7. Trecho ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

De volta ao Projeto “Clarice Lispector – Todos os Contos“!

Com este conto “Trecho”, chegamos à página 100 do livro, o que parecia ser um bom sinal, porém esse texto me bloqueou, pois eu pensava não ter nada a comentar sobre ele. Decidi relê-lo e caminhar ao meu modo, pois os escritos de Clarice às vezes vivificam e desbanalizam o clichê de que não há muito o que dizer, apenas sentir…

portrait heart christian schloe
“Portrait of a heart”, Christian Schloe

O narrador também não nos engana, pois já avisa na primeira linha que este não é um conto de grandes acontecimentos, na verdade, de nenhum:

“Realmente nada aconteceu naquela tarde cinzenta de abril.” (p. 94)

Em um bar, há uma mulher, Flora, esperando um homem, Cristiano, que havia lhe dito que a chegada dele constituiria “o grande fato, o acontecimento máximo de suas vidas”. Ela avisa o garçom que espera por um amigo e nessa simples interação, já percebemos que ela se sente desconfortável, pois se entristece ao pensar que tem um semblante de mulher “abandonada” e, em seguida, vemos que usa um vestido que lhe aperta e causa terror ao imaginar ter de se levantar com a saia tão justa.

Vemos que estar ali, naquele lugar, junto a outras pessoas, remete a ela um momento da infância, em que a mãe lhe dava “panelas de verdade”, para brincar de “dona de casa”. Há algo na vida dela que não é genuíno. Aquele momento em que ela se encontrará com Cristiano em um local público, em meio aos demais, confere um aspecto de realidade ou normalidade à sua vida.

Há uma clara contraposição entre os homens e as mulheres neste local: eles fumam grossos charutos, em uma expressão de virilidade; já elas mordiscam delicadamente seus doces para não manchar o batom e manter intacta a imagem de feminilidade. Enquanto isso, a protagonista imagina uma cena em um lugar distante, com os mesmos personagens. Percebe-se que ela recorre frequentemente a um mundo imaginário.

Tal aspecto é reiterado pelo narrador, que ao relatar a sensação de Flora entre os extremos da vinda de Cristiano, com a promessa de que sua vida mudaria naquele dia, e a possibilidade de ele não aparecer, lembra-se que ela, momentos antes de dar à luz, viu uma mosca e começou a pensar sobre a vida dos insetos. Viver no momento real e presente é difícil para Flora, ela está acostumada a divagar.

É possível inferir que ela já o esperara em vão em outros momentos, devido ao medo constante dela quanto a isso, expresso desde o início do conto. Entram e saem pessoas, o tempo corre. O garçom lhe traz um refresco não solicitado e o narrador cede lugar aos pensamentos de Flora:

“Eu não quero refresco, quero Cristiano! Tenho vontade de chorar, porque hoje é um grande dia, porque hoje é o maior dia de minha vida.” (p. 95)

Ela deseja reprimir tal anseio em algum lugar escondido, mas, ao mesmo tempo sente-se tão inexistente aos olhos dos outros, que se imagina gritando a todos o quanto é real e pode sentir muito mais do que todos aqueles que são “vistos”. Começa a pensar em Cristiano, e temos a confirmação de que “Nenê” era filha dos dois e que ele não era presente na vida delas, pois ela conjectura a respeito de qual delas ele perguntaria primeiro.

O narrador atesta que Flora, desde muito pequena, aprendera a brincar e fazer o papel que fosse necessário, assim “brincar de amante de Cristiano”, não lhe fora difícil. No entanto,

” ela não era nenhuma daquelas personalidades que encarnava para se divertir ou por necessidade. Flora era outra que ninguém descobrira ainda! Eis o mistério.” (p. 96)

É possível ver na construção desse conto, uma grande questão de identidade. O “papel” que Flora exerce, como amante, torna-a uma pessoa a ser escondida, não vista pelos outros, porém essa representação anula não só sua presença ou aparência, a sua personalidade também se oculta. Ela pode tomar a “máscara” necessária no momento e agir conforme o roteiro, mas quem ela é de fato permanece escondido. O tema expande-se para o “lugar” da mulher, em geral, pois ela atua conforme a trama escrita por Cristiano, assim como as ações dos dois gêneros são muito bem delimitadas na cena do bar.

Passa-se uma hora e ele não vem. Ao pensar no que ele diria diante de sua náusea, demonstra que seria comum Cristiano citar o quanto ela precisava dele e era incapaz de agir corretamente sozinha. Interessante notar que ela não havia pedido aquela bebida, o garçom que lhe dera o refresco de café que lhe fizera passava mal, tornando o vômito inevitável.

Flora volta do toalete humilhada. Tanto tempo decorreu desde sua chegada, que o cenário no bar já mudou: há uma banda tocando e pares que decidem dançar. Olha-se no espelho e pensa se aquela que vê é realmente ela. Afinal, quem seria ela? Essa questão é muito forte, pois parece que ninguém a vê por si só, é necessária a existência de uma figura masculina para que os outros a percebam, ou podemos pensar também que a mulher existe segundo seu papel: é a mãe de alguém, a namorada de alguém; a sua essência é difícil de alcançar, parece que não é legitimada em si mesma:

“Pois se o Cristiano não vier, quem dirá a toda essa gente que eu existo? E se eu, de repente, gritar pelo garçom, pedir papel e tinta e disser: Meus senhores, vou escrever uma poesia! Cristiano, querido! Juro que eu e Nenê somos suas.” (p. 99)

Um homem a chama para dançar e ela recusa. Pensa sobre toda a situação, mais uma vez entramos em sua mente e vemos ali seu choro contido e a vontade enxugar as possíveis lágrimas sem que ninguém visse. Repentinamente, entra Cristiano, finalmente. Na mesa ao lado, um homem refere-se às palavras de uma mulher como tolices.

