Por que fazemos o que fazemos?, Mario Sergio Cortella

Vocês lembram que emendei dois livros super pesados, A Pérola, do Steinbeck, e Precisamos falar sobre o Kevin, da Lionel Shriver, então estava querendo ler alguma coisa mais light, né? Reli De repente, nas Profundezas do Bosque, do Amós Oz, mas ainda não estava preparada para encarar Sylvia Plath e afins, então, comprei em uma promoção este livro do Cortella, totalmente no escuro. GENTE, li apenas o título, então achei que seria um “Existencialismo para leigos”, quando o livro chegou, me deparei com o subtítulo: “Aflições vitais sobre trabalho, carreira e realização”. Sério, só essas sete palavras já me deram vontade de chorar.

Why do we do mario sergio cortella?

Acontece que eu não sou uma índia que não tem condições de tratar o filho, nem sou mãe de psicopata. Apesar de as questões tratadas nos livros que citei afetarem muito a sociedade em que estou inserida e, portanto, também a mim, o tema de “Por que fazemos o que fazemos” me toca muito mais de perto, é uma das minhas grandes questões e sempre vai ser.

Ao começar a ler o livro, já tive aquele momento preguiça mental pensando que seria um discurso motivacional ou daqueles atuais totalmente desmotivacionais que tiram qualquer ímpeto de levantarmos às 6h30 da manhã para fazermos um trabalho idiotizante quando na verdade não percebemos o quanto seria fácil acedermos ao nosso verdadeiro eu que gostaria de ser um viajante pelo mundo com uma mochila nas costas e milhares de aventuras à espreita.

Não, eu não posso largar tudo. Sei que muitos de vocês também não. E não somos covardes por isso, nem estamos deixando de aproveitar a vida. Simplesmente há responsabilidades das quais não podemos nos esquivar, ou seja, vamos ter de achar um modo de sermos felizes aqui e agora, com o que temos em mãos ou com o que é factível buscar.

Tive medo de esse livro pregar algo além das minhas possibilidades e me atirar a uma depressão, eu definitivamente não preciso nem quero ouvir sobre como é preciso trabalhar com o que “gostamos”, pois esse discurso, quando simplista, pode tornar-se elitizante e desonesto. Eu amo as palavras, mas detesto quando são usadas para ludibriar.

Graças aos deuses da leitura, o filósofo, escritor, educador, palestrante e professor Mario Sergio Cortella trata do tema de forma inteligente. Ufa. Não foi desta vez que cortei os pulsos!

Why do we do mario sergio cortella?

O livro é dividido em vários pequenos capítulos, que parecem, sim, extraídos de palestras, porém levam à reflexão, não à adulação ao palestrante, como é comum nesses eventos. O prólogo chama-se “Vida com propósito!” e o primeiro capítulo é “A importância do propósito”. Vemos que há uma palavrinha chave aí, né?

O interessante do Cortella é que ele tira o foco do trabalho para colocá-lo na sua vida. Se você trabalha com algo com o qual não se identifica, no momento, não precisa se martirizar. A sua vida pode ter um propósito e as várias coisas que você faz ao longo de um período podem levá-lo a atingi-lo. O problema é estar no meio de tudo isso sem saber se vai dar certo ou não, ou até mesmo, qual é o seu propósito, enfim.

Há vários vídeos do autor em que ele nos pergunta “Qual a sua obra?” O intuito do livro também é buscar essa reflexão, não há qualquer dica ou lista de passos a percorrer, o que é ótimo. Ele enfatiza como a minha geração e as mais novas querem ter um trabalho significativo. Ao mesmo tempo, “fugir por aí” não parece a melhor opção. Na nossa sociedade, é preciso dinheiro e, geralmente, temos de fazer algo para obtê-lo. Aí entra um grande embate, porque a maior parte do que gostamos de fazer não retribui financeiramente de maneira satisfatória.

Achei super interessante quando ele diz que nossa espécie evoluiu devido ao trabalho. A própria invenção da roda veio facilitar uma tarefa. Os animais têm o simples objetivo de sobreviver, mas nós, não, a nossa busca é procurar o que está além. Antes a meta de vida seria estar dentro de uma normalidade, ter casa própria, carro, dar boa educação aos filhos, mas isso não nos sacia mais.

