Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie

Um dia estava na Livraria Cultura e vi o livro “Sejamos todos Feministas”, de que tanto ouvia falar, ali paradinho na estante, esperando por mim. É um livro super curto, baseado no TED da autora (o vídeo está mais abaixo), por isso consegui lê-lo muito rapidamente e você também não precisará despender muito tempo na leitura.

Ler é rápido. Pensar sobre ele é que não é! Rs

sejamos todos feministas chimamanda

Gosto de ver opiniões diferentes e ponderar argumentos.  Vi muitos vídeos no youtube sobre posições antifeministas, mas são falas que não me soam corretas ou coerentes. Dizer que as mulheres querem brigar com os homens, que estão se juntando contra eles, que existe certo ódio em toda feminista é muito errado. Não existe carteirinha de feminista, ou provas para entrar no clube. Há muitas correntes, e a da Chimamanda é a “super light ponderada paz & amor para todos”, da qual também faço parte.

Outro argumento: o que uma pessoa que se entitula feminista faz altera o cerne do movimento e dizer o contrário é como defender o comunismo dizendo que ele nunca foi de fato aplicado. Acho isso tão incongruente quanto dizer que toda pessoa evangélica é intolerante porque determinado pastor evangélico chutou uma imagem católica. Não dá para uma pessoa responder por outra, ou outras.

Algumas ideias acredito que sejam trazidas a baila só para estereotipar grupos, como falar que feministas são mal amadas, que desprezam a feminilidade, não tomam banho etc. Esse último é um dos melhores, né? Rs

Em um dos vídeos, uma youtuber falou que Simone de Beauvoir e Sartre eram pedófilos e por isso ela não poderia dar crédito ao movimento feminista. Não quero passar panos quentes, mas realmente não dá para se apegar muito a pessoas. Olhando de perto, Darwin era racista, Monteiro Lobato também, enfim, se você se apegar à vida pessoal dos teóricos fica um pouco difícil desvencilhá-los das obras.

Também tem aquilo do “humanismo”. Humanismo é uma corrente filosófica. Se não houvesse um lado pendendo na balança seria até ok usar esse nome, mas não acontece dessa forma.

Também assisti a um outro vídeo de uma youtuber americana (gente, não vou deixar créditos porque eu teria que procurar tudo de novo e aqui é só um postzinho reflexão de vários momentos espaçados, não quer dizer que eu os vi agora) que comentava que feministas manipulam dados. Por ex., muitos homens sofrem estupros nas prisões americanas, muito mais do que as mulheres, e cadê as feministas para defendê-los? Bom, gente, fica difícil advogar por todas as causas da humanidade de uma vez só, mas se alguém acha qualquer tipo de estupro correto, deve precisar de algum tratamento, né? Ela também citou os dados que sempre ouvimos sobre salários maiores e que seriam números enviesados.

Isso é um tema delicado, porque eu realmente vejo isso acontecer a todo tempo, não só com feministas, quaisquer pessoas que defendam uma causa, e acho uó. (Não estou elaborando muito o texto, aliás que essa  é uma mudança aqui no blog, vou escrever bem coloquialmente do jeito que sair, ou não sai nada). Os fins não justificam os meios. Não propaguem mentiras em prol de uma boa causa. E se for mentira não é ok. Essa semana mesmo vimos a polêmica com a Gal Gadot. Ela ganhou bem menos que o ator do Superman, simplesmente porque nos primeiros filmes de super-heróis é assim que acontece. Quando a gente argumenta com mentira dá espaço para que outro lado, talvez muito equivocado, porém nesse caso com razão, ganhe espaço e nos desmoralize.

