Filme “Mãe!”, de Darren Aronofsky

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Uma imagem sacra, cheia de pequenos danos, Mãe!

Nunca fiz um post específico sobre filme, porque eu tenho uma relação um pouco difícil com o cinema. Acredito que eu tenha gostado de verdade de no máximo uns 20 longas na minha vida inteira. Pode ser até alguma falha cerebral, mas eu não consigo sentar pacientemente para assistir à maioria das produções. Talvez eu tenha um pensamento vagaroso para imagens em movimento…

Algo que me irrita um pouco tanto em literatura quanto no cinema, é quando fica muito evidente que os criadores estão querendo “agradar” o espectador/leitor. É justamente isso que me dá aquele “bode” de assistir a novos filmes (exemplo: o trailer de Thor Ragnarok); porém, “Mother!” está longe disso, aliás, parece ter sido feito justamente para nos tirar de um lugar de conforto. Trata-se de uma obra extremamente simbólica, portanto, a recepção do filme vai depender muito do que o espectador traz de bagagem e o quanto se permite trocar ou consubstanciar de si com o que aparece na tela.

As mensagens são múltiplas, e é um filme tão inusitado, que é até estranho ter um grande orçamento em Hollywood. Se você estiver buscando uma história, um enredo, não vai gostar do que verá na tela. Se estiver à procura dos clichês comportamentais que o mantêm em um lugar conhecido, também não. A experiência demanda extrair simbolismos de alguma forma, muito longe de uma interpretação certa ou errada, mas é preciso transportar esses arquétipos a determinada vivência, visão, mesmo que seja algo apenas seu.

Vi uma entrevista com o diretor, em que ele diz que esse é o tipo de filme em que não há “spoilers”. De fato, acredito que não faça muita diferença saber ou não o que vai acontecer, pois a experiência de assistir às cenas é única. Bom, só para avisar, vou contar, sim, a maior parte do que se passa no longa, então, tecnicamente este post se encaixa na categoria “com muitos spoilers”.

Os personagens não possuem nomes e isso logo deve despertar a questão simbólica ao observador menos inocente . Jennifer Lawrence é “Mãe!”. O nome do filme e de uma das personagens principais já tem uma carga simbólica enorme. “Mãe” é origem de vida, figura feminina, pessoa devotada; sagrada, porém muitas vezes explorada; “Mãe Natureza”, “Mãe Terra”. Nossa sociedade tem essa figura da mãe como aquela pessoa que dá sem pedir nada em troca.

Javier Barden, especialista em fazer cara de doido, dá vida ao “Poeta”. Um poeta é, de fato, um criador, que junta pequenas peças em uma obra maior, vivificando as palavras ao conferir a elas ritmo e lirismo. O poeta é um escritor e, se pensarmos só em português, há muitas referências a Deus como o escritor da vida: “Deus escreve certo por linhas tortas”, “O que Deus escreve ninguém apaga”. Na Bíblia, também, e por diversas vezes, como o “Verbo divino”, além de referências ao “livro da vida”. O próprio personagem se apresenta, em determinado momento, como o “Eu sou”, um dos títulos divinos cristãos.

“Mãe” e o “Poeta” são um casal, e a tríade de personagens principais encerra-se na casa, que em diversos momentos parece um ser vivo, realmente, com um coração batendo e feridas. A ocupação fundamental de Mãe é cuidar desse lar, zelando para que tudo esteja em bom andamento, porém, vemos que o serviço nunca está acabado, sempre há mais reparações, que ela faz com muita dedicação. Enquanto isso, o Poeta passa por um bloqueio criativo à medida que busca escrever uma nova obra.

A união parece estar em harmonia, mas aos poucos, percebemos que há um peso muito grande sobre “Mãe”, pois esse não é um relacionamento de partes iguais. O acontecimento que inicia o seguimento de fatos a mudar a rotina tranquila do local é a visita de “Homem”. A partir daí, a sequência da narrativa bíblica fica muito clara, pois o “primeiro homem” é justamente Adão, e na tela vemos a ferida em sua costela. Subsequentemente, e na ordem da criação, chega sua esposa, que desobedece às normas locais, entra em um local proibido e, juntamente ao seu marido, quebra uma pedra preciosa. Os dois são expulsos dali e, segundos depois, Mãe os vê em ato sexual em seu próprio quarto.

