5. História Interrompida ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

 

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Perdi o autor desta obra… 😦 Vou procurar!

Neste conto, novamente, há uma personagem feminina como narradora em primeira pessoa. Ela começa sua narrativa descrevendo “W.”, mostrando-nos seu namorado como ela o via.

Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso, dizia,alisando os cabelos negros como quem alisa o pêlo macio e quente de um gatinho, por isso é que sua vida se resumia num monte de cacos (…)

Geralmente começamos a descrever as pessoas pelas características que mais nos chamam atenção nelas e W. era triste e alto. Conversava com a namorada deixando clara sua tendência para a destruição. Tinha um gesto recorrente que era o de passar a mão pelo cabelo. Mais adiante, vemos que a personagem feminina tem apenas 22 anos e, ao meu ver, ela reitera a idade várias vezes para justificar sua visão um tanto distante ou infantil de W. Ela o vê passando a mão no cabelo em um gesto de reticência, porém o associa ao carinho em um gatinho.

Vemos que quando ela conversa com ele, busca apenas ter algo a dizer, sem que precisasse haver alguma profundidade ou aplicação.

Eu lhe respondia que mesmo destruindo ele construía: pelo menos esse monte de cacos para onde olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo. Ele, sem dúvida, também o achava, por que não respondia. Ficava muito triste, a olhar para o chão e a alisar seu gatinho morno.

Ela sabia que o que lhe dizia não fazia sentido. Às vezes me pergunto se as pessoas têm consciência de que o que dizem a maior parte do tempo não tem qualquer sentido, ou necessidade, ou até verdade. Com certeza dizemos muitas coisas só para que algo seja dito, temos muito medo do silêncio. Receamos que a falta de assunto pareça falta de afinidade, quando o silêncio compartilhado que é a verdadeira prova de intimidade.

A personagem analisa W. de maneira bem superficial, ou se lembra de tê-lo feito. Ele toma café com muito açúcar e ela pensa que então ele não estava tão mal assim, se tinha algum apetite: “Pura desculpa”.

Há um contraste de cores muito bonito no conto. W. era cinzento, ou em branco e preto. Já a narradora, toda colorida, jovial, inundada pelo verde dos jardins e pelo próprio brilho da idade. Ela pensa então que não desejava que aquela tendência à análise destruísse seu colorido.

Como no poema de Thomas Gray, “a ignorância é felicidade”. Se ela começasse a enveredar por esse caminho de muitos pensamentos, talvez parasse de simplesmente observar a beleza instantânea da natureza e destruísse sua “inocência”. Ela não queria isso.

Ela pensou muito no que poderia salvá-lo, mas era difícil:

“Ele era um homem difícil, distante, e o pior é que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atacá-lo então,se ele se conhecia?”

Que profundo, não? Uma pessoa que se conhece muito bem é mais difícil de ser “atacada”. Ela já sabe tudo de que você poderia acusá-la, e de maneira bem lúcida.

Depois de muito pensar, chegou à conclusão de que iria comunicar a ele que os dois iriam casar-se. Vejam como não existe muita troca nos diálogos nem nesse momento. Tenho a impressão de que a personagem vive em um mundo encantado só dela:

“A idéia de que eu estava sendo feliz me enchia tanto que eu precisava fazer alguma coisa, alguma bondade, para não ficar com remorsos. E se eu desse a golinha de renda a Mira?”

Ela vê a irmã de 14 anos chegar, desesperada, e imagina que ela falará sobre animaizinhos… mas o que ela tem a dizer é exatamente a interrupção da história:

– Clarinha disse que ele se matou! Se matou com um tiro na cabeça… Éverdade, é? É mentira, não é?

Se a Clarice, como escritora, sempre retoma a questão do olhar, isso fica bem claro nesse conto e, dessa vez, o olhar ao outro. Vemos que W. tinha angústias profundas, porém ela considerava apenas “pura desculpa”. É bom refletirmos sobre essa diferença entre o que vemos dos outros e o que eles realmente sentem/são.

No final do conto, vemos que a narradora tem um filho de W. Pela época em que o conto foi escrito, além das citações, primeiro quando ela pede perdão a Deus pelas emoções que tinha, segundo, por não poder ser muito feliz nesta vida (isso é reservado ao pós-vida, para os fiéis) e, terceiro, por se lembrar do castigo dado à mulher de Ló, podemos inferir que talvez a “salvação” que ela quisesse dar a W. fosse a salvação a ela mesma…

E ela continua sem entender, mas, agora, o sofrimento e a morte interromperam o brilho e a inocência de sua juventude, e ela passa então, finalmente, a refletir sobre o sentido de todas as coisas.

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Será que a tristeza nos faz mais reflexivos realmente? Acredito que sim. E também que a nossa própria dor possa nos ajudar a reconhecer a tristeza nos outros, pois quando não vivemos algo é muito difícil tentar entender o sentimento alheio. Talvez tudo pareça “pura desculpa” quando a dor não aflige o nosso próprio ser.

~ ~ ~

O próximo conto, “A Fuga”, também curtinho, será analisado no dia 02 de março, quinta-feira. Caso você não tenha o livro “Todos os Contos” para ir acompanhando a leitura, recomendo o seguinte link. Venha ler comigo!

Obrigada, pessoal!

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Este post é parte do Projeto Clarice Lispector – Todos os Contos! Clique aqui para ver a introdução e o índice de leituras.

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12 comentários sobre “5. História Interrompida ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

  1. Oi Val, quantos livros faltam para terminar de ler Clarice Lispector? Risos. Sempre que venho por aqui tem uma leitura dela. Eu dei uma olhada nos livros dela pra ver se encontrava um pra ler, mas não. No momento com um livro pra reler, mas eu quero uma história nova, só que a minha lista é complicada, a maioria dos livros não tem aqui, e tem alguns que no momento da compra não é o livro que quero para ler, já aconteceu isto. Este 2017 não tem sido aquele ano em termos de livros, mesmo que eu já tenha encontrado alguns dois ou três livros no ano que possa dizer que valham a pena. Beijos.

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    1. Oi, Mauro! Falta bastante coisa da Clarice ainda… Rs É que estou fazendo o projeto de ler TODOS os contos dela, então vai tempo… hehe… Às vezes demora para encontrarmos um livro que seja o nosso estilo, Mauro. Do próximo que estou lendo, acho que você vai gostar, é do Amós Oz. 🙂 Obrigada pelo comentário e pela visita!!

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  2. “Às vezes me pergunto se as pessoas têm consciência de que o que dizem a maior parte do tempo não tem qualquer sentido, ou necessidade, ou até verdade. Com certeza dizemos muitas coisas só para que algo seja dito, temos muito medo do silêncio. Receamos que a falta de assunto pareça falta de afinidade, quando o silêncio compartilhado que é a verdadeira prova de intimidade.” Sensacional, Val! 🙂

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      1. Pois é…risos…estou com uma pilha aqui. Eu passei a gostar ainda mais da Clarice, depois de ler esse livro. Benjamin Moser fala sobre a família dela em meio à Revolução Russa, a chegada deles em Pernambuco. Posteriormente, o casamento e os filhos. Olha é imperdível!

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