** Mais um que eu havia me esquecido: esse tipo de movimento apenas existe para cooptar massa de manobra para a esquerda. Seria bem produtivo pararmos de pensar em esquerda e direita de maneira tão simplista. Pensamento analítico faz bem para todo mundo. Quando você se apega mais ao “lado” que defende do que à realidade em suas diversas matizes, tende a defender qualquer coisa cegamente e tornar-se maniqueísta. Além de facilmente apropriar-se de argumentos falsos como esse…

Agora o grande tchan do livro da Chimamanda é que ela não está falando de dados e definições acadêmicas e polêmicas. Ela fala sobre a vida dela e como o feminismo tomou forma aos poucos a partir de experiências próprias que ela teve. Esse é um grande trunfo de identificação. Se você é mulher e nunca sofreu qualquer injustiça por conta disso, nunca teve medo de andar na rua à noite, nunca se sensibilizou porque uma tia, ou avó, parente, enfim, não pôde estudar, por ser mulher, saiba que você é uma em um milhão. Abra os olhos ao redor, para o passado e para os lados e veja que muitas pessoas sofrem com questões muito relevantes que precisam sim ser levantadas e repensadas.

sejamos todos feministas chimamanda

O livro começa com ela contando sobre a primeira vez em que um amigo a chamou de feminista, não como um elogio. Ela não sabia o que significava e procurou a palavra no dicionário.

Quando ela publicou um livro em que um personagem batia na esposa, um homem nigeriano disse que ela deveria se preocupar por que as pessoas estavam dizendo que seu livro era feminista, e o ruim disso é que as mulheres feministas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido.

Ela então decidiu se considerar uma “feminista feliz”. Ela continua descrevendo estereótipos de feministas e como ela era uma feminista “feliz”, uma feminista “africana e feliz que não odeia os homens, que curte usar brilho labial e usa salto alto porque gosta, não por causa dos homens”.

Enfim, a palavra “feminista” é carregada, no mau sentido, mas talvez a gente não precise se justificar tanto ou provar que toma banho, sim. Rs

O livro continua com pequenas histórias em que ela viveu o fato de ser diminuída por ser mulher. É legal assistir ao TED, pois ela conta tudo com leveza, há muitas risadas na plateia. Definitivamente não há nada de ódio por homens.

Ela tem um poder de concisão muito grande e desmonta alguns daqueles argumentos que citei, sem mencioná-los. Garantir direitos iguais a homens e mulheres não é o mesmo que dizer que eles são iguais. Biologicamente são diferentes, em questões de hormônios e tudo mais. No passado (bem distante) justificava-se que os homens trabalhassem devido à sua força física, mas atualmente a criatividade, inteligência e inovação são mais importantes e não são hormônios que decidem isso. Evoluímos, mas as ideias sobre gênero não evoluíram.

A nossa sociedade é machista. Se a sua casa não é, se os homens com quem você convive gostam de ouvir opiniões de todas as pessoas, fique muito feliz com isso, mas não imagine que o mesmo ocorra com todo mundo. As feministas são acusadas de serem “raivosas”, mas como você se sente diante de injustiças? Sai pulando pelo bosque? O inconformismo em algumas situações é necessário.

É preciso começar a sonhar e planejar um mundo diferente, mais justo. Homens e mulheres mais felizes com si mesmos. O machismo presta um desserviço aos homens, que têm de provar sua masculinidade associada ao dinheiro. É também um desserviço às mulheres, que devem servir ao ego enfraquecido dos homens.

Quando li isso no livro, pensei muito nas questões de trabalhos atuais. O homem se via muito ligado ao trabalho e a prover o lar. No momento em que essa não é mais apenas sua atribuição, eles se veem diminuídos. Enquanto isso as mulheres acumulando funções de trabalho e tarefas domésticas. Se todo mundo visse todas as obrigações como conjuntas não seria mais fácil todos estarem satisfeitos com seus papéis?

Pode parecer utópico, mas segundo a própria autora, devemos pensar em quem nós deveríamos ser, em vez de quem somos. O mundo tem mudado. É preciso ensinar as crianças igualmente. Eu cresci em uma casa só com mulheres, avó, mãe e irmã. Eu não sabia muito bem como era conviver com homens. Uma das primeiras lições aprendi na casa da minha amiga Juliana, quando ouvi a mãe dela dizendo que o irmão não precisaria lavar o copo de suco por ser homem. Sabe, é a minha geração. Não é há 50 anos. Esse menino cresceu e deve estar por aí em algum lugar na Zona Norte achando que a companheira dele é uma megera feminazi por ela desejar que ele lave um mísero copinho (e quem cozinha sabe que, minha nossa, louça é infinita!) Desaprender lições internalizadas é muito difícil.

