Anne de Green Gables, de L. M. Montgomery

Este post é resultado da leitura conjunta com a Lulu do blog Lulunettes. Visitem o blog dela para ver o que ela escreveu sobre o livro também!

A Lulu comentou com muita paixão sobre “Anne de Green Gables”, escrito em 1908 por L. M. Montgomery, o que me despertou a vontade de lê-lo. Há pouco tempo, juntaram-se em um mapa os livros nacionais considerados os favoritos de cada país, e claro que há margem para discussões, mas o livro do Canadá é justamente Anne. Eu acredito que esse livro esteja no inconsciente coletivo do canadense, algo como Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, está para nós.

Anne Green Gables Canadá Favorito

Tenho um carinho especial pelo Canadá, como é possível
ver no post que escrevi para o Vai Sem Medo.

Escolhemos ler a edição da Pedrazul, de 228 páginas. Há alguns pequenos deslizes de revisão no texto, principalmente no final, então seria legal a editora dar uma caprichadinha a mais nas próximas edições.

Anne Green Gables Resenha Análise

Quando conhecemos Anne, ela é uma menina de 11 anos, porém já tem muita história para contar. Órfã, havia vagado por diversos lugares, sem nunca conhecer um lar. Em uma das casas em que vivera, havia um pai alcóolatra e três pares de gêmeos dos quais ela deveria tomar conta.

Não tão distante dali, viviam dois irmãos solteiros, Marilla e Matthew Cuthbert, já avançados em idade. Matthew decide adotar um menino para ajudá-lo nos afazeres da fazenda de Green Gables. Eles combinam tudo com Mrs. Spencer, mas quando Matthew vai buscar a criança na estação, percebe que houve um engano e que ali havia apenas uma menininha magra, ruiva, sardenta e incrivelmente falante! Ele a leva consigo para que ela não precisasse passar a noite ali sozinha.

O tempo da viagem até Green Gables foi o suficiente para que Matthew se encantasse com Anne e desejasse adotá-la. Tendo passado por tantas dificuldades, a garotinha desenvolveu uma linda maneira de viver a vida ao máximo: por meio de sonhos e de fantasia. Para ela, nada pode ser tão ruim quando há “escopo para imaginação”, e é exatamente isso que ela encontra ao chegar em Avonlea: a natureza exuberante, com seus riachos, bosques e flores tornavam Green Gables o lugar mais lindo do mundo para Anne, que desejou permanecer ali por toda sua existência.

Anne Green Gables Resenha Análise

A princípio, Marilla resiste à ideia com toda força, por não compreender o que uma menina poderia lhes trazer de bom, pois eles precisavam de ajuda na fazenda, não mais tarefas com os cuidados de uma criança tão frágil. Marilla acaba cedendo ao desejo do irmão, pois, em seu interior, em pouquíssimo tempo, já começava a nutrir algum sentimento por aquela menina tão única. À medida que os personagens são cativados por Anne, nós também vamos conhecendo sua rica personalidade e nos afeiçoando a ela.

Anne faz amizades, como Diana, sua “amiga do peito”, vai à escola, à igreja e marca a todos com seu jeito único de ser. Ela detesta seu cabelo ruivo, suas sardas e magreza, mas hoje em dia ela estaria bem na moda com esses atrativos, não?

Anne vive intensamente tanto as belezas da vida quanto seus dissabores: chora sempre como se o mundo fosse desabar e briga, a ponto de xingar pessoas mais velhas ou quebrar a lousa na cabeça de um colega, mas, como ela mesma diz, não comete o mesmo erro duas vezes. Os ressentimentos de Anne são arroubos infantis, não mágoas que a tornassem amarga. Frequentemente se vê em apuros por ser tão impulsiva, mas sua bondade de coração sempre a faz aprender o necessário, sem se desfazer de seu jeito de ser tão singular e otimista.

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A marca mais especial que o livro deixa no leitor, ou em mim, pelo menos, é a percepção de que a capacidade de Anne de ver a beleza de tudo à sua volta é suficiente para que a vida dela tenha sentido. Às vezes, parece que o “sentido da nossa vida” precisa ser algo tão grande, né? Tão distante, tão único. É difícil percebermos que a vida é isso aqui e agora mesmo. Como diria o John Lennon, “A vida é o que lhe acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”.

“Que dia esplêndido! – disse Anne, inspirando profundamente – Não é simplesmente maravilhoso estar viva num dia como este? Compadeço-me das pessoas que ainda não nasceram por perderem-no. Claro que poderão ter dias bons, mas nunca poderão ter este de hoje. E é ainda mais esplêndido ter um caminho tão adorável para ir à escola, não é?” (pg. 81)

Acredito que seja um exercício ver a beleza naquilo que nos rodeia, nas amizades, nos bons sentimentos e, para mim, não é fácil. Tentei não lançar um olhar cético para o livro e achar que Anne é simplesmente esfuziante demais. Faltava um pouquinho só para eu pensar isso, mas tentei aprender com ela, porque, afinal, é preciso ser feliz de vez em quando e ela é uma personagem que ensina muito sobre sentir e valorizar momentos e pessoas, enfim, para Anne, ser rica é saber ver a beleza do mundo.
A grandeza do livro está na personalidade cativante de Anne, que não precisa de nada sobrenatural ou grandioso para ser feliz, ela torna a sua vida e tudo ao seu redor grandiosos pela maneira como vive e como sempre imagina livremente até o fim. A construção da personagem é tão bem feita, parece que lemos sobre alguém que realmente existiu, com muitas características que gostaríamos de ter ou encontrar em uma amiga. Ela é questionadora e inquieta, e ao mesmo tempo uma sonhadora incorrigível. Quando vocês lerem, tentem fazê-lo devagar, porque Green Gables e Anne vão deixar saudade. 🙂

