que não é mais necessário. A maquiagem geralmente é uma máscara, e ela não precisa mais de qualquer disfarce, pois está só. A sala está escura, e quem traz a luz é ela, assim como o novo ar. A casa enche-se de luz e ela então passa a perceber as coisas. Como Jorge não é mais a única visão para ela, Luísa enxerga que não dependia inteiramente dele.

Passa a fazer o trivial. Em uma situação como o momento após o abandono, o que menos queremos é fazer tarefas do dia a dia, não é? Mas lá vai ela lavar sua roupa: símbolo de renovação. O sangue pulsa em suas veias, a brisa toca sua pele e ela se sente viva como nunca. Toda essa representação da água como purificação e mudança atinge seu ápice, indo de um pequeno borrão, com a marinha, à abundância por todo o corpo de Luíza, quando ela decide tomar banho, e acaba por “rir-se de prazer”.

Da banheira avista o Sol. Vejam como a água e o Sol são símbolos muito importantes neste conto. O Sol traz a claridade e a iluminação, como revelação, mesmo. O próprio nome da personagem, “Luísa”, vem de “luz”. A água, por sua vez, purifica e leva embora o que há de velho para dar lugar à renovação.

Ela pensa no romance inacabado de Jorge e na sua confissão de mediocridade, enquanto sente-se cheia de vida e ri. Ela então sabe que é mais forte do que ele. É forte por que se emancipa, “desperta”, e, diante de seu maior medo, renasce, vence-o e Jorge, não. Ele não consegue suportar seu pior desafio, ela, sim. Será que ela o sufocava, ou ele, com suas ameaças de afastamento, que a deixava sem ação, imóvel, desamparada? E esgotada também, “lassa”, como Clarice escreve. Ele acabaria voltando para ela.

A epifania é algo corrente na obra de Clarice. Seria esse momento em que tudo parece igual, porém ocorre um instante de súbita revelação, algo simples, em outras ocasiões corriqueiro, que “ilumina” a vida do personagem e o faz descobrir algo em si mesmo. O Sol e a água sempre estiveram ali, mas de alguma forma contribuem naquele instante para que a personagem perceba tudo o mais que há à sua volta e enxergue sua própria estatura. Naquele momento ela não se vê mais como parte do “sexo frágil” e reconhece a sua força por sobrepujar seu pior pesadelo. Girlpower? Sim, por que não?

Foi muito gostoso ler e reler o conto e fazer algumas associações. A escrita de Clarice é assim, dá margem a diferentes interpretações, mas nunca nos deixa impassíveis. Adoraria saber a opinião de vocês sobre este conto!

O próximo conto, “Obsessão”, será analisado no dia 02 de fevereiro, quinta-feira. Caso você não tenha o livro “Todos os Contos” para ir acompanhando a leitura, recomendo o seguinte link, onde é possível baixar vários livros de Clarice. Obsessão é o terceiro conto do livro A Bela e A Fera, que se encontra disponível para download no link citado.

Obrigada, pessoal!

Clarice Lispector Todos Contos Análise Resenha Livro

Este post é parte do Projeto Clarice Lispector – Todos os Contos! Clique aqui para ver a introdução e o índice de leituras.

 

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11 comentários sobre “1. O Triunfo ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

  1. Demorei pra aparecer, mas segui sua sugestão de ler o conto em pdf – vou ver se faço o mesmo com o próximo pra seguir o esquema. Fiquei bastante impressionado com o primeiro conto dela, e concordo muito com as suas ideias. Tem a distância típica da Clarice, quase uma câmera filmando a cena, em partes, e depois toda a intimidade, quando ela disseca a mente da personagem. Tem muito de Perto do coração selvagem nesse conto. O marido “intelectual” inseguro, o abandono, a solidão – acho que constante na obra dela. Me pareceu mesmo uma grande introdução ao que viria ser a obra de Clarice, ainda sem a força que aos poucos ela foi ganhando – engraçado que a própria personagem parece que está aprendendo as coisas ainda, “triunfo” é meio que uma primeira pequena vitória na vida da personagem e, de certa forma, na da Clarice também. Em Coração selvagem, a personagem já é bem mais forte, se autodenomina cruel até. Li um conto do Sérgio Sant’anna, recentemente, em O Conto Zero, em que ele conta a vez que conheceu Clarice, ainda um escritor iniciante, encantando de falar com ela pessoalmente e completamente apaixonado, ele fala sobre como Clarice era conhecida como a bruxa da literatura brasileira, tendo ido, inclusive, pra uma convenção de bruxas, se bem me lembro, na Colômbia. A escrita dela é mesmo um feitiço.

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    1. Amei seu comentário! Muito obrigada! Vou ficar muito feliz se você continuar acompanhando, é muito enriquecedor ler textos em conjunto, ir vendo as opiniões 🙂 Também tive essa sensação de que a personagem passa por um “aprendizado” nesse conto, essa questão da “iluminação” mesmo. Estou ansiosa para os próximos contos 🙂

      Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: 1 Pedra no Caminho
  3. Oi Val,

    Primeiramente, parabéns pela iniciativa de falar sobre os contos de Clarice Lispector. A Clarice contista serve como uma ótima introdução para sua obra. Você trouxe excelentes impressões sobre esse conto e sobre a escrita da Clarice. Vou acompanhar seu projeto e, na medida do possível, buscar os contos que você traz por aqui.

    Abraço 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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