6. A Fuga ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

Duas mulheres correndo praia Picasso
Duas mulheres correndo na praia, Pablo Picasso

Os primeiros fatos que conhecemos sobre a narrativa são “o céu escureceu” e “ela teve medo”. A chuva abundante aumenta o cenário de tensa confusão, e somos introduzidos a mais um conto em que Clarice expõe as “não-opções” das mulheres logo ao início dos anos 1940. Minha avó nasceu em 1922 e, certamente, aos 18 anos, ela não teve muitas escolhas possíveis. Vinda de uma família com muitos filhos, ajudou a criar os mais novos, casou-se e costurava bolas para ajudar nas despesas. Não concluiu nem mesmo o curso primário, assim como meu avô. A impossibilidade de estudar já inviabiliza grande parte dos caminhos. A própria Clarice ter estudado Direito foi algo muito avançado para a época.

Imagine então uma mulher sem formação para o trabalho, sem dinheiro e sem o amparo da família ou da sociedade. Caso algo desse errado em seu casamento, será que ela teria alguma possibilidade real?

Essa semana, viralizou a história de Doralice, que nasceu em 1929, ajudou a criar 13 irmãos, estudou até o 4º ano, e com 17 anos casou com um viúvo que já tinha três filhos, com 2, 5 e 10 anos. Vejam que esse não era um percurso tão incomum para as mulheres da época, porém, no caso dessa senhora, o caso agravou-se porque o marido foi embora levando todo o dinheiro da família, deixando-a sozinha com vários filhos. Lindo o relato de força de Doralice, as mulheres realmente podem ser muito firmes, porém ela sentiu a vida inteira que a família teria vergonha de sua história. Uma mulher abandonada é sempre levada a pensar que o problema estava nela. Já ouviram aquela máxima de “o que o homem não tem em casa procura na rua”?

Às vezes penso que não quero ser forte. Quero apenas ser eu. Se o erro de outra pessoa me leva a ter de usar o máximo do meu esforço apenas para continuar vivendo, não é justo, simplesmente. Porém… estamos vivendo no melhor dos tempos. Termos a consciência de como isso tudo é errado já é pelo menos a primeira casa da amarelinha, vamos seguindo às próximas com paciência.

Há uma geração, muitas famílias não queriam que as filhas estudassem ou seguissem essa ou aquela profissão, hoje, pelo menos, essa barreira da educação parece estar diminuindo. Acredito que ainda vá levar um tempo para tornarmos as relações mais justas, termos salários iguais, por exemplo. Vejo que o problema atual é a mulher assumir muitas posições. A maior parte dos homens do século XXI não foram criados para compartilhar tarefas, para nos ver como seres pensantes, mas engraçado como, no fim do dia, quem precisa tomar as rédeas é a mulher. Até no erro do Oscar, achei tão engraçado como o Warren Beatty não sabe o que fazer com o envelope e passa para a Faye Dunaway, como quem diz “resolva essa bronca”.

Vamos voltar ao conto?  Como a escrita de Clarice é linda visualmente. Ela seria uma ótima roteirista. Eu não costumo ler imaginando as cenas, sempre me concentro mais em diálogos e sentimentos, mas com ela, é impossível. Parece que você consegue ver a personagem em foco, sem direção, em câmera lenta, enquanto os demais passam apressados com seus guarda-chuvas, sabendo aonde vão. Em meio a esse cenário, no entanto, vemos que ela queria apenas sentar-se, não sentia a chuva, não se importava em sentir frio, porém não sabia ainda para onde ia.

Estava cansada, não havia decidido ainda seu destino, mas diz a si mesma que voltar não era opção. “Agora que decidira ir embora tudo renascia”.

fuga clarice lispector conto análise

Vi essa imagem no facebook e me lembrei deste conto. Vocês já se sentiram dessa forma? Como se houvesse algo prendendo você a um lugar ou a pessoas, e a única forma de restaurar a paz e ter um novo início fosse ir para bem longe?

Sabemos do que ela está fugindo já no terceiro parágrafo: “Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíram-na quase inteira a si mesma”. Esse tema já foi abordado por Clarice nos contos anteriores: a mulher que tem sua personalidade anulada e fica presa ao seu papel social.

Vocês assistiram a “O Sorriso de Monalisa”? É um filme que se passa no começo dos anos 1950 e retrata bem a situação da mulher naquele contexto. Algumas das alunas da personagem da Julia Roberts rompem barreiras e mudam o destino preparado para elas, porém, uma estudante brilhante prefere casar-se e iniciar uma família, o que a impediria de estudar direito em uma ótima faculdade. A personagem reitera à professora que essa era uma escolha sua. Acredito que a grande questão nesses contos da Clarice que abordam o feminino é a falta de liberdade de escolha, porque muitas mulheres querem sim dedicar-se aos filhos mais do que gostariam de qualquer trabalho profissional. O problema é que quando não é possível optar, qualquer caminho parecerá enclausurador, a pessoa não conseguiu nem saber o que desejava.