“- Marilla, não é maravilhoso pensar que amanhã é um novo dia, ainda sem erros cometidos?
– Posso garantir que você irá cometer vários deles. Nunca vi ninguém melhor do que você para isso, Anne – disse Marilla.
– Sim, sei muito bem disso – admitiu Anne, tristemente -, mas você já percebeu algo encorajador sobre mim, Marilla? Nunca cometo o mesmo erro duas vezes.
– Não sei se há muita vantagem, considerando que você está sempre cometendo outros novos.
– Oh, não percebe, Marilla? Deve haver um limite de erros que uma pessoa pode cometer, e quando chegar ao final, eles terão acabado. É um pensamento reconfortante.” (p. 133)

Esse não é um livro para quem quer mudar o mundo inteiro, é um livro para quem gostaria de mudar seu próprio mundo. 🙂 É uma leitura muito leve, mas essa delicadeza não deixa de ser essencial ao universo particular de cada leitor. Indico Anne de Green Gables para quem deseja relembrar a beleza e a inocência da infância e trazer um pouco dessa ternura para o mundo cheio de complicações dos adultos. Como se fosse uma boia nos trazendo a um lugar mais “respirável”, sabe?
Anne Green Gables Análise Resenha
Uma curiosidade: “Gable” é essa parte verde entre as duas águas do telhado.

Obs. Uma dúvida minha… Há algum tempo, a Cris, que escrevia o melhor blog do mundo, comentou aqui quando eu disse que não conseguia perdoar, que eu deveria “amontoar brasas na cabeça” das pessoas e seguir em frente. Ela disse que com certeza eu entenderia essa figura de linguagem. O problema foi que eu não entendi nada! Fiquei com vergonha de dizer isso, mas agora, vemos que há uma oportunidade de alguém me dar uma luz…

No livro, Anne também precisa perdoar alguém e o faz. Ela diz: “Senti que estava amontoando brasas na cabeça de Mrs. Barry.” O livro é repleto de notas de rodapé e, nessa passagem, explica-se a referência a Provérbios 25: 21-22. Procurei na Internet o que significa amontoar brasas na cabeça de alguém e há dezenas de interpretações. Pode ser o fato de as brasas moldarem objetos, então o perdão ajuda a “amolecer” a pessoa e ela não comete mais o erro pelo qual você precisou perdoá-la.

No meu entendimento, parece estranho colocar brasa viva na cabeça de alguém. E sigo sem entender o provérbio, não me parece eficaz a explicação. O que vocês acham?

Anne Green Gables Análise Resenha

É isso, pessoal, muito obrigada pela visita e atenção. Boas leituras!

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11 comentários sobre “Anne de Green Gables, de L. M. Montgomery

  1. Val, que post fofo! As fotos ficaram lindas (*-*). E sua resenha ficou muito boa! Eu amo “Anne de Green Gables” pelos bons sentimentos que ele trás ❤ Como comentei contigo, o jeito dramático de Anne nos cativa por sua singularidade e defeitos. Também por encontrar beleza em qualquer coisa e de valorizar o amor, a amizade e a cumplicidade. Lucy Maud Montgomery fez um trabalho grandioso e eterno ❤ Com essa releitura, meu amor por “Anne de Green Gables” só aumentou. No mais, agradeço a companhia (^_^). Beijos, Val!

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    1. Obrigada, Lulu!! Amei o livro, acredito que seja uma leitura essencial mesmo. Precisamos desses bons sentimentos no nosso cotidiano, né? Bjs! ❤

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  2. amontoar brasas na cabeça do outro eu acho que é tipo uma projeção errada. quando projetamos (inconscientemente) nossas coisas mal-resolvidas (na maioria das vezes) nos outros, estamos amontoando brasas na cabeça do outro. ou colocando chifre na cabeça de mosca ahuhauhuahua a gente amontoa numa forma de dizer que é claro que a pessoa errou porque quis, como assim ela não sabia que isso ia me magoar? (quando na verdade a pessoa não sabe uhahuahua ou não tem bola de cristal para saber auhhauuhahua eu sei que nós humanos somos esquentados e tiramos muitas conclusões precipitadas). acho que amontoar brasas na cabeça do outro seria isso. Pow, se for Cris Campos, caraca, fiquei triste quando vi que ela fechou o blog dela :/ altos poemas massa 🙂 Ótimo páscoa, ótima semana e tudo o mais, Val!

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    1. Jorge, é essa Cris mesmo!! Amava muito o blog dela. Não sei se é exagero ou o q, mas ler os poemas dela, p/ mim, estava na mesma categoria que os poetas gigantes da história, sério mesmo.
      Sobre as brasas, será q é como na sua interpretação? Achei que fosse algo mais de pessoa boazinha, sabe, sobre esquecer… Mas sei lá, aquilo vai ficar queimando na cabeça da pessoa??? Hehe Difícil, né… Bjs e mto obrigada!!

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      1. “Mas sei lá, aquilo vai ficar queimando na cabeça da pessoa???” AUHHUHUAUHAUHa verdade, também não sei uhauhaauh concordo com o que falasse da Cris 🙂 Esperemos que ela volte 🙂 Beijos, Val! Ótimo dia e tudo o mais!!!

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      2. ei pow encontrei essa parte da brasa em Romanos 12:20,21: “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
        Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem”.
        🙂

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      3. É, então, por isso acho que ele queria dizer algo de bom. Vi uma interpretação que a brasa servia para amolecer e dar nova forma, então talvez o perdão servisse para a pessoa repensasse seus atos ao experimentar a bondade de outra pessoa…

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