De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz

“(…) sem todos os animais, até mesmo as noites de verão mais claras lhe pareciam às vezes como cobertas por uma neblina turva, uma neblina que desce sobre tudo quase enterrando a aldeia, o coração e o bosque.”

Amós Oz Escritor Israelense

Este é o escritor e pacifista israelense Amós Oz. Escolhi essa foto porque é exatamente dessa forma que o imagino contando a história deste livro muito delicado: sentado, com um sorriso permanente, narrando com carinho cada detalhe aos ouvintes atentos, sentados no chão em um círculo em que ele é o ponto principal. Aliás, é um livro incrível para esse propósito de clube de leitura, mesmo sem poder contar com o Amós em pessoa narrando a fábula…

De repente profundezas bosque Amós Oz

Quantos segredos uma pacata aldeia pode esconder? Se nela não houver qualquer bicho, entre insetos, mamíferos, aves, peixes, enfim, nenhum animal a não ser o próprio homem, certamente há algo de muito errado ali.

As crianças ouvem falar de gatos, cachorros e abelhas apenas pela corajosa professora Emanuela, pois estes desapareceram antes de elas nascerem, e todos no vilarejo evitam falar sobre esse acontecimento ou referem-se aos animais como lendas absurdas que pertencem a um mundo ora imaginativo, ora muito perigoso e que se deve evitar a todo custo.

Dessa forma, os pequenos são proibidos de permanecer na rua após o anoitecer e impedidos de entrar no bosque vizinho, onde reina o demônio das montanhas, que causou o grande mal à aldeia e avariou todos que quiseram se aproximar de suas terras.

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Em toda história como essa, sempre se sobressaem os corajosos, e a valentia necessária para buscar o que existe além da escuridão advém de um elemento indispensável: curiosidade. Movidos por esses ingredientes, Mati e Maia partem à procura do que há do outro lado, daquilo que ninguém ousou pronunciar.

O que nós encontramos em meio a essa busca é uma fábula sobre medos, discriminação, tabus e o relacionamento desigual entre o homem e a natureza. É o tipo de texto em que cada leitura ressaltará um elemento de acordo com vivências e valores do leitor. Na primeira vez em que li este livro, a questão da fuga dos animais foi o que mais me tocou.

Uma grande questão para refletirmos é: “Se todos os bichos com quem coabitamos a Terra tivessem opção, será que eles prefeririam ficar aqui conosco ou escolheriam ir a um lugar em que se livrassem do jugo humano?” Não apenas os bonitinhos, mas todos. Esse tema me lembrou muito o livro do Marcelo Gleiser, “A Simples Beleza do Inesperado“, pela noção de que nós, os animais e a natureza somos um, ali, com uma visão mais científica e, aqui, fabular, porém com igual beleza:

“(…) todos nós, todos os seres vivos sobre este planeta, pessoas e animais, aves, répteis, larvas e peixes, na realidade todos nós estamos bem próximos uns dos outros, apesar de todas as muitas diferenças entre nós: pois quase todos nós temos olhos para ver formas, movimentos e cores, e quase todos nós ouvimos vozes e ecos, ou pelo menos sentimos a passagem da luz e da escuridão atráves da nossa pele. E todos nós captamos e classificamos, sem parar, cheiros, gostos e sensações.
Isso e mais: todos nós sem exceção nos assustamos às vezes e até mesmo ficamos apavorados, e às vezes todos ficamos cansados, ou com fome, e cada um de nós gosta de certas coisas e detesta outras, que nos inspiram temor ou aversão. Além disso, todos nós sem exceção somos sensíveis ao extremo. E todos nós, pessoas répteis insetos e peixes, todos nós dormimos e acordamos e de novo dormimos e acordamos, todos nós nos empenhamos muito para que fique tudo bem para nós, não muito quente nem frio, todos nós sem exceção tentamos a maior parte do tempo nos preservar e nos guardar de tudo o que corta, morde e fura. Pois cada um de nós pode ser amassados com facilidade.” (p. 46)

Apesar de ser difícil falar sobre estilo, pois a maioria de nós lerá a tradução do hebraico, percebemos que, nesse trecho, a ausências de vírgulas (pessoas répteis insetos e peixes) ressalta a ideia de unidade. 

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Nesta releitura, a questão da discriminação e maledicência com relação ao diferente falou mais alto a mim. São muitos rótulos expostos,  A professora solteira que não conseguiu conquistar um homem, o velho doido e cego que discute com o espantalho, a criança de nariz escorrendo e dentes separados que sonha demais… Ficou muito clara a visão de que rimos daquilo que tememos ou não conseguimos entender, muitas vezes por pura ignorância.

 “Além de Almon, o pescador, a quem ninguém dava ouvidos porque todos debochavam dele, não havia ali em toda a aldeia alguém que ensinasse as crianças que a realidade não é apenas o que o olho vê e não somente o que o ouvido escuta e o que a mão pode tocar, mas também o que se esconde do olho e do toque dos dedos e se revela às vezes, só por um momento, para quem procura com os olhos do espírito e para quem sabe ficar atento e ouvir com os ouvidos da alma e tocar com os dedos do pensamento.” (p. 52)

É como se todos que “debochassem” fizessem parte de uma horda que não tem a menor noção do que realmente está acontecendo e buscassem refugiar-se em seu mundo de “normalidade”, sem qualquer vontade de explorar o diferente e o inesperado.

“Será que o deboche é uma forma de defesa para quem lança mão dele, pois o protege do perigo da solidão? Pois quem zomba não zomba em grupo, e aquele que desperta a zombaria não fica sempre sozinho? (p. 54)

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“Quem procura acha”, e essa busca pela verdade que há além da aldeia ressoa fortemente o Mito de Platão. Falamos sobre autencidade e conhecimento, pois o status quo esconde muitas mentiras e nos aprisiona em uma fatia de vida um tanto sem graça.

“(…) nos acostumaram desde pequenos, a ter vergonha de tudo que é verdadeiro, e a louvar tudo que é falso. E nos acostumaram a só nos alegrarmos com o que temos, se o que temos for só nosso e de mais ninguém. E pior do que isso, nos acostumaram desde a infância a nos agarrarmos a todo tipo de ideias venenosas que começam sempre com as palavras “Mas todo mundo…” (p. 110)

Linda essa fábula. Imagino que ainda a lerei de novo e virão novas reflexões necessárias. Nessa história, todos que são diferentes recebem rótulos, em sua maioria de “doenças”. Amós Oz nos ensina, no entanto, com toda amabilidade do contador na roda de histórias, que a pior doença não é a do “relincho” e, sim, a do “desprezo e do deboche”.

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Beijos e boas leituras!

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12 comentários em “De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz

  1. Pingback: escreversonhar
    1. Oi, Samantha!
      Eu li apenas dois livros dele, mas gostei bastante. Em breve vou falar aqui no blog sobre um livro em que ele fala mais sobre literatura, é ótimo. Vale a pena estar de olho nele 😉
      Obrigada, Samantha! Bjs

      Curtido por 1 pessoa

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