O tempo todo, fica evidente que a matriarca não está contente com os visitantes e com seus atos, e que se sente invadida e magoada pelo Poeta ter permitido a entrada e estadia dessas pessoas, sem ter ao menos lhe consultado. Adiante, chegam Caim e Abel, e presenciamos o primeiro assassinato. Mãe luta com todas as forças para impedir que isso ocorra e fica extremamente transtornada com essa morte em sua casa.

O Poeta parece ter apreço maior pelos visitantes, pois preocupa-se quando Homem passa mal e Mulher queima a mão na frigideira, porém, os mesmos problemas acometem Mãe e ele não se importa. Cansada de toda a situação e se sentindo preterida, Mãe desabafa sobre a falta de um relacionamento real e afetuoso entre os dois, eles acabam passando uma noite juntos, e logo ela está grávida.

Interessante notar que, concomitantemente, o bloqueio criativo do Poeta se encerra. Não quero magoar qualquer pessoa que acredite em Deus e tenha uma visão amorosa da Bíblia, mas dentre todas as interpretações possíveis do filme, a que chamou mais minha atenção foi a da visão de Deus como um ser vaidoso, narcisista, que não sabe o que está fazendo, ou, no mínimo, não se importa com suas criações. Talvez não Deus exatamente, mas o “fator Deus”, como explicado por Saramago (naquele livro que ganhei do Jorge, lembram?), ou seja, o que culturalmente acreditamos ser Deus, o que atribuímos como sua vontade ou responsabilidade.

Parece que os homens saíram do controle do criador, ele não sabia como agir e teve a brilhante ideia de ter um Filho para permanecer no controle da situação. Assim, ele volta a escrever e tem sua obra adorada por todos, enquanto Mãe continua em segundo plano.

A personagem de Jennifer Lawrence é repleta de representações. Podemos vê-la como a figura feminina na história mesmo, muitas vezes explorada, sem voz. Também como a figura materna de modo geral, por dar à luz o filho de Deus e, principalmente, como a Mãe Natureza. Ela cuida tão bem do que é seu, mas não tem controle sobre o que os homens fazem em seu território. Isso fica claro quando mais e mais pessoas vêm à casa celebrar o autor pelo seu novo sucesso e demonstram total desrespeito pelo local.

Tem início uma balbúrdia total, confusão de vozes e ações. Ela tenta avisar diversas vezes às pessoas que não se sentem sobre uma pia, por ainda não estar chumbada, porém elas não a ouvem e permanecem no erro, até que há um rompimento e a casa é inundada. Se seguirmos a sequência dos acontecimentos bíblicos, esse fato pode se comparar ao dilúvio, ou em uma visão mais focada na natureza, os diversos alertas que temos recebido há tanto tempo sobre aquecimento global, entre outros problemas ocasionados pelo homem, e seguimos o curso regular, sem nos preocuparmos com os avisos da natureza; uma hora, os desastres naturais são inevitáveis.

Até Mãe ver-se grávida, ela fazia uso de uma substância amarela, como um ópio, em meio às situações difíceis, um analgésico, algo que a mudasse de dimensão para poder escapar da realidade. Talvez seja uma referência a cuidados paliativos que damos a essas questões do Planeta, sem chegarmos a soluções reais.

O bebê nasce em meio a grandes confusões e o Poeta o apresenta aos homens, que logo o sacrificam e comem seus pedaços, remetendo ao sacrifício expiatório e aos sacramentos. A situação tem seu ápice, Mãe não suporta mais tamanhas violações e se enfurece. A casa pega fogo e vemos que tudo é destruído, exceto o Poeta, que recria a casa e uma nova “Mãe”.

O final me trouxe diversas reflexões não encerradas ainda. A figura divina como o ser que tudo pode e, por ser eterno, não se importa tanto com suas criações, pois a qualquer momento pode refazê-las a seu critério. Essas criaturas existem para adorá-lo, e o lugar em que vivem trata-se de mero cenário para sua atuação.

Nesse sentido, Deus seria uma entidade perversa. Ou, pelo menos, o fator “Deus”, sim. Enquanto acreditamos que há um ser “no comando”, talvez não precisemos mesmo nos importar com o Planeta e tantas questões sociais e naturais que o envolvem, pois ele “sabe o que faz”. Também penso no filme como um questionamento “pensamento dogmático” x “pensamento científico”. Os homens parecem dar mais atenção a Deus, sua escrita da vida e seu filho do que ao conhecimento acumulado e à ciência e, dessa forma, é muito difícil aliar as duas visões.