A autora se esforça para mostrar que homens pobres também passam dificuldades, mas vamos de um assunto por vez. Gênero e classe social são tipos diferentes de opressão. Além do mais, como já dito, igualdade é algo bom para todos os lados.

Precisamos acertar sim uns pontos da nossa cultura e ela fala algo muito legal sobre isso: “Cultura tem a ver com a preservação e continuidade de um povo. As pessoas fazem a cultura, não o contrário.” Matar gêmeos fazia parte da cultura de alguns povos africanos, ainda bem que ficou entendido que essa parte da cultura não precisava mais ser preservada.

Ufa, terminei. Assistam ao TED, leiam o livrinho. Vocês vão gostar.

 

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18 comentários em “Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie

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  1. Oi Val!
    Nos exemplos de autores q citou lembrou -me o Saramago. Eu consigo ler suas obras até mesmo Caim pq não me apego a pessoa, ou a religião, ou a sistema político. No entanto, vi muita gente em Portugal a criticá-lo sem nunca ter lido uma obra dele. Tanto q ele quis viver p Espanha.

    Qto ao feminismo está mais vivo do q nunca e penso cono vc.
    Outro dia, eu presenciei o diálogo entre uma muçulmana da Síria e uma senhora belga. A da Síria disse q a filha já em idade escolar obrigatória não ia a escola pq a escola não aceitava o véu, então esta perguntou qual o problema dela ir com o véu. A sra belga respondeu q aqui a mulher é considerada igual ao homem nos seus direitos e deveres. E parou por aí.
    E, eu senti q a sra belga queria dizer, mas não disse q o véu é um símbolo de submissão.

    Eu tb gosto de ver aqui q existem muitos professores do sexo masculino como professores da escola primária. Afinal, quem disse q ser professor da primária é coisa de mulher.

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    1. Oi, Silvana!! Obrigada pelo comentário. Estou voltando aos pcos para cá, mas já havia lido o seu comentário logo quando você enviou. Interessantes as questões que você notou, esse assunto dá pano p/ manga, né? Acredito que todos saiam ganhando quando há mais liberdade e menos convenções… Bjos e muito obrigada por me acompanhar aqui!!

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  2. Olha só, eu vou parar de falar o quanto eu admiro seus posts pq já está ficando repetitivo, hahahaha… Val, eu não tinha ideia do que era o feminismo, na verdade minha visão era completamente errada, mas depois que entrei na Letras a minha “cegueira” foi curada, rs Percebi que eu já era feminista e não sabia, claro que há várias vertentes dizendo e propondo coisas que não concordo, saí pesquisando muito sobre o assunto, de verdade, e cheguei a mesma conclusão que vc “Há muitas correntes, e a da Chimamanda é a “super light ponderada paz & amor para todos”, da qual também faço parte” hahaha. Eu até tento meio que “convencer” azamigas e mulheres mais próximas, mas é tão cansativo e preferi ficar na minha para evitar brigas e discussões desnecessárias (afinal cada um tem a sua opinião). Anyway, achei extremamente válida a sua colocação sobre os evangélicos, eu frequentava uma igreja evangélica por mais de 12 anos, (hj não frequento mais e nem me rotulo, se é que precisamos de rótulos, kkk), e é exatamente isso, não concordava com várias coisas, principalmente a intolerância homo afetiva.. Bom, esse livro é maravilhoso! ❤ Bjos

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    1. Cá, obrigada pelo seu comentário! Estive ausente… Estou fazendo um curso para ser avaliadora de redação do enem, a especialização tb, por isso demorei séculos para voltar p/ cá. Adorei seu comentário. Vejo vc e lembro dos marcadores que nunca chegaram… rs Estou cuidando disso tb, em breve novidades.. hehe Bjs!!