No mesmo parágrafo, vemos que o que ela menos tinha vontade de fazer “era de representar”, e a narrativa é comparada a uma “tragédia”, ou seja, já sabemos que não haverá final feliz, mesmo ela estando em meio a esse momento de renascimento e liberdade, não havia apenas “alegria e alívio dentro dela”. Havia também medo e “doze anos”, ou seja, um peso que se acumula durante muito tempo, aos poucos tornando-se intolerável.

Mais uma vez vemos as águas como forte símbolo na obra de Clarice. A personagem sente-se atraída pelo mar e questiona quão fundo seria. O infinito do mar transforma-se em uma queda cíclica de um personagem inventado pela protagonista na infância, ao qual ela não sabia dar um destino. Para quem não sabe aonde ir, a queda contínua pode muito bem ser um refúgio sem ser prisão, pois quando se colocam os pés no chão, volta-se ao mundo real e controlador da vida prática: “Porque seu marido tinha uma propriedade singular: bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento fossem tolhidos”.

Penso em mim mesma… minha vida foi meio confusa até certo ponto e eu me sentia “tolhida” também, não por um marido, mas por circunstâncias. Tenho um carinho especial por literatura infantil, pois foi em uma aula dessa disciplina, na faculdade, em que estávamos comentando lendas e contos de fada, que eu me dei conta de que eu não possuía sonho nenhum. Não havia nada que eu quisesse, eu estava tão soterrada que nem mesmo imaginar algo bom eu conseguia. Nem príncipe encantado, nem castelo, nem fera que fosse, nem o felizes para sempre me seduzia.

A vida estava acabada e eu ainda não tinha nem 25 anos. Triste isso, né? Tolher pensamentos é a pior maneira de aprisionar alguém, porque pelo menos lá dentro da sua mente, deveria ser possível escapar à imaginação, e foi nesse mundo de narrativas e personagens que meus próprios sonhos começaram a tomar forma.

Esse post está cheio de idas e vindas, mas vamos entrar no pensamento da personagem por um momento “Agora a chuva parou. Só está frio e muito bom. Não voltarei para casa. Ah, sim, isso é infinitamente consolador. Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo.”

Elvira, a personagem de quem estamos falando, percebe que via a vida passar pela janela e seus desejos eram diluídos pelo bom senso, representado pelo marido, uma pessoa extremamente metódica: “sólido, bom e nunca erra.” Continua a andar e sente agora o ar fresco inundando-a, renovando-a. Os doze anos já estenderam-se a doze séculos.

Vemos que, antes de ela decidir sair, rasga a própria roupa, rompendo com o passado. Essa é uma prática muito comum na Bíblia, acredito que fosse um costume judeu. “Eles rasgavam suas roupas para expressar fortes sentimentos, como vergonha, raiva ou luto.” (Fonte). É um trecho que passa quase despercebido no conto, mas imaginem isso em um filme? Muito visual mesmo a escrita de Clarice.

“Há doze anos não sente forme.” Longe de casa e do aprisionamento, seus sentidos são realçados. Quer comer. Tudo parece mais bonito e perfurmado no hotel a que chega. Planeja partir em um navio, porém é a realidade que logo aporta. Não tem dinheiro suficiente.
Voltamos ao começo do post: dedicava-se ao lar completamente; não tem um trabalho, muito menos o dinheiro que lhe proporcionaria viver em liberdade.

A verdade surge: por mais que a mente e o coração não se preocupassem com as intempéries, o corpo sofre. Vêm o frio, a falta de dinheiro, a realidade de os hotéis não serem bons para mulheres desacompanhadas. Vejam que até na fuga existe essa relação desigual homem x mulher, nem o refúgio seria seguro.

Volta para casa. Ela ficou esse tempo todo fora, e parece que o marido nem nota. No retorno, toma apenas um leite, pois não tem mais fome. O apetite era resultado da liberdade. Deita e enxuga as lágrimas. Em meio àquele silêncio, tão diferente da bagunça da rua, de pessoas indo e vindo, carros, sente apenas que o navio se afasta cada vez mais.
O navio é símbolo de liberdade, de viagem, mas ela não tem como embarcar nele.

Ao ler esses contos da Clarice, sinto-me como a mulher de agora, do século XXI conversando com a mulher de antes, de 1940. Todas que vieram antes de mim. Por isso escolhi o quadro do Picasso com as duas mulheres correndo. Vejo as pessoas falarem que está tudo perdido e sinto o contrário. Estamos avançando, e a liberdade é a nossa busca.

clarice lispector fuga citação

~ ~ ~

O próximo conto, “Trecho”, será analisado no dia 09 de março, quinta-feira. Caso você não tenha o livro “Todos os Contos” para ir acompanhando a leitura, recomendo o seguinte link, a partir da página 18. Venha ler comigo!

