Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Vidas Secas, Graciliano Ramos

“Vidas Secas” é um livro sobre seres humanos em contextos de extrema dificuldade, mas, para mim, é sobretudo um estudo sobre a linguagem. É tocante como as pessoas, já em situação de enorme pobreza e ausências, sentem-se ainda menores e são subjulgadas por não conseguirem se expressar adequadamente, por acharem que não são aptas ou por de fato não poderem articular suas ideias como aquelas que consideram superiores de alguma forma.

É um livro de silêncios e impossibilidades. Fabiano tenta dizer algo, precisa, na realidade, mas fala mais aos monossílabos, gestos e grunhidos. As crianças não podem expressar dúvidas. Quando o menino quer saber o que é o “inferno”, percebe que se trata de uma palavra proibida. O pai sente-se injustiçado, mas não sabe ler, é enganado sempre e sabe que continuará sendo. A mãe tem algum nível de letramento e, ao dizer que as aves vão matar o gado, Fabiano matuta a metáfora por um bom tempo, até entender a linguagem figurada, algo tão distante do seu mundo obrigatoriamente lacônico.

Sem língua, sem possibilidades, sem água, a família, até então composta de pai, mãe, menino mais velho e mais novo, e baleia, a cadelinha mais ilustre da literatura brasileira, sentem-se coisas, ou seja, objetos que recebem ação, não agem. As poucas ações são decorrentes das circunstâncias, não há escolha, nem liberdade. Os meninos não têm nome e mesmo “fabiano” é a designação de quem não precisaria tê-lo também, segundo o Dicionário Aurélio:

“2 – Designação vaga e depreciativa de indivíduo que se não quer nomear.
3 – Fulano.
4 – Indivíduo inofensivo.

Sinha Vitória tem nome e um nome lindo, de guerreira, de sonhadora, de quem passa por tudo, vence o mundo. Mesmo assim, o sonho de Sinha é dormir como “gente”, ter um colchão. Nas festividades de fim de ano, eles apertam-se nas roupas das pessoas da cidade, em um incômodo para estarem mais próximos de uma coletividade que julgam “gente” de verdade, pessoas que sabem dizer, que têm voz. Os meninos mal podem acreditar na existência de todo aquele “mundo” de beleza e objetos que, obviamente, não sabem nomear.

No começo do livro, o narrador pensa como Fabiano e conjectura sobre leitura e se aquilo adianta de alguma coisa. Chega à conclusão que não, não adiantaria saber de livros, que isso os deixaria loucos. De certa forma, é verdade. Enquanto eles têm aquela realidade para viver e poucas vontades, como dormir em um colchão ou caber em um sapato apertado, o mundo ainda é pequeno o bastante, assim como as injustiças menos revoltantes. Eles sabem dos erros dos mais fortes, dos poderosos, mas chegam a duvidar se mereceriam mesmo algo além disso. Se eles tivessem a convicção de que são pessoas e que podem ter a voz que seja, talvez fossem mais fortes, mas também mais infelizes.

A questão da linguagem é muito bonita, porque quem está falando isso é Graciliano, um mestre das palavras. Ele é um dos meus preferidos em literatura brasileira. São Bernardo foi um livro que me tocou profundamente e a leitura das obras dele mostra isso muito bem, cada palavra é importante, parece que foi reduzida ali, em alguma alquimia, até encontrar o último estado de lapidação.

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.

Ele tem consciência de sua sabedoria de artesão, que manipula os vocábulos no nível mais perfeito, mais genuíno. Por isso, há tanta beleza em ele se pôr no lugar daquela pessoa que mal consegue dizer algo básico e sofre por isso. Ele dá voz a quem não a tem, e isso é algo muito precioso na literatura. Ele usa sua voz de mestre para mostrar que essas pessoas existem e têm seus direitos básicos, como moradia e letramento, negados. Ele o faz para mostrar que, a despeito dos níveis diferentes de injustiças que nos acometem, no fundo todos somos muito parecidos. Faz refletir se é possível haver ricos, quando há em nosso meio pessoas tão pobres. Não há como ensinar a pescar onde não há nem mar, nem rio.

Ele não o faz só pelas pessoas, mas também por Baleia. Enquanto os humanos têm algo de animalesco, não em um sentido pejorativo ou negativo, mas de estado cru, de essência; Graciliano busca o que há de humano no animal, e mostra que somos todos muito parecidos, estamos todos juntos de alguma forma.

É dela que nasce o livro. O autor escreveu uma carta à esposa em que comenta ter escrito um conto sobre uma cachorrinha, e quão difícil era tentar pensar por meio do pensamento dela. Enquanto Fabiano e os meninos mal têm um nome que expresse algo, Baleia remete ao sonho do sertanejo: o mar. Ela é parte de seu bando, sonha com Sinha, trabalha por Fabiano, ao buscar alimento, e brinca com os meninos, dando-lhes certo alento. Entende menos ainda do mundo dos humanos, mas é capaz de sonhar, justamente na parte mais sublime do livro.

Em seu fim, Baleia sonha com a liberdade e um horizonte farto. Nas últimas páginas, Sinha sonha com a possibilidade de seus meninos estudarem. Não quer que eles sejam vaqueiros. É uma leitura muito bonita, pelo conteúdo humano, pela linguagem e pela quimera. Quando Sinha Vitória sonha, justifica-se o seu nome. A beleza do ser humano está na sua capacidade de sonhar, de não saber exatamente o que vem, mas mesmo assim continuar indo. Por tudo que lhe é tirado e renegado, mas ainda permanece a certeza de que enquanto há um sonho, há motivo para caminhar mais um dia.

Vidas Secas, Graciliano Ramos

Amei esse livro. É bem curto, acredito que porque o Graciliano faz esse trabalho de reduzir ao máximo as palavras. Cai na Fuvest e em outros vestibulares. Espero que os alunos estejam vendo a beleza do texto e pensando sobre o que é ser humano, e não decorando coisas sem sentido… rs

 

 

 

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9 comentários em “Vidas Secas, de Graciliano Ramos

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  1. “vidas Secas” é um livro magnífico, real, brasileiro/universal. essencial sempre. fico na análise do texto, com as últimas frases: “A beleza do ser humano está na sua capacidade de sonhar, de não saber exatamente o que vem, mas mesmo assim continuar indo. Por tudo que lhe é tirado e renegado, mas ainda permanece a certeza de que enquanto há um sonho, há motivo para caminhar mais um dia.” é a razão da vida em nós. Brilhante, Val. e que bom que você está de volta, faz muita falta. o meu abraço.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Val, sensacional demais seu texto 🙂 és a escritora da qualidade, não da quantidade 🙂 pode sair um texto por ano, por mês, etc, mas quando vem és certeira 🙂 tudo de bom e tudo o mais!

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  3. Ei Val! Após anos de inatividade, voltei ao wordpress! Vim correndo dar uma olhada no seu blog. Estava com saudades das suas resenhas!
    Eu adoro “Vidas Secas” e você fez justiça a cada página da obra.
    Amei saber o significado de “Fabiano”. Não fazia ideia!
    Aliás, ter procurado tantos significados foi brilhante!
    Grande abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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