Se em breve virá um fogo dos céus e purificará a Terra, porque então precisaríamos nos preocupar com nosso legado neste planeta, não é mesmo? É uma questão a refletir, entre várias outras, e esse é o ingrediente mais interessante do filme: as diversas interpretações. Como exemplo, a Ju fez uma resenha totalmente diferente da minha, concentrando-se no viés psicanálitico, e foi enriquecedor perceber outra abordagem.

Às pessoas que ouvi dizer não terem pensado nada demais ao ver o longa, sentiria dizer que o que ocorre em nosso país, e mundo, enfim, possivelmente seja o que se passa ao assistirmos cenas como essas: tudo se desenrolando bem diante de nossos olhos, sem que nos esforcemos para, de fato, ver.

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11 comentários em “Filme “Mãe!”, de Darren Aronofsky

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  1. Comecei a ler o post e a medida q eu avançava na leitura pensei: o Saramago ia gostar de ver esse filme. De repente, você cita Saramago. Rsrs
    Fiquei curiosa com o filme. Os atores conhece-os. Parece uma química estranha. Funcionou este casal de atores? Como está recebendo este filme a sociedade brasileira? Cheira-me a nova polêmica.

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    1. Olha, vou te dizer que esse filme tem TUDO a ver com Evangelho segundo Jesus Cristo e só não falei isso porque só falo no Saramago, as pessoas estão se cansando disso…. rs
      Então, a química estranha é justamente do que se precisava nesse filme!! Porque eles são um casal bem desajustado. Ele parece que vive em outra dimensão, sabe, não está nem aí para nada. É o tipo de casal que se estivesse junto na vida real, ia dar vontade de dar o toque para ela “sai dessa”…. Rs Sinceramente, acho que as pessoas não estão captando ou estão pegando só uma outra parte do filme. Essa parte mais relacionada a um Deus egocêntrico só ouvi uma jornalista citando em uma entrevista com diretor. Não sei se as pessoas são muito presas a outra forma divina, então preferem não ver essa crítica. Bjs!

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  2. OIes Val! Eu estou muito curiosa para assistir a esse filme, e confesso que assim que li o parágrafo e que diz que há spoilers eu parei de ler hahaha. Eu tenho corrido ao máximo de spoilers desse filme, mas quando eu assistir volto aqui para deixar as minhas impressões 😉 Bjos

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    1. Oi, Cá! Eu acho que um spoilerzinho nesse filme cai bem. Rs. Pelo menos o spoilerzinho do bem já ajuda que é saber desde o início que tudo é símbolo nesse filme. Depois vou querer saber suas impressões 🙂 Bjs!

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  3. Val, gostei demais do teu texto e as relações bíblicas haviam me escapado. Mesmo assim não consegui gostar do filme pois achei sua execução muito exagerada e o texto didático demais. Parece que o autor não quer que pensemos pois os personagens explicam tudo que acontece quando falam. Acredito que isso acontece com muitos filmes, infelizmente, pela necessidade de serem entendidos e apreciados por um público mediano que eles julgam tenha pouca capacidade de interpretação. É uma equação difícil, pois arte em Hollywood precisa ter alto retorno financeiro. Mas eu esperava mais ousadia formal para tratar de um tema tão eterno e universal.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Vilson!!
      Tudo bem? Acho que há uma camada primeira muito aparente, mas as questões relacionadas a Deus foram as mais importantes para mim, talvez por muitas coisas que eu tenha vivido nos últimos anos, como mudança de crenças e modo de ver o mundo, então esse tema referente a visões dogmáticas x visões científicas é muito caro para mim e dificilmente é tratado com a importância que tem, pois tende a ser visto mais como uma disputa entre opiniões. Eu acredito que a crença em um Deus que faz tudo e cuida de tudo limita muito o homem e faz com que a humanidade retroceda, por isso, o modo como é retratado no filme me chamou muito a atenção, mais do que apenas a parte ecológica, que em si é fundamental, mas as vidas das pessoas mesmo, os caminhos da humanidade, parece que a Terra simplesmente será purificada pelo fogo e o resto tanto faz. Bom, algo por aí!!

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