3. O Delírio ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

Na primeira vez em que li este conto, não entendi nada. Fiquei até preocupada com o que falaria; já pensou que engraçado eu chegar aqui: “olha, gente, não deu, vamos para o próximo”… rs Na segunda, meus olhos se abriram para algo incrivelmente genial, contudo, talvez, o que eu aqui escreva seja apenas fruto do meu próprio “delírio”. 😉

Leonid Pasternak throes creation
“Throes of Creation”, de Leonid Pasternak

Este é o primeiro conto de Clarice cujo personagem principal é um homem. Estamos acostumados a lidar com questões femininas na escrita da autora e, mesmo que estas se transportem para a humanidade, de maneira mais ampla, tudo geralmente se inicia na figura da mulher.

Neste conto, encontramos um homem que desperta e sente um contraste intenso entre o espaço exterior e o interior. Da janela vêm o sol e o movimento; dentro, tudo inerte, ele mal consegue se levantar e sente-se vazio, consegue perceber a água que bebe balançando dentro de si. Lá fora, tudo é confuso e ele se apequena diante do sol, mas em seu quarto, e de olhos fechados, “é rei”.

O despertar é algo recorrente na literatura de Clarice, mas aqui vemos um personagem que caminha para dentro de si mesmo, a luz o incomoda, e ele retorna aos seus “delírios”:

“A Terra continuamente exaurida murcha, murcha em dobras e rugas de carne morta. A alegria dos nascidos está no auge e o ar é puro som. E a Terra envelhece rápida… Novas cores emergem dos rasgões profundos. O globo gira agora lentamente, lentamente, cansado. Morrendo. Um pequeno ser de luz nasce ainda, como um suspiro. E a Terra se some.”

A Terra murcha retrata a sua própria compleição esgotando-se, quem sabe. Um chamado para o ciclo da vida, para que os nascidos cheguem. A roda da vida já prestes a parar, mas então ressurge a luz, outro símbolo usual na obra de Clarice. Qual é, afinal, a doença deste homem?

Percebemos que o “delírio” vai além do sonho, quando o personagem acorda aos poucos e confunde os cílios com aranhas, então grita para que o animal se retire, mesmo que fosse feito de ouro. Quando a cuidadora diz que já apagaria a luz que o incomodava, tem um instante de lucidez e sente-se humilhado ao perceber seu estado mental.

A moça não entende nada do que ele diz, mas muito de seu delírio refere-se a sentir a vida se esvaindo. Instalado em uma pensão, encontra uma personagem referida como “D. Marta”, que lhe apresenta sua afilhada. Os dois relacionam-se e ele mal sabia que já tinham se encontrado outras vezes.

É por esse momento que sabemos que o personagem é um escritor! D. Marta diz que o “doutor” não gostava que ele ficasse de luz acesa escrevendo até altas horas. Em meio à convalescença, altera momentos entre delírios e consciência:

“Continua porém inquieto, numa fadiga prévia pelo que se seguirá. Procura a paisagem, insatisfeito subitamente, sem saber por quê. O terraço sombreia-se. Onde está o sol? Tudo escureceu, faz frio. Há um momento em que sente a escuridão mesmo dentro de si, um vago desejo de se diluir, de desaparecer. Não deseja pensar, não pode pensar. Sobretudo, nada resolver por enquanto – adia, covarde. Ainda está doente.”

Olha para as árvores e imagina seu balanço como as de “velhinhas conformadas”. Que tipo de pessoa é capaz de abstrair diferentes visões da realidade na qual os demais apenas enxergam o cotidiano de cílios que se abrem e a natureza à mercê do vento? Um artista, certamente. Pede a Marta que lhe trouxesse papel e caneta:

“Ele para, de súbito pensativo. E principalmente se ela soubesse que esforço lhe custava escrever… Quando começava, todas as suas fibras eriçavam-se, irritadas e magníficas. E enquanto não cobria o papel com suas letras nervosas, enquanto não sentia que elas eram o seu prolongamento, não cessava, esgotando-se até o fim… “A Terra, os braços contraídos de dor…” Sim, sua cabeça já está dolorida, pesada. Mas poderia conter sua luz, para poupar-se? Sorri um sorriso triste, um nada orgulhoso talvez, pedindo desculpas a D. Marta. À moça, pela aventura frustrada. A si mesmo, sobretudo.
– Não, a Terra não pode escolher – conclui ambiguamente. Mas depois se vinga.
D. Marta balança a cabeça. Vai buscar lápis e papel.”

As últimas palavras “abrem o jogo” deste conto sensacional. O homem a quem nos referimos é um escritor e sua “doença”, a necessidade da criação. Enquanto não se tornasse uno com sua escrita, não ficaria bem. O processo era exaustivo, mas era parte dele mesmo. A “terra exaurida” era uma cena de sua ficção, que não poderia mais esperar para verter-se em palavras enfileiradas sobre folhas em branco.

Nesse conto, o escritor apresentado por Clarice explicita o fazer literário, expondo a intensidade com que os personagens e as histórias clamam ao escritor para que sejam externados, como uma parte dele mesmo, até um ponto que a ele é difícil distinguir o “real” de seu “devaneio” artístico.

Fui de “não entender nada” a “amar loucamente”! A cada texto de Clarice, a admiração por sua obra cresce a saltos gigantescos. Adentrar esse mundo delirante é um caminho que me faz sentir mais inteligente. Não por ler “Clarice Lispector”, mas pelas reflexões que essa leitura instiga, as conexões que precisamos fazer para adentrarmos essa imensidão de significados. A simbiose que deve existir para conseguirmos tocar de leve a genialidade de Clarice vem com trabalho. Se o escritor dedica-se com ardor a essa tarefa extenuante, não é justo que possamos desfrutar de seu melhor em um rápido olhar.

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O próximo conto, “Eu e Jimmy”, tem menos de quatro páginas, e será analisado no dia 16 de fevereiro, quinta-feira. Caso você não tenha o livro “Todos os Contos” para ir acompanhando a leitura, recomendo o seguinte link.

Obrigada, pessoal!

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Este post é parte do Projeto Clarice Lispector – Todos os Contos! Clique aqui para ver a introdução e o índice de leituras.

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9 comentários sobre “3. O Delírio ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

    1. Sei como é Vera! às vzs tem um escritor q todo mundo gosta e a gente não. Falei mal do Cortiço aqui, e várias pessoas AMAAA…. rs Mas dê uma chance, quem sabe uma hora ela não te conquista? 😉 Bjs, Vera!!

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