2. Obsessão ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

pintura vazio alma alexandra levasseur
hommage à odilon III, Alexandra Levasseur

Neste conto narrado em primeira pessoa, logo ao início sabemos que tudo já se passou, a personagem encontra-se em estado de resignação e pronta a contar sua história. Ela se esforça para garantir que não era uma pessoa romântica, mas aos poucos vemos que era de fato desprovida de emoções, faltava-lhe vivacidade; ao menor sinal de algum pensamento mais demorado, voltava a “caminhar entre a multidão dos de olhos fechados”.

É, no entanto, uma narrativa tensa, fiquei a todo momento esperando por uma tragédia de súbito, assim que algum acontecimento louco despertasse os personagens de toda a apatia. Seria mais ou menos como no filme Beleza Americana:

Ali, porém, nem mesmo essas explosões têm lugar. Demoramos a saber o nome da narradora, Cristina, tamanho o vazio que a preenche. Não havia cultivado seus próprios sonhos; casara-se com Jaime ainda muito nova, e via nesse relacionamento uma extensão da casa dos seus pais, sem derivar qualquer novo sentimento dessa experiência. Sua vida superficial a afastava dos demais e de seu próprio eu:

“Denso véu isolava-me do mundo e, sem o saber, um abismo distanciava-me de mim mesma.” (p.35)

Um dia, adoece, e aconselham seu marido a deixá-la em uma pousada em Belo Horizonte, para que se recuperasse. Ali, conhece Daniel, o contraponto, que passa a representar a ela o rompimento com os deveres e o descaso pelo estabelecido e ao que antes lhe disseram ter real importância: as “coisas da vida”.

Ela se deslumbra e sente que simultaneamente desperta como mulher e humana:

“E, sobretudo, pela primeira vez eu, até então profundamente adormecida, vislumbrava as ideias”. (p. 40)

Poderia ser um incrível despertar para Cristina, porém Daniel é extremamente cruel. Põe-se em uma posição superior de quem tem o que ensinar e que deveria “educá-la”. Fala-lhe sem pudor sobre a falta de inteligência dela, humilha-a e por diversas vezes ri de Cristina. No momento em que o conhecemos, prontamente se acende o sinal de “relacionamento abusivo”, “cilada”, mas nossa personagem estava muito encantada com suas descobertas para perceber tudo isso.

Ela o temia, mas o procurava. Não consegue discernir entre o quanto de sua busca era pelo homem e quanto pela vontade de sentir, humanizar-se. Quando deixa Jaime para morar com Daniel, acaba por reconhecer que não se tratava de amor, sim um “aviltamento”.

Um dia, demora a voltar e, ao chegar em casa, repara o desconforto de Daniel. Sente que havia se tornado necessária, ao contrário do que ele mostrava a todo instante. É então que percebe que era maior do que aquilo, que não precisava mais ser subjugada naquela relação.

“Como entender-me? Por que de início aquela cega integração? E, depois, a quase alegria da libertação? De que matéria sou feita onde se entrelaçam mas não se fundem os elementos e a base de  mil outras vidas? Sigo todos os caminhos e nenhum deles é ainda o meu. Fui moldada em tantas estátuas e não me imobilizei.” (p. 63)

Viver com o Daniel apagou grande parte do mistério nele que a fascinava. Ela vai embora. Jaime a aceita de volta. Que final enigmático, não?

Vejo perpassar o conto inteiro o tema de relacionamentos abusivos, porém acredito que a reflexão aqui seja mais ampla. Os homens com quem Cristina se relaciona também são vítimas de seu papel na sociedade, do que se espera deles. Jaime só queria “paz”, restabelecer o status quo, é verdade, porém não percebe o quão vazia é sua vida. Daniel, aparentemente, muito mais profundo e devotado ao saber viver e sentir, demonstra que não consegue aplicar o conhecimento à realidade, e sequer enxerga a si mesmo e suas emoções.

É um conto de impossibilidades, mas Cristina nunca mais seria a mesma. Ela reconhece que não sabe viver no molde que outros lhe fornecem, nem trilhar o caminho asfaltado. Pegar emprestado a forma de alguém, por mais deslumbrante que pareça, também não seria suficiente, uma hora o brilho se esgota.

Se pensarmos na época em que o conto foi escrito, a maior parte das mulheres devia sentir essa apatia pelo impedimento de sequer poder idealizar o próprio sonho. Hoje, vislumbramos mais opções, é verdade, mas ainda precisamos aprender com nossos passos.

Clarice Lispector Alexandra pintura Obsessão
Do quadro hommage à odilon, Alexandra Levasseur

~ ~ ~

O próximo conto, “O Delírio”, será analisado no dia 09 de fevereiro, quinta-feira. Caso você não tenha o livro “Todos os Contos” para ir acompanhando a leitura, recomendo o seguinte link, onde é possível baixar vários livros de Clarice. “O Delírio” é o quarto conto do livro A Bela e A Fera, que se encontra disponível para download no link citado.

Obrigada, pessoal!

Clarice Lispector Todos Contos Análise Resenha Livro

Este post é parte do Projeto Clarice Lispector – Todos os Contos! Clique aqui para ver a introdução e o índice de leituras.

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13 comentários em “2. Obsessão ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

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  1. Sua análise é maravilhosa, e ajuda os leitores iniciantes, amantes de Clarisse, a adentrar no mundo maravilhoso dessa fantástica autora! Alguns de seus contos apresentam metáforas mais complexas, como o dessa página, induzindo as pessoas a fazerem releituras e pesquisas a fim de entendê-los. Saiba que você é de grande valia para isso!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Lucas, muito obrigada pelo seu comentário! Fiquei muito contente ao saber sua opinião. Em 2018, pretendo dar continuidade a esse projeto e analisar mais contos. Muito obrigada!

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  2. Parabéns pelo projeto. Está sendo de suma importância para minha compreensão da obra produzida por Clarice, assim sendo também da mulher que fora. Espero que prossiga os demais contos.

    Atenciosamente,

    Isabele.

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