Why do we do mario sergio cortella?

Este assunto é difícil pra mim. Seria mais fácil conversar sobre isso com amigos do que tentar organizar pensamentos em um post. Já estou tentando escrever isso há dois dias. Acontece que não tenho obra, nem nenhum grande sonho. Sei mais o que não quero, o que talvez seja um começo de caminho.

As circunstâncias pesam demais, escrever sobre isso me deixa triste. Um dos trechos que mais achei interessantes no livro foi sobre como incentivar trabalhadores de telemarketing a dar seu melhor. No fundo, todo mundo sabe que aquilo é passageiro e não dá para pedir que as pessoas simplesmente “vistam a camisa”. A saída dele é concentrar-se no teor “temporário” do emprego. Que as pessoas vejam esse momento como um degrau necessário na escada que pode levá-las a algo maior.

Eu tive vários passos na minha carreira. Quando eu dava aula de inglês por R$ 4,00 a hora, por exemplo, adquiri fluência no idioma, conheci pessoas maravilhosas com quem mantenho amizade de mais de dez anos e viram toda minha trajetória, por isso entendem muito bem o que sinto agora. Fiz um estágio no fim do planeta Terra e passava mais de cinco horas por dia em um ônibus, porém aprendi muito sobre tradução e a escrever melhor. Lá também conheci alguém que me trouxe ao emprego atual.

Não me identifico com o que faço atualmente, porém, tenho um salário que me permite economizar, o que, em outras épocas, era impossível. Escrevo o dia inteiro, o que me trouxe maior clareza de pensamento, pois organizar ideias em palavras desata muitos nós mentais. Não quero parar por aí, obviamente. Não sei o que quero fazer, mas também não estou parada. Esta semana começo uma especialização em tecnologias na aprendizagem, que é um tema que pode ser muito interessante para pesquisas.

Excluir da lista da sua vida aquilo que você não gosta de fazer já elimina muitos passos indesejados. Eu detesto tarefas do tipo certo x errado, ou com fim certo. Eu gosto de comparar contextos, analisar situações, chegar a novas conclusões. Penso em dar aula, mas não sei se essa é a minha grande obra. Se você é indeciso como eu, saiba que vai ter que fazer muito para descobrir qual é a sua.

Foi fazendo técnico em construção civil que descobri que, apesar de gostar de desenho e matemática, não tenho visão espacial e arquitetura não seria para mim. Foi escrevendo no meu blog que descobri que não gostaria de ser blogueira por profissão. Prefiro aparecer por aqui quando e pelos motivos que desejo, sem ter a obrigação de sempre falar coisas maravilhosas. Ou seja, é importante estar em movimento: buscar é um verbo essencial.

Para alguns, a vida é mais fácil? É, sim, claro que é. Se você tem ótima educação, precisa apenas preocupar-se com si mesmo e tem condições de estudar nas melhores faculdades sem trabalhar por obrigação, com certeza poderá se dedicar a descobrir a sua obra com menos empecilhos no caminho. Se você precisou recorrer a empregos mal remunerados ou com os quais não se identifique, será mais difícil, mas não precisa e talvez nem deva parar por aí. Ler, estudar, buscar exemplos são passos otimistas na direção do seu propósito.

Gostei do livro por tratar a questão de modo realista, porém com esperança. É preciso refletir sobre a nossa relação com o trabalho, mas não diga a uma pessoa que é caixa em um supermercado, ou precisa sustentar uma família aqui e agora, ou não consegue fazer qualquer economia, que ela está errada por não seguir seus sonhos e largar tudo. A construção da obra de uma pessoa leva tempo, mas ocorre um passo por vez.

Vários dias, fico super triste e angustiada ao pensar que vou levantar de manhã para fazer um trabalho que não afeta a vida de ninguém, que não estou deixando uma marca, que não tenho uma obra. Pior ainda, que tenho algumas inclinações e talentos, mas não posso usar o que tenho de melhor nessa atividade. Eu queria pesquisar temas, criar teorias, fazer algo novo.