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  3. Eu acho que como tudo na vida, excesso nunca faz bem.
    É claro que tem aquelas que se dizem feministas que querem acabar com os homens, mandarem no mundo e sei lá mais o que, eu acho isso uma super besteira! E isso acaba com a ideia do que o feminismo realmente é, o feminismo que as mulheres tanto lutam há tantos anos, por igualdade!
    Tenho a impressão de que aos poucos isso está mudando, quero acreditar que em um futuro próximo as pessoas sejam mais tolerantes, tanto com o feminismo quanto com os outros problemas que a sociedade enfrenta!

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  4. Oi Val! Ótima reflexão e é sempre bom saber do seu ponto de vista, normalmente, super concordo! Sempre muito sensível e equilibrada. Está na minha lista comprar os livros da Chimamanda, estou com outras prioridade, detalhes, uma hora acerto essas leituras. Já os vídeos eu sempre assisto, rs! Ela tem sido inspiração para minhas reflexões e textos. Estou realmente acreditando que a melhor maneira de encontrar respostas para as minhas questões pessoais é escrevendo e buscando acertar os ponteiros onde ficou vago. Não adianta ser radical e se vitimizar, nem se calar aguardando um milagre que mude tudo. Antes não gostava de usar o termo feminista, mas, agora tento dialogar e assumi. Eu faço parte da reconstrução de uma sociedade melhor, se expor e tentar dialogar faz parte. ❤ 🙂 Beijos

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi, Mi!! Eu havia lido seu comentário logo quando você o postou, mas estive ausente, estudando um bocado. Espero que esteja tudo bem com você!!! A Chimamanda é ótima, você vai adorar ler. Bjs!!

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  5. Oi Val! O tema feminismo é um tema que sempre gera polêmica e simplesmente pelo fato de mulheres estarem buscando o seu espaço. Primeiro eu já acho um absurdo homens darem seu pitaco no movimento, a maioria segue o senso comum e não procura entender o que siginifica o movimento, agora, mulheres que são contra o movimento não dá pra entender mesmo, é muito ódio no coração e falta de empatia!

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    1. Você usou uma palavra importe: empatia. Basta um homem tentar se colocar no lugar das mulheres, como em relação aos últimos acontecimentos, que facilita um “pquinho” o entendimento. 😉 Bjs e obrigada pelo comentário!

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  6. Oi Val!
    Assisti ao TED da Chimmamanda há 2 anos atrás e desde então tenho muita vontade de ler esse livro, pois essa palestra em específico foi uma das que me fizeram abrir os olhos para o Feminismo e perceber que, sim, eu também já era feminista antes mesmo de conhecer o feminismo.
    Seu post tá incrível, muitas questões válidas levantadas!
    Parabéns!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Marcela! Obrigada pelo comentário. O livro é bem parecido mesmo com o TED, e uma leitura bem rápida 🙂 Acompanho suas postagens no facebook e sei que é um assunto que você está bem por dentro. Vale a pena ter o livro até mesmo para repassá-lo a outras pessoas 🙂 Bjs!

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  7. Amo esse livro. Conheci esse e o outro talk da Chimamanda e me identifico com essa luta cultural. Parto do princípio que sempre precisamos nos aprofundar para tomar partido. Do que já pude entender, me reconheço como feminista na busca de direitos iguais para todos os seres humanos, inclusive, independente de gênero, classe social, cor, etc. Terminei de ler um livro maravilhoso da espanhola Rosa Montero que se chama Histórias de Mulheres e devo publicar a resenha. Ela mostra, através da biografia de 16 mulheres, que não se trata de encontrar heroínas mas de observar como lidamos com a desigualdade através dos tempos. Assim, nossas pequenas lutas de hoje abrem caminhos para as que vem depois da gente. Como sempre, adorei seu texto. Muito bom trocar ideia. uma beijoca pra vc!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Bárbara, obrigada pelo comentário 🙂 Interessante que os acontecimentos da última semana tornaram mais explícito o fato de que tudo isso precisa ser ainda muito debatido. Bjs!

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