Obrigada, pessoal!

Clarice Lispector Todos Contos Análise Resenha Livro

Este post é parte do Projeto Clarice Lispector – Todos os Contos! Clique aqui para ver a introdução e o índice de leituras.

Participe do sorteio do Kit Clarice com a Coletânea Todos os Contos!

Aproveite também para curtir a página do blog no Facebook para receber as novidades!

 

Anúncios

14 comentários em “6. A Fuga ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

  1. Olá, Val!
    Adorei sua postagem sobre esse conto.
    Sou bem mais velha que você (tenho 45 anos) e, por causa da minha profissão, escuto histórias de muitas mulheres das mais variadas idades. Embora esse conto tenha sido escrito na década de 1940, acho que ele é absolutamente atual para um número enorme de mulheres. Quando eu pensava em me divorciar, o sentimento que eu tinha em mim era exatamente esse.
    A Clarice consegue captar a essência mais profunda das mulheres.
    Sei que o mundo está mudando para nós, mas ainda precisa melhorar MUITO para podermos realmente ter nosso espaço e nos sentirmos dignas dele.
    Um beijo grande!

    Obs: Se você permitir, vou deixar o link para meus comentários sobre esse conto e para um texto meu, que pretendia ser o início de um conto ou de uma história que não tive tempo de continuar (mas a ideia continua aqui). Se você tiver interesse em ler, ficaria feliz.
    http://reflexoesdesilviasouza.com/todos-os-contos-de-clarice-lispector-primeiras-historias-6-a-fuga/
    http://reflexoesdesilviasouza.com/a-fuga/

    Curtido por 1 pessoa

    1. Silvia, concordo com o que você disse. Há muito de atual nessas circunstâncias, principalmente pela diversidade que há entre mulheres de diferentes faixas sociais, estilos de vida, enfim… Ainda há muito que melhorar para todas nós. Demorei a responder e me desculpe por isso. Vi seu post sobre A Fuga e acredito que tivemos visões parecidas, né? O início do conto me instigou bastante, aliás que seria uma ideia muito legal para um livro inteiro 🙂 Bjs e obrigada pela visita!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Clarice sempre linda, adorei quando vc escreveu que a escrita dela é visualmente linda. Eu leio e formo aquele cenário perfeito na cabeça. Não conhecia esse conto, ameeei.
    Tb estou participando de um projeto sobre a Clarice, amanha da uma checada no blog que vai rolar comentário sobre o Feliz Aniversario!!
    Aaaah: vi que seu blog tem uma TAG, vou dar uma olhadinha la agora 😉

    Bjs flooor

    Curtido por 1 pessoa

  3. Chorei lendo seu texto… seu relato da leitura, com suas experiências, conflitaram com as minhas experiências, ufa! Muitas emoções, rs! Estou passando por uma fase complexa, pra não dizer outra coisa… rs… e realmente, dá vontade de sair sem rumo. Atualmente, as mulheres tem mais chances de vencer os tabus e conseguir se destacar. Mas, é sempre muito difícil falar do assunto onde ocorre as injustiças. Quando viraliza o assunto existe apoio, caso contrário, a mulher fica com fama de errada ou ruim. Isolada. Seus textos me fazem refletir e muuuito… sua escrita é iluminada! Você tem feito um bom trabalho com a Clarice… rs… ❤ Beijos

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Michelle! Que depoimento mais bonito. Concordo com você, alguns casos isolados são vistos como bonitos e tudo mais, mas na hora em que a pessoa está passando por tudo aquilo, é difícil ver qualquer beleza. Obrigada pelos elogios, espero que as “complexidades” da sua fase tornem-se mais amenas 🙂 Bjs

      Curtido por 1 pessoa

  4. Oi, Val, tudo bem? Compartilho do mesmo sentimento seu em relação à Clarice, e acho a escrita não só visualmente linda, mas também tangível, se é que isso faça algum sentido. Consigo me embolar em seus contos e me sentir dentro da dura realidade. Quanto ao seu trabalho, preciso dizer que está incrível. Que texto! Adorei a introdução, o começo, meio e fim. Gosto muito como você consegue correlacionar as coisas tão facilmente e como dá um jeito de nos colocar pra cima, com muita reflexão. Me sinto conversando com você quando leio o que você escreve, assim como com Clarice rs. Beijos e meus parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Gi! Adorei seu comentário, obrigada pelas reflexões e pelos elogios. Acho que entendo o que você diz sobre os contos serem tangíveis, há toda uma atmosfera, né? Fico contente que goste dos posts 🙂

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s