Flora resolve que nunca perdoaria Cristiano por aquela espera e humilhação. Pensa que faria mais sentido se ele não tivesse vindo. Em sua mente, decide que seria a hora de aquela Flora desconhecida de todos aparecer. No entanto, às primeiras palavras dele, referindo-se à saudade que sentia por ela, esquece-se “da saia apertada” e lhe fala com doçura.

Nessa segunda leitura do conto, ficou muito claro que é preciso ler parte a parte e com atenção os contos de Clarice, há muitas sutilezas. Ela fala da mulher com muita profundidade, há diversas questões envolvidas. Pensei nos nomes dos personagens, “Flora”, como essa expressão de delicadeza, fragilidade. Alguém que precisa de cuidados, mas ao mesmo tempo tem uma grande força inata a qual desconhece. “Cristiano”, remetendo a “Jesus Cristo”, enfim, alguém que redimiria Flora.

As questões de gênero estão muito claras nas passagens citadas, com os homens “comandando” as cenas: o garçom traz algo não solicitado e Flora passa mal com o que deveria ser um “refresco”; toda a narrativa envolve a espera da chegada de Cristiano; um homem convida Flora para dançar e sente-se ofendido com a recusa; na mesa ao lado há outro homem desprezando a fala de uma mulher. Nas lembranças da personagem feminina, Cristiano a trata como uma “criança” e ela facilmente o imagina mencionando como ela era incapaz.

Também se evidencia nos elogios que ela gostara de receber, o quanto as “qualidades” da mulher dependem da validação masculina: o elogio de Cristiano para o vestido novo, do professor de francês para sua escrita e, mesmo quando vem de uma mulher, da mãe, refere-se aos homens: “Quando isso crescer vai prender qualquer um”.

Claramente a existência da personagem principal depende do seu papel na sociedade e tal função é delimitada pela presença masculina em sua vida. Ela tem uma filha com Cristiano, e sabe que se ele assumi-la, sua vida pode mudar. Enquanto ela é a “amante”, permanece relegada, sem que ninguém a veja. Mesmo se ele decidir formar uma família e não um “grupo”, como ele define o relacionamento entre os três, ainda assim, ela terá apenas um novo “papel” determinado pelas circunstâncias impostas por ele. A verdadeira “Flora” permaneceria um mistério.

No fim sua fragilidade é exposta, ela se esquece da “saia justa” diante das “amorosas” palavras de Cristiano. A expressão “saia justa” é bem difundida na língua portuguesa e com ela podemos pensar em um símbolo muito forte na relação entre as mulheres e os homens. Note-se que, no conto, fica claro que ela não usa essa peça de roupa simplesmente por seu gosto, pois é algo desconfortável, que a irrita. É evidente que ela a usa para parecer agradável aos olhos de Cristiano, logo, esse é um símbolo muito forte nessa relação, pois ela põe sua própria vontade abaixo da ele, por vezes anulando-se, ao ponto de se olhar no espelho e ela mesma não saber quem é.

Quando o narrador cita que ela se “esquece” de tal incômodo, fica claro que a vontade de Cristiano prevalece sobre a dela. Retornando aos pensamentos de Flora sobre as moscas, talvez seja possível pensar analogamente às mulheres e a por que sujeitamo-nos tanto tempo aos “desconfortos” dos nossos papéis:

clarice lispector conto mulher papel

~ ~ ~

O próximo conto a ser analisado será Cartas a Hermengardo. Caso você não tenha o livro “Todos os Contos” para ir acompanhando a leitura, recomendo o seguinte link. Venha ler comigo!

Obrigada, pessoal!

Clarice Lispector Todos Contos Análise Resenha Livro

Este post é parte do Projeto Clarice Lispector – Todos os Contos! Clique aqui para ver a introdução e o índice de leituras.

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5 comentários em “7. Trecho ~ Clarice Lispector – Todos os Contos

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  1. Cheguei aqui…ufa.
    Eu vejo tanta coisa, q tenho dificuldade em dizer onde vi a coisa.
    Eu vi um comentário na tentativa de colocar Lispector como louca.
    E tenho visto muita gente classificar feministas também como loucas.
    Aliás, ataques típicos de quem não tem argumento.
    Cheguei à conclusão, que as pessoas não sabem o que é feminismo. Ou será q estou errada?
    Uma pessoa do género masculino pode ser feminista. E ser feminista não é ser contra o género masculino ou não gostar dele.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Rs! Ficou comprido o post, né? Acontece com esses contos, é muita coisa… rs Eu acho também que há alguns enganos sobre o que é feminismo e sobre o que as mulheres estão falando, e justamente por que não são simplesmente “loucas”, mas também alguns assuntos têm tomado maior proporção e isso deve ser bom. Um dia chegamos lá 🙂

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  2. Eu tenho esse livro aqui também e pretendo ler esse ano. Já li alguns contos soltos dela, mas vou tomar vergonha e ler o livro todo. haha É que Clarice não é fácil, né. Não dá pra sentar e simplesmente ler tudo de uma vez. Essa mulher mexe comigo. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Nataly! Sim, mexe mesmo… tudo de uma vez acho que nem é tão bom, o legal é ir degustando aos pouquinhos, mastigando vagarosamente 😉

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