A Pérola, de John Steinbeck

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John Steinbeck foi um escritor norte-americano nascido em 1902, cujos livros mais famosos são “Ratos e Homens” (Of Mice and Men), adaptado diversas vezes para o cinema, e “As Vinhas da Ira” (The Grapes of Wrath), citado como a obra a impulsioná-lo a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura de 1962.

Encontrei “A Pérola” em uma lista de dez livros bons e curtos para ler em um domingo de manhã. A leitura é de fato rápida, porém muito intensa. Se você gosta de ler para espairecer ou ver o lado bom da vida, este livro não faz seu gênero. No entanto, se você, como eu, gosta de refletir sobre a condição humana e os caminhos da sociedade, então essas 44 páginas serão sua melhor companhia por algum tempo!

Trata-se de uma novela baseada em um conto popular mexicano, e o autor cita-a como uma parábola, antes de iniciar a narrativa:

“Contam na vila a história da grande pérola — encontrada e depois perdida. Falam de Kino, o pescador, de Juana, mulher dele, e do garoto Coyotito. E, tantas vezes foi contada esta história que se gravou na cabeça de todos. E como acontece com todas as histórias repetidas que ficam no coração dos homens, há coisas boas e más, coisas pretas e brancas, bens e males sem nada no meio.
Se esta história é uma parábola, talvez cada um possa tirar dela um sentido pessoal e ver nela a sua vida. De qualquer modo, contam na vila que…”

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Kino, o índio pescador, vive com sua esposa Juana e o filho Coyotito em um vilarejo extremamente pobre. O trabalho com a pesca assegura que tenham ao menos o que comer e, assim, levam uma vida com desafios, porém pacata, até que o bebê é picado por um escorpião. Juana, desde o princípio, é descrita como uma mulher sábia, perita no conhecimento de seu povo, e faz uso de toda a sabedoria de que dispõe para salvá-lo, porém, logo os dois decidem levar o menino ao médico, devido à gravidade do infortúnio.

O médico não se daria o trabalho de ir até o vilarejo, então eles partem em direção ao consultório, no lugar mais rico da cidade. Ao chegarem lá, o médico questiona-se e afirma:

— Será que eu não tenho mais nada o que fazer senão curar indiozinhos de picadas de insetos? Sou médico e não veterinário!

Desde o início, evidencia-se a frugalidade em meio à qual o povo vivia, porém só então começamos a perceber que os índios sequer eram vistos como pessoas, e inicia-se uma oposição entre ricos e pobres, homens brancos e indígenas, sabedoria empírica e conhecimento obtido nos livros. No vilarejo, comia-se apenas milho e talvez o peixe que se pecasse, já o médico é descrito como um homem “gordo e preguiçoso”, que comia toicinho, e então sabemos do lado de quem o narrador está:

Aquele médico não era da sua raça. Era de uma raça que havia quase quatrocentos anos batia, esfomeava, roubava e desprezava a raça de Kino, apavorando-o também de tal modo que era humildemente que o indígena chegava àquela porta.

Como Kino não tinha dinheiro para pagar a consulta, é enxotado dali, simples assim. Ele decide então lançar-se ao mar para, quem sabe, encontrar uma pérola que o ajudasse a salvar seu filho. Juana faz uma prece, e surge o milagre: ele não encontra uma pérola qualquer, mas a “pérola do mundo”, do tamanho de um ovo de gaivota.

O livro poderia terminar aí e trazer uma lição de fé, um final incrivelmente feliz para demonstrar que “quem espera sempre alcança”, mas não se resolvem problemas como esses, de “quatrocentos anos”, dessa forma, muito menos em um clássico, não é?

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É nesse ponto que a narrativa deslancha e vemos Kino sendo enganado, sofrendo tentativas de assalto e assassinato, duvidando de tudo o que sabia e perguntando a si mesmo se valia a pena sonhar com algo tão acima da sua realidade.

Há canções percorrendo todo o relato. Músicas da família, da perversidade, da morte. Vejo essas melodias como símbolo da sabedoria instintiva e passada pelas gerações. É como se eles soubessem tudo de que precisavam, mas fossem subjugados por homens que supostamente tinham mais instrução e conhecimento do que eles.

O tempo todo, Juana sabia que aquela pérola traria o mal para sua casa, mas Kino via naquele bem precioso uma oportunidade de dar o estudo dos brancos a seu filho. Ele queria que Coyotito soubesse as coisas que ele não sabia, que estudasse e não fosse mais enganado como ele e todo o restante de seu povo.

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É um livro que faz pensar muito sobre as complexidades humanas. Ganância é um tema presente, mas não com relação à família de pescadores, que desejava apenas que o filho fosse “melhor” do que os pais, que estivesse inserido em uma sociedade que julgavam superior à deles, após tantos anos de humilhação. Será então que não é possível sonhar? À parte os conflitos culturais, eles não podiam querer também saber ler, estudar, ter outras profissões?

Somos expostos a muitos questionamentos e, como o autor afirma ao início, em uma parábola, cabe a cada um de nós descobrir os significados para a nossa vida…

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O livro todo tem uma aura cinza, um quê de reminiscências, como se estivéssemos nos lembrando de algo que ninguém nunca deveria se esquecer. Fiz as montagens com isso em mente. As pérolas entremeadas pelo símbolo do luto. Uma mulher morena e simples em contraponto a uma mulher clara, ornamentada pelas mais diversas pérolas, nos faz perguntar se já vimos algum índio usando pérolas como adorno. A praia ao longe, um bebê que dorme tranquilo e a mão que busca algo que mudará sua vida para sempre.

Espero que tenham gostado e refletido um pouco com este post, para mim foi um livro muito triste, porém daqueles necessários. Adoraria saber a opinião de vocês, e se já leram e recomendam algum livro do Steinbeck. Li este na versão pdf, mas pelo que pesquisei, há versões físicas da Record e da Best Bolso.

Beijos e boas leituras!

Val

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7 comentários sobre “A Pérola, de John Steinbeck

  1. Oi Val.
    Tudo bem?
    Eu li “A perola” a alguns anos e nunca vi ninguém resenhando esse livro e quando vi a sua divulgação no Facebook vim correndo aqui.
    Esse livro realmente não é para passar o tempo.Um livro que mostra a ganancia humana e diferenças entre culturas.
    E ao mesmo tempo que é uma trama conplexa a narrativa do autor parece mais simples.
    Amei a sua critica.
    Desse autor eu li recentemente “Ao Deus desconhecido” ,porém gostei mais de “A perola”

    Beijos

    Meu mundinho quase perfeito

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Babi!! Muito obrigada por seu comentário 🙂
      Tive impressões muito parecidas com as suas! “Ganância” é uma palavra chave, realmente, e as diferenças entre as culturas ficam muito evidentes. Também achei isso sobre a narrativa do autor. Ele não é super direto, mas descreve tudo de forma bem linear, então é fácil acompanhar. Estou curiosa para ler outros livros dele, acho que talvez Homens e Ratos, mas dizem q é bem cruel tb 🙂
      Beijos, Babi, muito obrigada pelo comentário e pela visita 🙂

      Curtido por 1 pessoa

  2. Ola, Val! Muito boa sua resenha. Nunca li nada desse autor, mas pelo que vc escreveu, trata-se de um ótimo autor. 😉
    recantodamari29.wordpress.com

    Curtido por 1 pessoa

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