4. Eu e Jimmy ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

Hannah Höch Clarice Lispector Jimmy EU
Made for a party, Hanna Höch, 1936

Este conto não chega a 4 páginas inteiras, rapidamente a autora conta o que pretende e deixa sua mensagem sem qualquer floreio.

Jimmy era aquele sujeito que acreditava na naturalidade dos sentimentos, que tudo deveria acontecer de acordo com os instintos e qualquer coisa que passasse disso seria “espuma”.

A narradora procurava motivos para gostar dele, então tentava não se incomodar quando ele a pegava pelo braço para atravessar a rua. A essa altura a gente já pegou birra do Jimmy, né? Cheio de “verdades” impossíveis de concretização, dessas que são bem mais fáceis de infligir aos outros. Pegar uma mulher adulta pelo braço para cruzar alguns metros de asfalto parece muito mais um símbolo de paternalismo do que de “instinto animal”, como ele dizia.

Nossa leitura não está enganada, ela mesma admite que não havia muito o que fazer, pois “desde pequena tinha visto e sentido a predominância das ideias dos homens sobre a das mulheres”, pois “a mulher deve sempre seguir o marido, como a parte acessória segue a essencial”. Sua própria mãe era vista por todos como uma moça cheia de vida e opiniões antes do casamento e depois tornou-se um complemento no lar.

Um dia Jimmy lhe dá um beijo e é desapontador. Ela rapidamente se resigna, pois talvez também fosse seu papel achar que na verdade era bom. Interessante notar que esse “retorno ao natural” que Jimmy apregoava, significava que sua parceira deveria ser um tanto submissa, o que lhe agradava, pois assim tudo convergia para o seu próprio “mundo natural”, ou seja esse era o cenário perfeito segundo a sua vontade.

No entanto, é difícil fazer convergirem as diversas particularidades “naturais” de cada pessoa para que todos acabem felizes na história. Um dia nossa narradora se apaixona perdidamente por um novo personagem, conta a Jimmy, que fica sem entender nada. Ela afirma o que havia aprendido com ele mesmo: “somos simples animais”. Se isso realmente valesse para ela tanto quanto deveria valer para ele, qual seria o problema, não é mesmo?

A avó dela explica a situação:

“os homens costumam construir teorias para si e outras para as mulheres. Mas, acrescentou depois de uma pausa e um suspiro, esquecem-nas exatamente no momento de agir…” (…) “os homens são uns animais”.

Jimmy se apegava ao “estado natural” para justificar um comportamento que retrocedesse ao primitivo, “animal”. Essa palavra, no entanto, tem uma conotação de “grotesco”, muitas vezes, né? Talvez dependa apenas de qual lado da situação estejamos, ou, simplesmente, seja muito real a forma como se encerra o conto: “A teoria é tão boa!”

Várias vezes durante a narrativa, cita-se a teoria das contradições de Hegel. Filosofia é um conhecimento cujos caminhos inspiram e misturam-se com os da literatura. Reconheço que em uma simples leitura de um trecho retirado de algum site na Internet é complicado entender do que se trata determinada teoria filosófica, mas encontrei uma explicação que considerei interessante:

A Contradição é o Motor do Pensamento
Hegel concebe um processo racional original – o processo dialético – no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado, mas, ao contrário, se transforma no próprio motor do pensamento, ao mesmo tempo em que é o motor da história, já que esta última não é senão o Pensamento que se realiza. (…)  Hegel põe a contradição no próprio núcleo do pensamento e das coisas simultaneamente. O pensamento não é mais estático, ele procede por meio de contradições superadas, da tese à antítese e, daí, à sintese, como num diálogo em que a verdade surge a partir da discussão e das contradições. (…)
A contradição dialética nos revela um sujeito que surge, se manifesta e se transforma graças à contradição de seus predicados. Em lugar de a contradição ser o que destrói o sujeito (como julgavam todos os filósofos), ela é o que movimenta e transforma o sujeito, fazendo-o síntese ativa de todos os predicados postos e negados por ele, diz Marilena Chauí (CHAUI, Convite à filosofia). (Fonte – Blog Crítica e Poscriticismo)

Jimmy é um personagem muito contraditório, especialmente quanto ao tratamento que dá a si mesmo e à narradora, assim como quanto à teoria que prega e o que consegue aplicar. As contradições que movem o sujeito, como diz Marilena Chauí, também estão bem expressas nas personagens femininas, que têm vontades, mas as suprimem, e assim transformam-se ao longo da vida.

A personagem principal não possui nome, o que ajuda a caracterizá-la como a mulher universal, que caminha entre a submissão e a rendição à vontade, entre o pensamento dos homens e o seu próprio entendimento, enfim, entre a mulher que foi moldada a ser desde a infância e a que busca suas paixões e desejos.

É um conto que permanecerá atual por algum tempo, acredito. Ainda estamos envoltos nas contradições que nos ajudam a mover o mundo, não é verdade?

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O próximo conto, “História Interrompida”, também curtinho, será analisado no dia 23 de fevereiro, quinta-feira. Caso você não tenha o livro “Todos os Contos” para ir acompanhando a leitura, recomendo o seguinte link. Venha ler comigo!

Obrigada, pessoal!

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Este post é parte do Projeto Clarice Lispector – Todos os Contos! Clique aqui para ver a introdução e o índice de leituras.

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5 comentários sobre “4. Eu e Jimmy ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

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