Melhoro um pouco quando penso que este é só um passo de um caminho, com várias pedras ao longo dele, sim, mas que, por mais que existam circunstâncias loucas e impeditivas, eu ainda tenho algumas chances de delinear certos passos da estrada, os quais só vão surgir quando eu me mover em direção a eles.

Quando temos essa angústia, no fim, é bom sinal. Prova de que estamos buscando, de que há algo dentro de nós que não se conforma. Uma vez vi um conselho muito interessante para descobrir seu “propósito”, ou “obra”: “O que você faria se tivesse certeza de que daria certo?” Sem a tela embaçada do medo pode ficar mais fácil descobrir.

Quanto aos sonhos, no final do livro há algo interessantíssimo sobre como alguns desejos impossíveis podem ser na verdade um lugar de conforto do qual não ousamos sair para encarar a vida real. Vale a pena ler nas palavras dele. 🙂

Why do we do mario sergio cortella?

É isso pessoal. Aí está minha carteira de trabalho toda amassada, bem simbólico, não? Rs

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30 comentários sobre “Por que fazemos o que fazemos?, Mario Sergio Cortella

    1. Uau, obrigada! Sobre o livro/filme, acho que é mais uma questão emocional. Não há cenas pesadas, mas o que é tratado, sabe, assassinatos, as relações humanas… Bjs e obrigada!

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  1. Val, mulher…. já faz um tempo que quero ler esse livro. Agora sei que preciso ler LOGO. Acabei de solicitar como troca no skoob \o/
    Me identifiquei em várias partes do texto. E “ter um propósito” é algo que que estou aprendendo a colocar em prática.
    Hoje também estou em um local que, sinceramente, não gostaria de estar. Mas coloquei um propósito nisso, para que a minha passagem por aqui seja o mais leve possível. Estou em busca do melhor pra mim, mas enquanto estiver aqui (porque no momento preciso ficar) tenho q ver além.
    Sobre “tecnologias na aprendizagem” – faça mesmo! Tenho super vontade de fazer também. Depois me conta se vai fazer e como está sendo a experiência.
    bjão e sucesso!
    http://www.jeniffergeraldine.com

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    1. Oi, Jeniffer! Adorei ver você por aqui. 🙂 Espero que consiga trocar o livro e que ele acrescente luz às ideias que já estão brotando na sua mente 🙂 Estou buscando ter uma passagem leve, como você falou, mas há dias em que esse momento parece uma eternidade, né?
      Sobre a pós, estou fazendo, começou esta semana 🙂 Espero que seja desafiador em um bom sentido 😉
      Acho seu blog de muito bom gosto, espero que colha muitos frutos com ele ainda!! Bjos ❤

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    1. Barbara, sou formada em letras português e inglês. Atualmente trabalho com tradução, mas mais técnica e financeira, não literária nem de filmes. Eu dei aula de inglês em escolas de idiomas por mais de cinco anos, mas ganhava bem mal… Acho que seria legal dar aula em escola ou faculdade, mas aí muitas coisas precisam acontecer. Se fosse hj em dia, acho q eu tentaria fazer estágio em editora ou processos de trainee que aceitassem o curso de letras. Bjs!!

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  2. Val, estava eu checando os blogs que sigo depois de um dia tão cansativo com tanta dor de cabeça e cólica, e aí me deparo com o seu post, confesso que o que chamou atenção logo de cara foram as fotos, mas quando comecei a ler sua resenha e fiquei aqui pensando: uau, acho que era isso que precisa ouvir / ler … Então, muito obrigada ❤ E mesmo que as coisas estejam um pouco confusas agora sei que você é guerreira e pode conquistar muito, uma hora a luz se acende na direção que você irá trilhar. Keep holding on! ❤ Bjos

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    1. Oi, Cá! Pois é, há momentos em que a rotina pode ser muito cansativa, precisamos ter os olhos voltados para algo maior. :)) Muito obrigada pelo apoio, torço muito por vc, com certeza tudo vai valer!!!

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  3. Adorei sua resenha. Tô vivendo um dilema semelhante. Saindo de um emprego e buscando outro mas acho que preciso de pelo menos um mês afastada, para avaliar de longe as perspectivas. Andava muito desanimada com o que fazia mas tentava fazer o melhor pq era necessário!!

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    1. Olá 🙂 eu tb sinto que precisava de um momento como de passar por um lava jato, sabe? Pra repensar muita coisa… É essencial refletir, temos só essa vida, precisamos ter um objetivo, msm que seja um degrau para algo melhor 🙂

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  4. Val, como sempre, ótimo seu texto, a forma como expressa suas reflexões e angústias. Também tenho meus momentos, do tipo “o que estou fazendo aqui”, qual o meu grande propósito… Mas é realmente necessário paciência, coração aberto para aprender seja lá o que a vida tem a me ensinar neste momento aqui. Já passei por situações complicadas em emprego, sem sentido algum levantar cedo para passar mais um dia lá. Mas sei que um dia vou ver que foi sim mais um passo necessário, mais uma pedra no caminho, como costuma dizer. Bjs

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    1. Oi, Alê! Obrigada pelo comentário. Paciência e coração abertos: falou tudo! É o que mais precisamos para levar a vida… O bom é que sempre podemos refletir e, com isso, mudarmos o que é preciso ou aceitarmos os desafios pelos quais precisamos passar. Bjs!! ❤

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  5. Estou paquerando esse livro há um tempo. Hoje li um livro dele: Não nascemos prontos e gostei bastante. Estou curioso para ler Por que fazemos o que fazemos, especialmente por que nos últimos meses tive que arranjar um emprego totalmente fora da minha área e me fez questionar que nem sempre temos esse poder de escolha, principalmente em tempos de crise econômica.
    Sua resenha ficou ótima!
    Abraços

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    1. Oi, Ben! Obrigada pelo comentário. Pois é, sempre há um embate entre o que gostamos de/queremos fazer e o que é possível gerar renda. Além do medo de fazer algo que não “dê certo”, né? Mas com bastante reflexão, vamos chegando a um meio saudável entre as duas questões. Muito obrigada pelo comentário!! Bjs

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  6. Saudações Val,

    Estas construindo sua obra a muito tempo. Eis você aí escrevendo e nós, outros arquitetos do eu, lendo você. Pulas, juntas, recolhes, afastas, empurras, guardas, chutas as pedras no caminho e assim constrói tua obra e teu Eu. Não dá para chamar de problema, então usarei o termo “dificuldade” em nos auto-avaliar. Por base, usamos os outros, as opiniões dos outros, a vida dos outros, o trabalho dos outros, o sucesso dos outros, o relacionamento dos outros, os feitos dos outros, “and so on”… Sofremos e ficamos angustiados com as comparações e, feito disco arranhado, pulamos no mesmo lugar na auto-reflexão. O mercado segue criando modelos estéticos, profissionais, comportamentais, culturais, etc. e inconscientemente, passamos a olhar mais para essa janela, para esse lado de fora buscando algo que no agrade, que nos apeteça e sem nos darmos conta passamos a sonhar os sonhos dos outros. Pior, achamos que o sonho alheio é o nosso sonho. Somos submetidos a um processo constante de despersonificação. Arremessados num abismo de remodelação sem fim de um suposto ideal humano. Parafrasenado uma propaganda de uma já extinta instituição bancaria, “o tempo passa, o tempo voa…”, quando percebemos, ou melhor, nos damos conta, o nosso Eu já não está numa boa. Já não é mais o mesmo indivíduo dono de seus desejos e sim um Eu frustrado, plurifacetado, despersonalizado. Construido a pinçadas cirúrgicas nos modelos que o mercado idealiza e nos convence com seus falsos operadores lógicos a empregar silogismos para justificar suas próprias verdades como ideais a serem perseguidos. Porém, minha cara, tua obra já iniciaste. És inteiramente tua obra a edificar certezas e incertezas. Pois se constituirmos somente verdades, amordaçamos o novo, o diferente.

    Siga escrevendo, sigo te lendo.

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    1. Seu comentário foi tão maravilhoso, que não sei o que responder. Só queria registrar que li e adorei. Estou sem palavras ultimamente, desculpe. Mas amei tudo. 🙂

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